Marcão

Marcão não era Marcão à toa: tinha 160 quilos cravados e não passava despercebido. Ele trabalhava num escritório de contabilidade com a estirpe da escrotice e o que ele mais odiava era a socialização forçada: festinha disso, festinha daquilo. Marcão era o oposto do estereótipo do gordo: era uma carranca monolítica, um promontório de sisudez.

Numa das festinhas, estava Marcão num canto, com um copo de coca-cola light — as velhas do escritório exigiam que todo refrigerante fosse light, por elas e pelo Marcão, que “estava quase explodindo”. A festinha era pela conquista de algum cliente grande, algo assim.

Em certo momento, alguém disse:

— Vamos cortar o bolo.

Formou-se uma fila de gente decrépita que parecia não ver comida havia anos. A primeira garfada no bolo foi dada pela velha mais velha e mais irritante num raio de cinco quilômetros.

— Mas esse bolo está com um gosto estranho. Acho que está estragado. — Opinião que logo foi confirmada por outros presentes.

Marcão levantou-se do seu canto.

— Não. Não tem nada estragado. É que eu substituí o bolo.

Todos se entreolharam.

— O recheio, senhoras e senhores, é bosta. Toda feita por mim.

Silêncio. Logo alguém vomitou e foi como reação em cadeia. O gosto estranho se consubstanciou no que Marcão disse.

— E digo mais: foi um trabalhão interceptar o entregador e trocar o bolo. O filho da puta não queria morrer de jeito nenhum; tive de pular na cabeça dele várias vezes.

Gritos, choro convulso. Marcão foi em direção à saída. Alguns dos presentes tentaram impedir-lhe a passagem, mas, valendo-se de seu peso, Marcão derrubou-os como gravetos. Entrou no carro, que andava afundado no lado do motorista, e foi embora. Andou uns 300 quilômetros sem pausa, quando parou num restaurante de beira de estrada e pediu rodízio de churrasco.

Ficou pensando no que seus carrascos de 20 anos estavam fazendo naquele momento: chamando a polícia, passando-lhes seus dados. Riu sozinho quando imaginou o que faria aquela gente quando descobrisse que ele não havia matado ninguém e que o recheio do bolo, embora não fosse exatamente comestível, não era mais que a trivial lama.

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