Monthly Archives: Novembro 2015

Muro de Berlim – 11 de novembro de 1989

O Muro de Berlim caiu num sábado, mas não tomei conhecimento imediato. No domingo, fomos para a casa da minha avó, onde também estava a minha tia, que é professora de História. Naquela época, eu era a única criança da família com capacidade de fala. Minha irmã tinha pouco menos de dois anos, e meu primo, alguns meses. Essa situação tornava inevitável a minha inclusão na conversa dos adultos, pelo menos como ouvinte.

Minha mãe e minha tia, sentadas no sofá, trocavam impressões sobre a queda do Muro.

— Você viu? Tanta gente morreu tentando atravessar e, de repente, o Muro caiu de uma hora pra outra.

— Pois é.

Nessa época, a contragosto da minha mãe, eu já pulava muros. O muro do fundo de casa, para ser mais exato. O muro da esquerda, de blocos aparentes, era intransponível, tinha uns quatro metros de altura, o que fez com que eu associasse este muro ao de Berlim.

Na época, entendia apenas que existia o “lado de cá” e o “lado de lá” do muro. Perguntei-me se era porque em um dos lados não gostavam de cachorros. E na casa da minha avó, não sei por que cargas d’água, eu me sentia perto da Tchecoslováquia.

Anos depois, o vizinho vendeu a casa, e o novo morador ergueu mais umas fiadas de blocos, arrematando-o com grade e cerca elétrica, o que o deixou ainda mais parecido com o muro berlinense, que já não mais existia.

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Carlos Drummond de Andrade – 17 de agosto de 1987

Em 1987, eu estava na pré-escola. Lembro-me vagamente de duas das “tias” conversando sobre a morte do poeta como quem comenta sobre o aumento do feijão. Aliás, aumentos do custo de vida não faltavam naquele tempo. Uma delas parecia displicentemente preocupada; a outra, que não ligava uma vírgula.

Estávamos todos na hora do recreio. Saí de perto das professoras e fui para um brinquedo, acho que o gira-gira, e disse a um coleguinha que o Carlos Drummond de Andrade havia morrido. “Quem é? Seu tio?”, devolve-me o menino. “Não sei, não faço ideia. Era poeta.” “Poesia é coisa de retardado”, disse ele dando impulso no brinquedo.

Por anos guardei aquela definição comigo, que poesia era coisa de retardado.

Pouco tempo depois, Drummond foi homenageado numa cédula efêmera, menorzinha em relação às séries anteriormente emitidas, o que me confirmou o quão pequeno era o papel da poesia no mundo.

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