Tio Oscar – 1992/1993

Tio Oscar não era famoso. Não lembro como ele era, nem o que fazia, mas presumo que já fosse aposentado. Calculo que tenha morrido entre 1992 e 1993. Na verdade, ele era tio-avô por afinidade, aquelas relações de parentesco que começam a ficar difíceis de estabelecer. Ele morreu não sei de quê; era daquele tipo de parente que se vê de quando em quando, num casamento ou num enterro. Desta vez, era o enterro dele, e fomos todos ao Cemitério da Vila Alpina. Era um sábado cinza e friorento, possivelmente no inverno.

A caminho do cemitério, num trecho da Anhaia Melo, apareceu um caminhão de transporte de gado, a uns três carros de distância do nosso. Eram bezerros e estavam agitados; o rumor o trânsito os incomodava.

De repente, minha mãe deu um grito. Um dos bezerros tinha escalado a lateral do caminhão e havia caído sobre um Fusca, cujo teto virou uma bacia. Levantou-se, desceu do Fusca e pôs-se a correr no meio dos carros e a chocar-se contra eles. O trânsito parou; ficamos lá quase meia hora. Vieram os bombeiros e tentaram várias vezes laçar o bicho, que aparecia e sumia sobre os carros conforme trotava. De vez em quando, ouvíamos um raspar de cascos desesperado, como um maníaco riscando fósforos. Até que um grupo de populares — sempre eles — conseguiu prender o bezerro, não sem antes tomar uns coices.

Do enterro mesmo, não me lembro de nada. Nem do tio Oscar.

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