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Autorreciclagem

Você conhece as pessoas pela maneira como escrevem. Se são confusas, se pensam rápido, balbuciam ou gesticulam, algum traço, indefectível para o escritor, aparece nas voltas das letras ou na colocação das palavras; hoje em dia, com a onipresença do Word, é preciso contentar-se em desentranhar percepções de textos escritos com arial ou comic sans. Escrever a mão virou atividade de poucos.

De tanto ler uma pessoa, é possível conhecer seus temas prediletos e manias. Tirando, obviamente, aquele tipo de escritor leproso, que insiste em fazer de cada escrito seu algo único, como pedaços do corpo; em breve, esse tipo tem de migrar para a escritura em servo-croata ou cazaque, para manter a originalidade.

Se você é um leitor habitual de certo autor — e aqui me refiro à leitura descompromissada, por prazer, em tempo de ócio — e tiver o mínimo de inteligência, perceberá que há temas, subtemas e vocabulário a que seu autor recorre com mais frequência. Se você se torna um leitor mecânico, por exemplo, as percepções vão para outro nível, ficam mais complexas e profundas.

Falemos claramente: leitor mecânico é a pessoa que trabalha com textos. Preparador de originais, revisor, redator. E, claro, não se trata de ofensa. De modo algum! Digo mecânico porque, em lugar de preocupar-se apenas com aquilo que o texto quer informar, o leitor mecânico tem de atentar-se à ortografia, à morfologia, à sintaxe, à coesão, à coerência, à estilística e a outros assuntos desses derivados.

O leitor mecânico habitua-se à sinestesia das formas de um autor que, por conta do ofício, passa-lhe muito sob os olhos.

Trabalhei alguns anos como revisor de um jornal. Um jornal pequeno, porém pujante, algo incomum no interior, onde a imprensa, quando não é parte da oligarquia local, fica-lhe totalmente sujeita, seja por ameaça, seja pelo elo econômico. Nesse jornal, como em tantos outros, articulistas e cronistas não faziam parte do dia a dia da redação. Apareciam de quando em quando, quando apareciam. Mandavam seus textos por e-mail.

Articulistas de jornal pequeno são mestres na arte da evasão textual: como posicionar-se frente a determinado assunto sem saber quase nada sobre. Também são ágeis na bajulação escancarada; não têm a sutileza e a elegância da bajulação discreta, perceptível para o homenageado e que passa despercebida para quem não tiver o mínimo de intimidade com o assunto. Essa, sim, é uma arte de verdade.

Os cronistas têm mais liberdade. Podem dar-se ares literários, o que pode abarcar um texto ilegível de tão ruim — mas autorizado pela “licença poética” emitida sabe Deus por quem — ou trançados incompreensíveis e recheados de pseudoeruditismo, que mostra suas pérolas: palavras pescadas de dicionário e que não são correntes há mais de cem anos. Dificilmente algo se salva nos jornais. E vejam que temos escritores que começaram suas carreiras no jornalismo.

Mas os cronistas têm seus macetes, principalmente se forem escritores profissionais. Baseio-me num caso que, como revisor, pude acompanhar por quatro anos. O jornal em que trabalhei tinha seus cronistas habituais, zés-ruelas que ou pecavam pelo deslumbramento ou caíam no academicismo. A cidade onde moro tem uma vida acadêmica considerável, mas que é como uma planta que cresce fora do vaso, pois a universidade é “fora das muralhas”, sejam as quase físicas ou as mentais.

Desses cronistas, um deles é um escritor nascido na cidade, começou aqui sua carreira, mas que, para voos mais altos, precisou abandonar o mormaço manso da cidade pelo ar carregado da capital. A cidade, como era de se esperar, volta-lhe as costas. Desconhece-o.

Vejam, vou escrever sobre os métodos desse escritor. O que não significa uma crítica. É uma dedução lógica. O escritor deve ter lá seus quase 80 anos, e, convenhamos, uma hora as coisas começam a repetir-se.

Nosso escritor-cronista ama cinema. Começou sua carreira como crítico de cinema — sim, houve um período em que jornais preocupavam-se com isso, pois não eram feitos de notícia pura, como hoje, mas também de certo lirismo —, num jornal local, quando o cinema tinha filmes melhores — será mesmo — e eram em preto e branco.  Várias de suas crônicas, dezenas delas, discorrem sobre os filmes, os atores, as salas de cinema em si; é um saudosista de quando, para ir ao cinema, era necessário vestir terno e gravata. As crônicas eventualmente repetiam-se: o mesmo assunto ou recontado de outro ponto de vista. O que era principal num texto passava a acontecimento incidental em outro.

Quando comecei a ler alguns romances do autor, deparei-me com suas crônicas, ali, embutidas nos livros. Obras que tinham decênios de antecedência às crônicas, mas, que de modo algum, eram cópias, mas apenas a rememoração dos mesmos fatos, fossem os fatos concretos ou disfarçados em metáforas. As crônicas eram ruminação das memórias. Uma autorreciclagem.

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