Monthly Archives: Junho 2016

Over the hills and far away

É bom “viver a cidade”, o lugar em que vivemos, mas não podemos fazer dela caixa ou redoma. Podemos e temos de olhar para fora, principalmente para ver como a situação externa pode nos afetar. Se vem tormenta, de pouco valerá o guarda-chuva chinês, esse incrível objeto que, à primeira ventania, vira antena parabólica.

Nos últimos tempos, tivemos uma safra de assombros sem precedentes; as reviravoltas políticas no Brasil entram na cornucópia. “Nunca antes na história desse (sic) país”, diria aquele ex-presidente, houve tanto rebuliço.

Mas deixando um pouco de lado Brasília e Curitiba — atualmente os nervos expostos do país —, é hora de uma escala em Londres. No último dia 23, houve no Reino Unido um referendo para decidir sobre a permanência ou não da terra de Sua Majestade Britânica dentro da União Europeia. A resposta foi um tímido não, recebido com perplexidade por gente que não entende nada.

“Mas como eles puderam?” Entenda: o Reino Unido nunca foi um país europeísta convicto. A entrada no bloco deu-se a partir de 1973, sob o governo de sir Edward Heath. No referendo de 5 de junho de 1975, a adesão às então chamadas Comunidades Europeias ganhou com 67,2%. Não estranhe; era assim mesmo: Comunidades Europeias, que eram um conjunto, incluindo aí o Mercado Comum Europeu. Com o tratado de Maastricht, em 1992, parte dessas comunidades formou a União Europeia.

O Reino Unido não tinha planos para adotar o euro, moeda que, aparentemente, só é boa para dois lados: a Alemanha, a Meany Ranheta da “pensão Europa”, e os turistas; a moeda única implicou a perda da soberania financeira dos países que o adotaram, que ficaram dependentes do Banco Central Europeu. Para os pequenos, como Portugal e Grécia, o euro trouxe-lhes um quadro de crise crônica após o deslumbramento inicial de terem sido “promovidos à Europa”.

Perda da soberania financeira, ingerência em assuntos internos, prestação de contas a um espantalho de parlamento do outro lado do canal da Mancha; situações que azedaram o espírito britânico. Um país que já mandou em um quarto do globo ver-se reduzido a província de Bruxelas e enredado na burocracia europeia é, no mínimo, humilhante.

Eu sempre tive comigo que, se um dia algum país deixasse o bloco, esse seria o Reino Unido. Dito e feito. Um alerta à Moody’s: estou disponível.

Um velho joke inglês narra que um englishman vê que o English Channel está sob forte nevoeiro, o que impossibilitaria a travessia até a França. Após alguns minutos de reflexão e umas baforadas no cachimbo, ele se vira ao interlocutor, outro gentleman, e diz:

— É verdadeiramente uma pena. O continente vai ficar isolado hoje.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 30/6/2016.

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Deux de pique na Caixa Econômica

A entrevista de Gilberto Occhi (O Estado de São Paulo, 12/6/2016), presidente da Caixa Econômica Federal, lembra a máxima de “O Leopardo”: as coisas mudam para permanecer iguais.

Mas há algo nas entrelinhas: entrevista exclusiva é para tranquilizar o mercado. Mas quem garante que o dito por Occhi será mesmo seguido? Num momento em que o Estado precisa ser diminuído, a Caixa é um banco digno de país socialista, sua pegada está em todas as áreas, necessárias (como o crédito imobiliário) ou não (patrocínio a times de futebol).

Com a conversa de muda-não-muda e uma bela fotografia de quarto de página, Occhi fala, mas não convence. As mudanças na Caixa — sejam elas quais forem, abertura de capital, privatização parcial — têm de vir e virão. O problema é tentar fazê-las ainda dentro do governo interino.

Occhi tem jeitão de deux de pique (1). Quem tiver occhi (2) verá.

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Monsieur Occhi

(1) Deux de pique, dois de paus, do francês quebequense, usado com o mesmo sentido no português “dois de paus”.

(2) occhi = olhos em italiano. O sobrenome do dignatário é um trocadilho de per si.

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O lume da tocha

O saudoso Stanislaw Ponte Preta estaria repleto de material com essa história de tocha. A luz da chama olímpica tem exposto nossas vergonhas a nós mesmos e ao mundo todo. O episódio da onça, o mais recente até o começo da tarde de ontem, quando este texto foi redigido, é só o mais pitoresco. Repito: até a tarde de ontem. Não sei o que pode acontecer entre a redação e a publicação deste texto.

A tocha vem deslizando pelo país, de norte a sul, de leste a oeste, das grandes metrópoles aos grotões esturricados, e vem alumiando tudo no caminho: hospitais que não funcionam, crise política, insegurança pública. São todos nossos velhos conhecidos, mas, com a tocha, a coisa toma proporções maiores.

Foi um erro a candidatura do Rio? Claro que foi. Assim como foi um erro a candidatura do país para a Copa. E o problema mora dos dois lados: os governos locais, loucos para fazerem sua propaganda, e os eventos em si, que, cheios de frescura, viraram ralos de dinheiro. Os valores biliardários enfiados em estruturas esportivas não me deixam mentir.

Apesar de tudo, ninguém imaginava que a olimpíada encontraria o país como ele agora se encontra. Quando das candidaturas, tudo estava em ordem — bem, em ordem para quem interessava; é difícil definir “em ordem” no Brasil —, as finanças iam relativamente bem. Ninguém percebia que se vivia numa bolha. Ou melhor, fingiam não ver, pois é impossível manter uma economia girando apenas com incentivo ao consumo. Os economistas que alertavam para um colapso, postergado por medidas paliativas, eram tratados por loucos pelos técnicos estatais.

E a ‘marolinha’ lulesca (sempre ela) virou um tsunâmi. Faltou a muitos uma luz que lhes mostrasse o que poderia acontecer. Muita gente simplesmente passou a persiana na realidade para que a luz não entrasse na sua sala cheia de eletrodomésticos parcelados em 48 vezes. Quem insistia era tratado como aquele profeta do apocalipse sujo e barbudo, que vem com a inseparável plaquinha. Nossos governantes merecem medalha de ouro em desfaçatez.

A marcha da tocha vem expondo nosso insustentável país. Chega de patriotismo barato e sem-vergonha, daquele que aparece na época da copa. É abrir os olhos e ver a luz, a luz dolorida da verdade, aquela luz que nos penetra violentamente a retina quando se abre a janela de manhã, jogando os olhos da penumbra do quarto para o esplendor da manhã. Parodiando Ungaretti, tudo isso c’illumina d’immenso. O problema é que a vista não é tão esplendorosa assim.

A tocha passará em breve por Araraquara. Sua luz nos fará ver novos horrores, além dos já conhecidos? Julho se aproxima. Aguardemos.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 23/6/2016.

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O meu primeiro!

Por incrível que possa parecer, às vezes é difícil encontrar material para uma boa crônica. “A política abunda de temas”, me dirá o leitor. Certamente, mas quem aguenta ler mais sobre o congelamento de Dilma e as tentativas pífias de Temer para aquecer sua gestão? Deixemos a política à editoria correspondente e aos articulistas partisans e o clima à página 12 (veja lá, acho que o frio cede um pouco a partir de amanhã).

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Ir ao supermercado, no geral, trata-se de tarefa comezinha e detestada por boa parte dos homens, que a fazem, ainda mais nestes tempos de igualdades, mas de má vontade. Afinal, tarefas têm de ser feitas, ou não teriam esse nome. Mas se você tiver ouvidos atentos, a tarefa pode ser de uma riqueza antropológica única.

Vamos dar uma volta; vamos primeiro à seção das verduras. Veja aquelas duas senhoras, ali, ao pé da banca das batatas. Aproximemo-nos devagar. O assunto, independentemente da época, é sempre o mesmo: o quanto as coisas encareceram. Elas têm e não têm razão. De fato, a inflação dos últimos tempos fez-se sentir na fatura do supermercado; em compensação, veja o aspecto das senhoras. Têm entre 65 e 70 anos, tempo de sobra para terem visto vários planos econômicos e a hiperinflação do começo dos anos 90.

As senhoras reclamam do aumento das batatas, dos pepinos, do pimentão — um absurdo de caro! — mas nem uma palavra sobre o porquê do aumento. Vamos ouvir mais um pouco; finja que está escolhendo cenouras.

A conversa é fatalista. Tudo aumenta, o dinheiro encolhe, como se fossem maquinações das profundezas do inferno. Nenhuma das senhoras cita um motivo possível. Não querem justificativas, querem cabeças.

Pergunto ao leitor se ele já teve horta. Se já, o que plantou? Cenouras, couve, tomates, o que todo mundo que tem ou teve horta tenta plantar. Teve problemas? Certamente! Pulgões, lagartas, granizo, chuva em excesso, falta de chuva. Pergunto ao leitor, e também àquelas duas senhoras que estão na banca das batatas, se é fácil cuidar de uma simples flor-de-maio. Não, não é.

Todos os problemas que tivemos, temos e teremos têm origens que vão além de uma conspiração universal contra a nossa pessoa. Temos o péssimo costume de fazer muito reparo aos sintomas, mas ignoramos completamente o que pode ter causado aquilo. Sofremos de raciocínio bidimensional, plano. Vemos apenas o nosso e ignoramos a cadeia de acontecimentos que resultaram naquele fato específico. E o pior: comportamo-nos assim com tudo: do preço das batatas a uma nota ruim na escola. Somos fatalistas do pior tipo e adoramos chorar as nossas misérias, de proclamá-las ao vento.

Cícero, quando teve de defender suas propriedades, fez um discurso que entrou para a história como “Cicero pro domo sua” (“Cícero por sua casa”, mais ou menos). Cícero ainda tinha razão. Nós podemos intitular nossos discursos também, mas seria algo como “O meu primeiro!”, e sem tanta razão quanto o célebre romano. Nós apenas queremos a casa de algum Milão para botar fogo.

Ao vencedor, as batatas.


Publicado na Tribuna Araraquara de 16/6/2016.

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Coquinhos

Crise econômica não é novidade no Brasil. A primeira de grandes proporções devemos a Rui Barbosa, o celebrado Águia de Haia, e ao Visconde de Ouro Preto, que tentaram incentivar a indústria com crédito a partir da emissão de moeda; a única coisa que o chamado Encilhamento conseguiu criar foi uma bolha de crédito.

De 1929 já estamos carecas de falar — minhas desculpas antecipadas aos calvos, mas a referência é inevitável. Quebra da bolsa de Nova York arrastou meio mundo à bancarrota, inclusive o Brasil, que vivia de exportar café. A situação política brasileira ruim, que vinha aos atropelos desde o começo dos anos 20, foi coroada com a ascensão de Vargas ao poder. Quinze anos com a cara de Vargas estampada em cartazes, selos, moedas e cédulas.

Entre o final dos anos 50 e começo dos 60, a inflação acirrou os ânimos e fez com que o povo pedisse a cabeça de Goulart numa bandeja de prata. O remédio quase matou o doente: vinte anos de Exército à frente do Executivo federal.

Crises do petróleo. Entre 1973 e 1978, os preços do barril de petróleo destruíram a bonança do Milagre Brasileiro. Faltou fermento ao bolo de Delfim Netto, então todo-poderoso ministro da Fazenda, notório pelo exemplo de confeitaria. As crises dos anos 70 e o modelo keynesiano aplicado por Delfim Netto — desenvolvimento por endividamento do Estado — levariam o Brasil à crise hiperinflacionária (1986-1994). Fechamos 1993 com a inflação em 2.477%.

O plano Real conseguiu domar o dragão inflacionário, mas não as ondas que afetam a economia brasileira intermitentemente. A crise dos tigres asiáticos, que começou em 1997, passou pela Rússia em 1998, também aportou por aqui e resultou no abandono das bandas cambiais, em 1999, o que inicialmente implicou forte desvalorização do real. Em 2002, a crise argentina também deu suas caras, pela importância do comércio bilateral entre nós e o país vizinho.

Desde 2008, a “marolinha” lulesca da crise global veio subindo até virar o maremoto de 2014. O Governo brasileiro optou por inundar o mercado com crédito fácil e isenção tributária, decisões meramente paliativas. O preço está aí: não dá para manter ritmo econômico apenas com consumo; como não dá para manter comércio exterior forte com produtos primários. O brasileiro vive de monocultura ou de monomania, tem o péssimo costume de pôr todas as fichas num número só: café ou consumo, não importa qual seja a aposta única.

Enquanto insistirmos em viver de criação de coquinhos subsidiada, nada nos espera, a não ser a rabeira da história.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 9/6/2016.

 

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Ismos e istas

Leio nos jornais de hoje que o Estado Islâmico pede aos muçulmanos que destruam seus receptores de tevê via satélite. O Estrago Islâmico (não leitor, não é erro de revisão; é “estrago”, mesmo) já pilhou e destruiu sítios arqueológicos importantes da área que ocupou ou ainda ocupa, como a cidade romana de Palmira. Ainda impõe a charia, executa aqueles que se negam a lutar no grupo e mata e estupra populações não muçulmanas da região.

Um problema grave da humanidade são os ismos; se o extremismo fosse o único a fustigar-nos, estaria já de bom tamanho. Com os ismos, vêm os istas, ou seja, sectários ou seguidores de determinado ismo, que o propagam e impõem-no.

Mas nem todo ismo precisa necessariamente ser imposto a pancadas ou com metralhadoras. Grande parte deles desliza pela sociedade ocidental de maneira sutil; todos se mostram como panaceia universal e querem curar os mais variados males que afligem as pessoas, como a miséria, a desigualdade social, o patriarcado, o sofrimento animal, e promover valores em tese positivos. Lembre-se: de boas intenções está cheio o inferno.

Geralmente, os istas de um ismo acabam por criar outro ismo inexistente para aglutinar o que se lhes opõe. Por exemplo, os socialistas criaram o conceito de capitalismo e o têm como sistema organizado de exploração da sociedade. Ora, não conheço nenhum Partido Capitalista ou União da Juventude Capitalista. É o mesmo caso do tabagismo, termo de origem claramente antitabagista; o antitabagismo, sim, é um ismo no sentido puro e criou para si um “campo de oposição”. Você já ouviu um fumante dizer que é tabagista ou que “pratica o tabagismo”?

Claro que não podemos juntar todos os ismos num só saco; mas eles têm em comum a crença em um sistema de organização que lhes é inerente. Quando falamos em liberalismo, por exemplo, um liberal (por que não “liberalista”?) tem a crença de que um Estado menor oprimirá menos as pessoas. O socialista tem a crença de que o Estado inicialmente tem de centralizar e operar todos os setores da economia para depois passá-los à autoadministração. Sabe-se muito bem que nenhum país socialista, do passado ou do presente, conseguiu a façanha, parando no que se pode chamar de “ditadura da nomenklatura”.

Crença aqui é no sentido de um conjunto de preceitos que formam um ismo, não na acepção mais mística da coisa, embora não fique lá muito longe desta.

Há ainda ismos que preconizam comportamentos, como o vegetarianismo, que, em suas várias facções, tem como base a abstinência de carne pelos mais variados motivos: da crença em toxinas cancerígenas no alimento ao motivo do sofrimento animal.

Fica ao leitor a minha recomendação: atenção com os ismos e, principalmente, com os istas.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 2/6/2016.

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