Mozart e o churrasco na laje

O tema é velho, já tem o bafio de armário fechado, mas é sempre conveniente lembrá-lo. Trata-se do que se considera publicamente “cultura brasileira”.

Existiria, de fato, cultura brasileira? Depende muito de quem diz e como diz. Resposta mais coerente seria dizer que há rudimentos de cultura brasileira.

Venho com esta questão pelo artigo de Fábio Porchat, publicado no site do Estadão, intitulado “Regina Casé”, em que o autor se rende ao coro de glorificação à mediocridade autóctone, conceito tão caro à esquerda.

Na madrugada de hoje, quando entrei ao vivo na Rádio Vox, com Alex Pereira, invariavelmente acabamos falando do assunto, já que mais um integrante do “Esquenta”, atração comandada por Regina Casé, foi pego em situação, digamos, desconfortável.

Porchat diz que Regina “levou o pobre” para a televisão. Discordo. Ela levou — será que foi a primeira? Duvido — o submundo para a televisão. A glamorização da vagabundagem, da ociosidade, como se pobre vivesse sem camisa, como que a vida do pobre fosse um domingo eterno, com churrasco de patinho, cerveja ruim e pagode.

Ou seja, aquela turma que diz rejeitar determinados estereótipos sociais — negro empregado, pobre humilhado — apenas os rejeita para criar o seu próprio: o do desdentado feliz. E ainda tem a pachorra de chamar isso de “cultura”. O lumpemproletariado, tão desprezado por Marx, tornou-se o protótipo de povo para os descolados marxistas brasileiros.

Quando a turma do romantismo descolou culturalmente o Brasil de Portugal, não sabia o inferno que estava criando. Colou-o na França decadente, que, desde a Revolução de 1792, só deu ao mundo o pior possível. O relativismo cultural fabriqué en France, filhote do marxismo cultural, é o principal responsável pela criação da anticultura como cultura, ou seja, da elevação de manifestações sociais absolutamente triviais ao posto de exemplo de cultura.

Enquanto não entendermos que uma sonata de Mozart vale mais que 200 anos de anticultura brasileira, não vamos a lugar nenhum. Estaremos condenados ao churrascão na laje com cerveja ruim da história.

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