Conversa

Você se lembra? Foi uma tragédia. Um negócio realmente inédito, pelo menos para mim. Você subiu na mesa para fazer um strip, e eu disse “cuidado, você bebeu pra caralho”. Você ligou o aparelho de som, pôs um CD do Kraftwerk e respondeu: “ah, cala a boca e fica olhando”. Mal você falou a última palavra e a mesa veio pra frente. Você estava na ponta, escorregou e bateu as vértebras cervicais na quina da mesa. Saí berrando por socorro; os vizinhos chamaram o Samu. Você foi para a UTI só de calcinha e entubada; eu fiquei dois dias no hall do hospital. Não me deixaram subir porque não tínhamos parentesco — e o que essa gente sabe sobre parentesco?

Depois que você morreu, do hall do hospital fui para uma sala da delegacia. Fiquei quase 12 horas lá. O delegado me encheu de perguntas, fez eu contar a mesma história umas 20 vezes. No final, ele se divertia porque a história do strip me constrangia. Perguntou umas mil vezes se eu usava droga ou se já tinha usado. Ele tinha dentes dentro dos olhos. A Civil ainda ficou uns 15 dias no meu pé, porque eu era a única testemunha, embora o delegado tenha se traído e se referido a mim para outro policial como suspeito. Com o resultado da perícia, concluindo que o fato tinha sido um acidente, finalmente a polícia me deixou em paz.

Mas, sabe? Descobri que o delegado mora perto de casa. E ele já me achou também. Ele me segue quando tem tempo livre. Na cabeça dele, fui eu quem te matou.

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