Luciano do Valle – 19 de abril de 2014

Plantão do jornal, uma tarde de sábado modorrenta e abafada. Silêncio na redação. De repente, um colega, que estava de fones, levanta correndo e liga o televisor imenso que ocupa o fundo da sala, como um portal para outro mundo.

— Gente, morreu o Luciano do Valle!

— Finalmente! — disse eu. Ou pensei, já não me lembro direito.

Finalmente, porque eu havia matado o Luciano do Valle havia mais de dez anos. Por aquela época, soube de orelhada que o Luciano havia sofrido uma trombose, tivera uma perna amputada e morrera pouco depois. Provavelmente eu confundi lucianos; talvez nem Luciano fosse. Lembro-me de chegar em casa e dizer à minha mãe:

— O Luciano do Valle morreu.

— Quem disse isso?

— Ouvi no rádio.

O destino, em conluio com a minha audição ruim, me havia pregado uma peça. Pois a voz Luciano do Valle, naquela mesma noite, narrou um jogo do campeonato nacional.

— E se foi gravada?

— O jogo é ao vivo.

Demorei um tempo para me convencer de que o Luciano do Valle não havia morrido, mas, por birra, sempre que alguém o citava, eu fazia cara de incrédulo e perguntava:

— Mas ele já não morreu?

E foi assim durante longos dez anos, até aquela tarde de sábado. Foi uma morte repentina, eu mal acreditei quando ouvi. O grito de surpresa do meu colega me tirou do torpor.

— Gente, morreu o Luciano do Valle!

Dez anos de espera. Dez longos anos.

Agora, sim. Acabou.

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