Fito Duarte em Paris

Bateu no músico a vontade de um café, mas estava em meio à Champs-Elysées.

“Aqui, não. É impossível aguentar essa turba de turistas; preciso de um lugar tranquilo.”

Continuou andando por ruas mais estreitas, assoviando uma bossa, mas sempre evitando aquelas em que os argelinos têm seus comércios de coisas típicas.

— Gente grotesca. Vivem aqui como se ainda estivessem em Argel ou em Túnis. Não conseguem aproveitar o que a França tem de melhor.

Achou um bistrô numa rua em que o sol só a atingia ao meio-dia. De manhã, a sombra úmida e, à tarde, a penumbra abafada, porque estávamos no verão. Sentou-se à mesinha e o garçom veio de dentro do estabelecimento com certo mau humor.

— Um café e uma água com gás, por favor.

Abriu o laptop e pôs-se a verficar as últimas notícias do seu país, a Mandioquina, na América do Sul. Viu que o governo popular que ajudara a eleger estava sendo enfraquecido por denúncias de corrupção. Só podia ser mentira. Um governo tão generoso com a cultura, inclusive com a música do nosso protagonista, não pode ser derrubado. São as forças tenebrosas da reação.

Gravou um vídeo sentado no bistrô mesmo e postou-o nas redes sociais. Escreveu algumas linhas para as mesmas redes. Pediu outro café — trazido pelo garçom com ainda mais má vontade que o primeiro, depois que percebeu que seu cliente não era francês — e fumou dois cigarros.

Levantou e tomou o caminho de volta para o apartamento de sua propriedade, indignadíssimo. Parecia que a calçada lhe queimava as solas dos sapatos.

— Uns biltres! Onde já se viu querer derrubar a presidenta? Gente burra e sem cultura. Um país condenado ao atraso; se o governo cair, a cultura voltará para o ralo, não teremos mais financiamento para os shows. Será um desastre para a nação.

Chegou ao apartamento e ordenou à sua empregada marroquina que enchesse a banheira, abrisse uma garrafa de Nuits Saint Georges e poderia ir embora. Ele nunca pedia por favor.

E enquanto tentava acalmar seus nervos no banho quente, lembrava-se da ingratidão daquele povo desdentado. Tomava a coisa como ofensa pessoal: ele mesmo havia se comprometido a eleger um governo popular para resolver os problemas da nação e, agora, o povo ingrato queria derrubá-lo. A Mandioquina era toda ela um atraso de vida.

Era o fim da picada.

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