O meu primeiro!

Por incrível que possa parecer, às vezes é difícil encontrar material para uma boa crônica. “A política abunda de temas”, me dirá o leitor. Certamente, mas quem aguenta ler mais sobre o congelamento de Dilma e as tentativas pífias de Temer para aquecer sua gestão? Deixemos a política à editoria correspondente e aos articulistas partisans e o clima à página 12 (veja lá, acho que o frio cede um pouco a partir de amanhã).

* * *

Ir ao supermercado, no geral, trata-se de tarefa comezinha e detestada por boa parte dos homens, que a fazem, ainda mais nestes tempos de igualdades, mas de má vontade. Afinal, tarefas têm de ser feitas, ou não teriam esse nome. Mas se você tiver ouvidos atentos, a tarefa pode ser de uma riqueza antropológica única.

Vamos dar uma volta; vamos primeiro à seção das verduras. Veja aquelas duas senhoras, ali, ao pé da banca das batatas. Aproximemo-nos devagar. O assunto, independentemente da época, é sempre o mesmo: o quanto as coisas encareceram. Elas têm e não têm razão. De fato, a inflação dos últimos tempos fez-se sentir na fatura do supermercado; em compensação, veja o aspecto das senhoras. Têm entre 65 e 70 anos, tempo de sobra para terem visto vários planos econômicos e a hiperinflação do começo dos anos 90.

As senhoras reclamam do aumento das batatas, dos pepinos, do pimentão — um absurdo de caro! — mas nem uma palavra sobre o porquê do aumento. Vamos ouvir mais um pouco; finja que está escolhendo cenouras.

A conversa é fatalista. Tudo aumenta, o dinheiro encolhe, como se fossem maquinações das profundezas do inferno. Nenhuma das senhoras cita um motivo possível. Não querem justificativas, querem cabeças.

Pergunto ao leitor se ele já teve horta. Se já, o que plantou? Cenouras, couve, tomates, o que todo mundo que tem ou teve horta tenta plantar. Teve problemas? Certamente! Pulgões, lagartas, granizo, chuva em excesso, falta de chuva. Pergunto ao leitor, e também àquelas duas senhoras que estão na banca das batatas, se é fácil cuidar de uma simples flor-de-maio. Não, não é.

Todos os problemas que tivemos, temos e teremos têm origens que vão além de uma conspiração universal contra a nossa pessoa. Temos o péssimo costume de fazer muito reparo aos sintomas, mas ignoramos completamente o que pode ter causado aquilo. Sofremos de raciocínio bidimensional, plano. Vemos apenas o nosso e ignoramos a cadeia de acontecimentos que resultaram naquele fato específico. E o pior: comportamo-nos assim com tudo: do preço das batatas a uma nota ruim na escola. Somos fatalistas do pior tipo e adoramos chorar as nossas misérias, de proclamá-las ao vento.

Cícero, quando teve de defender suas propriedades, fez um discurso que entrou para a história como “Cicero pro domo sua” (“Cícero por sua casa”, mais ou menos). Cícero ainda tinha razão. Nós podemos intitular nossos discursos também, mas seria algo como “O meu primeiro!”, e sem tanta razão quanto o célebre romano. Nós apenas queremos a casa de algum Milão para botar fogo.

Ao vencedor, as batatas.


Publicado na Tribuna Araraquara de 16/6/2016.

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