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Brasil, a terra em que tudo brocha

Pedro Conrade é fundador da startup Controly. Uma startup, como o leitor deve saber, é uma empresa de pequeno porte, inovadora em seu segmento; a palavra entrou em nosso vocabulário com a bolha das ponto-com, no final dos anos 90, e, mais recentemente, tem sido associada às pequenas empresas que oferecem serviços por meio de apps.

Voltando à Controly do senhor Conrade, essa startup oferece serviços bancários básicos por meio de um app e um cartão pré-pago, o que dá direito a controle da conta e saques em caixas automáticos, tudo a preço módico e sem o peso da burocracia bancária.

Empreendimento louvável o do senhor Conrade, sem sombra de dúvida; sabe-se também que a desburocratização promovida pelo Controly é malvista pelos bancos, que veem a cerca de seu latifúndio de clientes, tratada com o verniz das regulações draconianas do Banco Central, ser despedaçada por um ínfimo cupim. Para mim, menos burocracia é mais liberdade econômica e mais vida.

Mas fui surpreendido por uma matéria do Link — caderno de informática do Estadão — em que o senhor Conrade dá a estarrecedora declaração: “A regulação das startups é boa, pois evita a entrada de aventureiros nesse setor”. Aqui, senhores, paro um instante para recolher o queixo do chão.

Assombra-me o diretor — CEO ou sei lá como se chama — de uma startup proferir uma contradição desse tamanho. O representante de um setor que vive justamente à margem do Estado — o que, no caso do Brasil e seu Estadofante, é extremamente benéfico — pedir regulação estatal sobre uma área não é apenas contraditório; é nossa síndrome de Estocolmo. Regulação estatal é o que pedem, por exemplo, os taxistas quando se sentem ameaçados pelo Uber, outra startup.

Todo empreendimento é, de alguma maneira, uma aventura, seja uma startup de tecnologia bancária ou a quitanda da esquina. Negar espaço aos “aventureiros” é matar o empreendedorismo na raiz, algo que o Estado brasileiro, independentemente das mãos em que esteja, especializou-se em fazer. Somos o rabo do mundo quando se fala em liberdade econômica, ocupando umas posições acima de Venezuela e Cuba, que não são exemplo para nada.

Regulação estatal, longe de ser garantia de algo, é atraso, burocracia e cantos úmidos para a micose que há muito combatemos e tomou forma de lepra, a corrupção. Menos regulação significa melhores serviços, liberdade de escolha do cliente, menos burocracia e, como consequência óbvia, menos corrupção. Nunca tivemos um período desse tipo no Brasil, nem nos anos “neoliberais” da era FHC; período, aliás, que nos legou as magníficas e faraônicas agências reguladoras.

O Brasil, infelizmente, continua se mostrando o país onde tudo se fana ou vira o oposto do que era. É a terra em que tudo brocha, e não vejo viagra que nos salve dessa impotência.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 26/5/2016.

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O antiarticulismo

Escreve-se muito, o que não significa que haja qualidade no que foi escrito. Lembremo-nos do velho adágio que diz que quantidade não é qualidade. Mas do meio de tantos horrores que ofuscam nossos olhos surge a pérola, produto supremo da cretinice, o único traço de caráter (ou falta dele) que nos une como nação. A pérola é um texto de Fábio Porchat, publicado neste domingo, 1º/5, por O Estado de São Paulo.

Ter Fábio Porchat como colunista já é demérito de per si. Ofende a história do jornal e seus assinantes. Porchat virou um porta-voz vazio e arrogante de forças moribundas que insistem em aferrar-se ao poder; vazio porque não tem argumentos — se o advogado-geral da União, José Cardozo, já anda falto deles durante a defesa suicida de um governo zumbi, que dirá Fabinho — e arrogante por ter aquela postura que têm membros de centro acadêmico universitário. A arrogância da certeza absoluta; ou do contracheque bem-nutrido que brinda o sectarismo.

Parturient montes… Da mente genial do comediante (hum…) emergiu o sintomático artigo a que aludimos mais acima, intitulado “Fora, Cunha!”, que se resume ao título repetido 179 vezes e um post scriptum com o título mais uma vez, recurso esse o único resquício de inteligência.

O texto — será mesmo um texto? — tem o cheiro nauseabundo de centro acadêmico em dia de festa universitária: cerveja barata e vômito. Palavras de ordem, como aquelas que se berram em manifestações. O articulismo foi reduzido à repetição esquizoide de um mantra daqueles que desesperadamente choram a perda antecipada da sinecura. Basta lembrar que os mesmos argumentos usados para defender a cadente Dilma podem igualmente valer para Cunha: foram eleitos democraticamente, serão julgados por um parlamento corrupto, blá-blá-blá, etc. e tal.

Não bastasse o blecaute de inteligência que sofre o país, Fábio Porchat inventou um novo monstrengo dos nossos tempos: o antiarticulismo.

P. S.: pensar que o Estado paga a Porchat para que ele garatuje esse tipo de abobrinha me tira o sono. Fora, Porchat!

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