O lume da tocha

O saudoso Stanislaw Ponte Preta estaria repleto de material com essa história de tocha. A luz da chama olímpica tem exposto nossas vergonhas a nós mesmos e ao mundo todo. O episódio da onça, o mais recente até o começo da tarde de ontem, quando este texto foi redigido, é só o mais pitoresco. Repito: até a tarde de ontem. Não sei o que pode acontecer entre a redação e a publicação deste texto.

A tocha vem deslizando pelo país, de norte a sul, de leste a oeste, das grandes metrópoles aos grotões esturricados, e vem alumiando tudo no caminho: hospitais que não funcionam, crise política, insegurança pública. São todos nossos velhos conhecidos, mas, com a tocha, a coisa toma proporções maiores.

Foi um erro a candidatura do Rio? Claro que foi. Assim como foi um erro a candidatura do país para a Copa. E o problema mora dos dois lados: os governos locais, loucos para fazerem sua propaganda, e os eventos em si, que, cheios de frescura, viraram ralos de dinheiro. Os valores biliardários enfiados em estruturas esportivas não me deixam mentir.

Apesar de tudo, ninguém imaginava que a olimpíada encontraria o país como ele agora se encontra. Quando das candidaturas, tudo estava em ordem — bem, em ordem para quem interessava; é difícil definir “em ordem” no Brasil —, as finanças iam relativamente bem. Ninguém percebia que se vivia numa bolha. Ou melhor, fingiam não ver, pois é impossível manter uma economia girando apenas com incentivo ao consumo. Os economistas que alertavam para um colapso, postergado por medidas paliativas, eram tratados por loucos pelos técnicos estatais.

E a ‘marolinha’ lulesca (sempre ela) virou um tsunâmi. Faltou a muitos uma luz que lhes mostrasse o que poderia acontecer. Muita gente simplesmente passou a persiana na realidade para que a luz não entrasse na sua sala cheia de eletrodomésticos parcelados em 48 vezes. Quem insistia era tratado como aquele profeta do apocalipse sujo e barbudo, que vem com a inseparável plaquinha. Nossos governantes merecem medalha de ouro em desfaçatez.

A marcha da tocha vem expondo nosso insustentável país. Chega de patriotismo barato e sem-vergonha, daquele que aparece na época da copa. É abrir os olhos e ver a luz, a luz dolorida da verdade, aquela luz que nos penetra violentamente a retina quando se abre a janela de manhã, jogando os olhos da penumbra do quarto para o esplendor da manhã. Parodiando Ungaretti, tudo isso c’illumina d’immenso. O problema é que a vista não é tão esplendorosa assim.

A tocha passará em breve por Araraquara. Sua luz nos fará ver novos horrores, além dos já conhecidos? Julho se aproxima. Aguardemos.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 23/6/2016.

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