Ayrton Senna

Lembro-me perfeitamente de quando Senna morreu. Era 1º de maio de 1994, um domingo; eu tinha 12 anos e ajudava meu pai no comércio que tínhamos naquela época.

Quando a informação chegou a mim, que conversava com um vizinho de idade próxima, este meu interlocutor quase teve um ataque: começou a chorar, deu um grito, arranhou a cara e soltou uma sequência de sons desconexos, restos de palavras à semelhança de pedaços de legumes numa seleta.

Fiquei olhando. À minha esquerda, lembro-me bem, uma máquina de assar frangos. Apesar de todo o circo promovido pelo meu vizinho, os frangos não pararam de girar na máquina; a gordura continuava pingando em bandejas postas no fundo do aparato. O ronco do motor elétrico. O céu não se turbou — estava de um azul sólido. Nada acontecia além daquela comiseração vergonhosa.

Olhei os frangos de novo, valsando ao fogo. Impassíveis. Por um instante, quis ser uma daquelas aves assando.

Desde então, toda vez que vejo um frango assado, me lembro de Ayrton Senna.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s