Monthly Archives: Julho 2015

Prognóstico

Aquele bafo quente na nuca. É como se fosse o seu primeiro dia no presídio, um grande presídio. Desses que têm muralhas que parecem a cordilheira dos Andes e grades grossas, reticuladas, em que os detentos amarram trapos, parecendo respiradouros do submundo.

Imagine um presídio imenso, imenso. Quilômetros e muralhas, que fariam do muro de Berlim uma cerca de bambu. Milhares, milhões dessas janelas gradeadas infernais. Lá dentro, celas atapetadas e forradas de gente. Tudo cheira a sovaco, tudo é cotado em cigarros ou favores sexuais no mercado negro.

Há olhos maus por toda parte. E olhos com medo, que, com o tempo, se tornam maus; olhos insones de semanas.

São as entranhas do Estado. Um Estado que mantém toda a sua população dentro de um presídio imundo. O país todo é uma grande Pedrinhas. A curra é o aumento da Selic. O bafo quente na nuca é o aumento do dólar, provocando inflação e corroendo o poder de compra da população, desvalorizando os cigarros e a maria-louca.

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Conversa

Você se lembra? Foi uma tragédia. Um negócio realmente inédito, pelo menos para mim. Você subiu na mesa para fazer um strip, e eu disse “cuidado, você bebeu pra caralho”. Você ligou o aparelho de som, pôs um CD do Kraftwerk e respondeu: “ah, cala a boca e fica olhando”. Mal você falou a última palavra e a mesa veio pra frente. Você estava na ponta, escorregou e bateu as vértebras cervicais na quina da mesa. Saí berrando por socorro; os vizinhos chamaram o Samu. Você foi para a UTI só de calcinha e entubada; eu fiquei dois dias no hall do hospital. Não me deixaram subir porque não tínhamos parentesco — e o que essa gente sabe sobre parentesco?

Depois que você morreu, do hall do hospital fui para uma sala da delegacia. Fiquei quase 12 horas lá. O delegado me encheu de perguntas, fez eu contar a mesma história umas 20 vezes. No final, ele se divertia porque a história do strip me constrangia. Perguntou umas mil vezes se eu usava droga ou se já tinha usado. Ele tinha dentes dentro dos olhos. A Civil ainda ficou uns 15 dias no meu pé, porque eu era a única testemunha, embora o delegado tenha se traído e se referido a mim para outro policial como suspeito. Com o resultado da perícia, concluindo que o fato tinha sido um acidente, finalmente a polícia me deixou em paz.

Mas, sabe? Descobri que o delegado mora perto de casa. E ele já me achou também. Ele me segue quando tem tempo livre. Na cabeça dele, fui eu quem te matou.

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Nada

Uma sociedade que não tiver segredinhos, que for perfeita, harmônica, plenamente democrática, em que tudo for transparente, sem conflitozinho nenhum, sem corredores escuros e escusos, meus amigos, será a própria morte; será a a-história. Não será nada além de uma sucessão circadiana de dia e noite, de burrice e mesmice. Não será nada.

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Luciano do Valle – 19 de abril de 2014

Plantão do jornal, uma tarde de sábado modorrenta e abafada. Silêncio na redação. De repente, um colega, que estava de fones, levanta correndo e liga o televisor imenso que ocupa o fundo da sala, como um portal para outro mundo.

— Gente, morreu o Luciano do Valle!

— Finalmente! — disse eu. Ou pensei, já não me lembro direito.

Finalmente, porque eu havia matado o Luciano do Valle havia mais de dez anos. Por aquela época, soube de orelhada que o Luciano havia sofrido uma trombose, tivera uma perna amputada e morrera pouco depois. Provavelmente eu confundi lucianos; talvez nem Luciano fosse. Lembro-me de chegar em casa e dizer à minha mãe:

— O Luciano do Valle morreu.

— Quem disse isso?

— Ouvi no rádio.

O destino, em conluio com a minha audição ruim, me havia pregado uma peça. Pois a voz Luciano do Valle, naquela mesma noite, narrou um jogo do campeonato nacional.

— E se foi gravada?

— O jogo é ao vivo.

Demorei um tempo para me convencer de que o Luciano do Valle não havia morrido, mas, por birra, sempre que alguém o citava, eu fazia cara de incrédulo e perguntava:

— Mas ele já não morreu?

E foi assim durante longos dez anos, até aquela tarde de sábado. Foi uma morte repentina, eu mal acreditei quando ouvi. O grito de surpresa do meu colega me tirou do torpor.

— Gente, morreu o Luciano do Valle!

Dez anos de espera. Dez longos anos.

Agora, sim. Acabou.

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Divagação sobre a escrita

Não aprendi muito sobre escrita nos últimos anos, porque simplesmente parei de escrever. Isso me acontece com algumas coisas; de tanto viver colado a elas, de repente me sobrevém uma ojeriza inexplicável. Foi o que aconteceu entre mim e a escrita; fora o fato de o meu cérebro ter se tornado um Kalahari de ideias.

Mas reparei algo interessante. O jovem escritor se preocupa muito com as formas, com as escolha das palavras, quase como alguém que esteja fazendo um mosaico. Quer reinventar a língua. Claro que a escolha das palavras é importante, mas é apenas uma parte da construção de um texto. O leitor médio vai se interessar pelo enredo daquilo que você está lhe pondo diante dos olhos; uma parcela mínima vai se atentar às palavras ou expressões ali colocadas para “dar um efeito”. O leitor quer ser impactado pelo que está sendo contado ali e não ter de recorrer ao dicionário três vezes por parágrafo.

Claro também que as referências e a boa construção do texto vão despertar um interesse, mas que é específico, do leitor treinado e das ratazanas da academia. E o excesso, o barroquismo, vai resultar num texto hermético e incompreensível.

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Marcão

Marcão não era Marcão à toa: tinha 160 quilos cravados e não passava despercebido. Ele trabalhava num escritório de contabilidade com a estirpe da escrotice e o que ele mais odiava era a socialização forçada: festinha disso, festinha daquilo. Marcão era o oposto do estereótipo do gordo: era uma carranca monolítica, um promontório de sisudez.

Numa das festinhas, estava Marcão num canto, com um copo de coca-cola light — as velhas do escritório exigiam que todo refrigerante fosse light, por elas e pelo Marcão, que “estava quase explodindo”. A festinha era pela conquista de algum cliente grande, algo assim.

Em certo momento, alguém disse:

— Vamos cortar o bolo.

Formou-se uma fila de gente decrépita que parecia não ver comida havia anos. A primeira garfada no bolo foi dada pela velha mais velha e mais irritante num raio de cinco quilômetros.

— Mas esse bolo está com um gosto estranho. Acho que está estragado. — Opinião que logo foi confirmada por outros presentes.

Marcão levantou-se do seu canto.

— Não. Não tem nada estragado. É que eu substituí o bolo.

Todos se entreolharam.

— O recheio, senhoras e senhores, é bosta. Toda feita por mim.

Silêncio. Logo alguém vomitou e foi como reação em cadeia. O gosto estranho se consubstanciou no que Marcão disse.

— E digo mais: foi um trabalhão interceptar o entregador e trocar o bolo. O filho da puta não queria morrer de jeito nenhum; tive de pular na cabeça dele várias vezes.

Gritos, choro convulso. Marcão foi em direção à saída. Alguns dos presentes tentaram impedir-lhe a passagem, mas, valendo-se de seu peso, Marcão derrubou-os como gravetos. Entrou no carro, que andava afundado no lado do motorista, e foi embora. Andou uns 300 quilômetros sem pausa, quando parou num restaurante de beira de estrada e pediu rodízio de churrasco.

Ficou pensando no que seus carrascos de 20 anos estavam fazendo naquele momento: chamando a polícia, passando-lhes seus dados. Riu sozinho quando imaginou o que faria aquela gente quando descobrisse que ele não havia matado ninguém e que o recheio do bolo, embora não fosse exatamente comestível, não era mais que a trivial lama.

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Tio Oscar – 1992/1993

Tio Oscar não era famoso. Não lembro como ele era, nem o que fazia, mas presumo que já fosse aposentado. Calculo que tenha morrido entre 1992 e 1993. Na verdade, ele era tio-avô por afinidade, aquelas relações de parentesco que começam a ficar difíceis de estabelecer. Ele morreu não sei de quê; era daquele tipo de parente que se vê de quando em quando, num casamento ou num enterro. Desta vez, era o enterro dele, e fomos todos ao Cemitério da Vila Alpina. Era um sábado cinza e friorento, possivelmente no inverno.

A caminho do cemitério, num trecho da Anhaia Melo, apareceu um caminhão de transporte de gado, a uns três carros de distância do nosso. Eram bezerros e estavam agitados; o rumor o trânsito os incomodava.

De repente, minha mãe deu um grito. Um dos bezerros tinha escalado a lateral do caminhão e havia caído sobre um Fusca, cujo teto virou uma bacia. Levantou-se, desceu do Fusca e pôs-se a correr no meio dos carros e a chocar-se contra eles. O trânsito parou; ficamos lá quase meia hora. Vieram os bombeiros e tentaram várias vezes laçar o bicho, que aparecia e sumia sobre os carros conforme trotava. De vez em quando, ouvíamos um raspar de cascos desesperado, como um maníaco riscando fósforos. Até que um grupo de populares — sempre eles — conseguiu prender o bezerro, não sem antes tomar uns coices.

Do enterro mesmo, não me lembro de nada. Nem do tio Oscar.

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