Renato Russo – 16 de junho de 1996

Era a parte da tarde. Na horta que havia no fundo da casa da minha mãe, de cócoras e à sombra de uma jabuticabeira, eu escavava com uma pá de pedreiro um buraco que já tinha a profundidade de um braço. De lá, comecei a tirar um monte de lixo que estava sepultado havia 15, 20 anos: garrafas plásticas verdes de cândida, latas de extrato de tomate já carcomidas, moedas dos anos 70, fragmentos de saquinhos de leite. Todo terreno da periferia de São Paulo já foi o lixão da vizinhança um dia.

De repente, minha mãe apareceu na janela de casa que dava para a horta e gritou:

— O Renato [incompreensível] morreu!

Achei que era um amigo de escola. Interrompi a escavação e levantei pelo incômodo daquele grito quebrando o silêncio, como se tivesse levado um chute, um choque, não pelo fato de uma morte em si. Que hora incômoda para alguém morrer, num meio de tarde.

— O Renato morreu?

— O Renato Russo.

Eu nem sabia direito quem era o Renato Russo. Sabia que era um cara que cantava e, segundo o meu pai, “imitava o Jerry Adriani”.

Me movi apenas pelo desconforto que o grito me havia causado e fui até a frente da tevê, que dava os últimos detalhes da morte do Renato.

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