Vagabundos

É claro que considero a vagabundagem um vício. Talvez o pior deles, porque dá margem a outros. Mas tenho de admitir que admiro uma classe seleta de vagabundos: aqueles que souberam disfarçar sua ociosidade com tanto jeito, que conseguem se passar por gente honrada. São vagabundos de classe, quase admiráveis.

Na minha curta vida, conheci dois que me marcaram. Como trabalhei no setor público, vagabundo é o que não falta. Há sempre alguns titãs da burocracia, que trabalham por dez e arrastam todo um setor de sanguessugas — gentuça que se sente superior porque passou numa prova, mas que não sabe fazer o ó com a bunda. Mas esses dois ases da vagabundagem, que haviam chegado aos píncaros de serviço público com anos de ociosidade sutil e subserviência discreta, eram magnânimos com sua aura dourada de escroques. É o tipo de gente divetidíssima para levar à pizzaria, é espirituosa, aprecia a boa vida e fica observando a azáfama toda enquanto comportam-se com o que parece uma mistura de estoicismo e cinismo. Observam a azáfama, quando não a incitam subterraneamente para criarem vácuos, áreas sem ordem, alheias à burocracia, mas protegidas por esta, em que pairam como budas.

Um desses grandes homens — não deixam de ser grandes; são exemplos de antivirtude — exibia já suas cãs e pairava sobre o caos que ele mesmo criava. Era magro e estava sempre de terno. As poucas vezes que entrava no setor — escritório e gabinete tinham entradas separadas — eram para tomar café e soltar algum chiste; conversava com todos, era o típico populista. Prometia tudo, não cumpria nada, mas era amado por todos.

O outro era um tipo mais bojudo, descente de uma dessas raças orientais. Tinha voz grave com a qual dizia nada com nada. E era esse nada que agradava às pessoas. Sua inconclusividade formava uma nuvem de admiração em torno de si. Sua silhueta pesada o fazia parecer um oficial administrativo otomano; eu gostava de chamá-lo de Voivode. Mas só para mim mesmo eu usava esse apelido; os meus colegas nem sabiam quem haviam sido os otomanos.

As pessoas, no geral, pensam que esses tipos estão limitados ao setor público. Ledo engano. A burocracia estatal brasileira burocratiza também a iniciativa privada. Aliás, ainda não consegui identificar se há mesmo iniciativa privada no Brasil ou se se trata apenas de uma economia paraestatal. Afinal, a costela que deu origem ao privado no brasil tem sua origem no próprio Estado. Um Estado construído por bacharéis e Direito e sua legirreia. O vagabundo apenas é fruto desse caos, foi criado por acidente em algum momento do quinto dia e, desde então, paira sobre o caos dos homens, como um deus primevo.

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