Odores

Deixei muita gente na capital, entre parentes e amigos. Desta última categoria, tenho um que vale menção. Vive no Centro Novo, perto da praça da República, na Vila Buarque. Mora em um apartamento minúsculo, de dimensões japonesas. Não, sem conotação sexual. É que, no Japão, sabe-se que as vivendas mal e mal têm o tamanho que uma pessoa com braços e pernas abertos.

Costumava ir embora da faculdade com ele. Quando o ônibus chegava à praça da República, ele saltava. Mas não ia imediatamente para o lado de casa. Procurava um boteco aberto para comprar coxinha ou qualquer outro salgado que pudesse servir-lhe de janta.

Eu, criado com comida caseira, ensinado a desconfiar que tudo aquilo que está sobre um prato e não veio de casa pode ser uma ameaça, achava aquele costume estranho, insólito demais. Um dia resolvi perguntar.

— Por que você não come em casa? Você pode fazer o que quiser, um miojo, cozinhar umas batatas? Por que tem de, tarde da noite, comer nesses botecos?

— Não suporto cheiro de comida. E, no apartamento, minúsculo, se frito um bife, tenho de passar a noite cheirando o fantasma do desgraçado.

Nunca pensei que bifes pudessem ter alma. Ainda se fosse uma vaca em sua integridade, poderia ser. Mas as almas não se fatiam.

Desci com ele. Era tarde da noite, mas eu precisava acompanhar a refeição com aquele homem que falava três línguas, mas não suportava cheiro de feijão recém-feito.

Eu continuava falando.

— Mas você fuma que nem um cavalo. O cheiro do cigarro não o incomoda?

— Não, não me incomoda — respondeu ele sem virar o rosto.

Pegamos um boteco aberto. Pé-direito alto. Ventiladores de padaria. Estufas sebentas de mil dedos. Do fundo do lugar, veio um homem tão sebento quanto suas estufas, envergando um jaleco azul.

— Que vão querer?

Meu amigo passou em revista pelas estufas. Os salgados tinham aquele aspecto semitranslúcido da fritura encharcada. Uns ovos de codorna boiavam melancólicos numa água esverdeada, como se tivesse sido tirada do Tietê. Tudo ali inspirava repulsa.

— Me vê uma coxinha.

Até o cara do jaleco sebento pareceu se admirar, mas atendeu ao pedido. Com o pegador, pôs uma coxinha no meio de um prato de louça branca.

— Pensando bem, me vê duas.

O homem do jaleco hesitou.

— Tem certeza? Vou ser sincero: estão aí já tem um tempo.

— Não tem problema — disse meu amigo. Sou resistente.

Com as duas coxinhas sobre o prato, nos sentamos em cadeiras de lata que um dia foram vermelhas.

— Cara, você poderia estar em casa, comendo nem que fosse um miojo, vendo televisão.

— A casa fica empesteada pelo cheiro da comida.

Ele continuou falando e comendo.

— Nunca gostei do cheiro de comida. Me dá náuseas. Aliás, como apenas para me manter; não gosto de comida. Como qualquer coisa que tiver nutriente.

Achei triste. Sempre fui admirador da comida e de seus odores. Nada de glutonaria, nem de afetação desnecessária, como anda em moda, mas quem não gosta de cheiro de feijão fresco, por exemplo? Ou de molho de tomate feito em casa?

Meu amigo continuava mascando suas coxinhas oleosas e quebrando-lhes a gordura com uma Coca-Cola. Mastigava com raiva, como se fosse, de fato, uma obrigação penosa.

— Já leu o “Gog”, Sérgio, do Giovanni Papini?

Não, àquela altura eu ainda não havia lido.

— Trata-se de um livro organizado na forma de um diário. Um milionário com algum cérebro, o tal Gog que dá título ao livro, registra suas desventuras com dinheiro. Onde os outros veem gozo e diversão, ele só vê misérias desnecessárias. Em um determinado ponto, ele diz que comer é como ir ao banheiro e instala um cômodo na sua mansão para comer sozinho. A comida lhe é posta por uma ranhura, e ele come sozinho. Em tudo o que li, nada me pareceu tão genial, seja do ponto de vista literário, como do ponto de vista prático.

— Você teria um cômodo para comer isolado? — Perguntei.

— Sim, se pudesse, teria.

Ele continuava ruminando suas coxinhas com pesar. Era uma alma triste. Como não admirar o odor da comida? Mesmo as ruas estreitas do Centro Velho se transformam no meio do dia com o odor das centenas, dos milhares de pratos-feitos que serão consumidos, tentando pedestres com e sem dinheiro, delícia e tortura. Como não se admirar com o odor da gordura derretendo em um churrasco; ou mesmo com o simples, básico, primevo cheiro de alho e cebola refogados no azeite?

Excluo desse meu acervo de cheiros, da minha osmoteca privada, aquela comida afetada. Comida tem de ser boa, mas prática ou tradicional, sem as afetações do gourmetismo. O gourmet é o novo jeca quando se trata de comida.

Meu amigo acabou suas coxinhas.

— Muito bem, hora de dormir.

Despedimo-nos. Entrei no metrô e ele foi em direção da sua casa, no prediozinho atarracado da Vila Buarque, ficar envolto no seu incenso de tabaco. Em casa, longe ainda, me esperava um prato de comida requentada. Requentada, mas feita em casa, com seu cheiro de comida feita em casa, o que, no fim do dia, é realmente um acalanto.

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