Ismos e istas

Leio nos jornais de hoje que o Estado Islâmico pede aos muçulmanos que destruam seus receptores de tevê via satélite. O Estrago Islâmico (não leitor, não é erro de revisão; é “estrago”, mesmo) já pilhou e destruiu sítios arqueológicos importantes da área que ocupou ou ainda ocupa, como a cidade romana de Palmira. Ainda impõe a charia, executa aqueles que se negam a lutar no grupo e mata e estupra populações não muçulmanas da região.

Um problema grave da humanidade são os ismos; se o extremismo fosse o único a fustigar-nos, estaria já de bom tamanho. Com os ismos, vêm os istas, ou seja, sectários ou seguidores de determinado ismo, que o propagam e impõem-no.

Mas nem todo ismo precisa necessariamente ser imposto a pancadas ou com metralhadoras. Grande parte deles desliza pela sociedade ocidental de maneira sutil; todos se mostram como panaceia universal e querem curar os mais variados males que afligem as pessoas, como a miséria, a desigualdade social, o patriarcado, o sofrimento animal, e promover valores em tese positivos. Lembre-se: de boas intenções está cheio o inferno.

Geralmente, os istas de um ismo acabam por criar outro ismo inexistente para aglutinar o que se lhes opõe. Por exemplo, os socialistas criaram o conceito de capitalismo e o têm como sistema organizado de exploração da sociedade. Ora, não conheço nenhum Partido Capitalista ou União da Juventude Capitalista. É o mesmo caso do tabagismo, termo de origem claramente antitabagista; o antitabagismo, sim, é um ismo no sentido puro e criou para si um “campo de oposição”. Você já ouviu um fumante dizer que é tabagista ou que “pratica o tabagismo”?

Claro que não podemos juntar todos os ismos num só saco; mas eles têm em comum a crença em um sistema de organização que lhes é inerente. Quando falamos em liberalismo, por exemplo, um liberal (por que não “liberalista”?) tem a crença de que um Estado menor oprimirá menos as pessoas. O socialista tem a crença de que o Estado inicialmente tem de centralizar e operar todos os setores da economia para depois passá-los à autoadministração. Sabe-se muito bem que nenhum país socialista, do passado ou do presente, conseguiu a façanha, parando no que se pode chamar de “ditadura da nomenklatura”.

Crença aqui é no sentido de um conjunto de preceitos que formam um ismo, não na acepção mais mística da coisa, embora não fique lá muito longe desta.

Há ainda ismos que preconizam comportamentos, como o vegetarianismo, que, em suas várias facções, tem como base a abstinência de carne pelos mais variados motivos: da crença em toxinas cancerígenas no alimento ao motivo do sofrimento animal.

Fica ao leitor a minha recomendação: atenção com os ismos e, principalmente, com os istas.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 2/6/2016.

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