Coquinhos

Crise econômica não é novidade no Brasil. A primeira de grandes proporções devemos a Rui Barbosa, o celebrado Águia de Haia, e ao Visconde de Ouro Preto, que tentaram incentivar a indústria com crédito a partir da emissão de moeda; a única coisa que o chamado Encilhamento conseguiu criar foi uma bolha de crédito.

De 1929 já estamos carecas de falar — minhas desculpas antecipadas aos calvos, mas a referência é inevitável. Quebra da bolsa de Nova York arrastou meio mundo à bancarrota, inclusive o Brasil, que vivia de exportar café. A situação política brasileira ruim, que vinha aos atropelos desde o começo dos anos 20, foi coroada com a ascensão de Vargas ao poder. Quinze anos com a cara de Vargas estampada em cartazes, selos, moedas e cédulas.

Entre o final dos anos 50 e começo dos 60, a inflação acirrou os ânimos e fez com que o povo pedisse a cabeça de Goulart numa bandeja de prata. O remédio quase matou o doente: vinte anos de Exército à frente do Executivo federal.

Crises do petróleo. Entre 1973 e 1978, os preços do barril de petróleo destruíram a bonança do Milagre Brasileiro. Faltou fermento ao bolo de Delfim Netto, então todo-poderoso ministro da Fazenda, notório pelo exemplo de confeitaria. As crises dos anos 70 e o modelo keynesiano aplicado por Delfim Netto — desenvolvimento por endividamento do Estado — levariam o Brasil à crise hiperinflacionária (1986-1994). Fechamos 1993 com a inflação em 2.477%.

O plano Real conseguiu domar o dragão inflacionário, mas não as ondas que afetam a economia brasileira intermitentemente. A crise dos tigres asiáticos, que começou em 1997, passou pela Rússia em 1998, também aportou por aqui e resultou no abandono das bandas cambiais, em 1999, o que inicialmente implicou forte desvalorização do real. Em 2002, a crise argentina também deu suas caras, pela importância do comércio bilateral entre nós e o país vizinho.

Desde 2008, a “marolinha” lulesca da crise global veio subindo até virar o maremoto de 2014. O Governo brasileiro optou por inundar o mercado com crédito fácil e isenção tributária, decisões meramente paliativas. O preço está aí: não dá para manter ritmo econômico apenas com consumo; como não dá para manter comércio exterior forte com produtos primários. O brasileiro vive de monocultura ou de monomania, tem o péssimo costume de pôr todas as fichas num número só: café ou consumo, não importa qual seja a aposta única.

Enquanto insistirmos em viver de criação de coquinhos subsidiada, nada nos espera, a não ser a rabeira da história.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 9/6/2016.

 

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