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Frutas

Deixei já muitos entes queridos — e não tão queridos — no cemitério. O ritual de velá-los e enterrá-los faz parte da minha infância; não havia ano que não visitávamos o cemitério da Vila Formosa para deixar um tio-avô, um primo de segundo grau ou mesmo algum parente mais distante cuja única lembrança que guardo é o rosto pálido na moldura das flores. Creio que seja algo natural nas famílias numerosas: os mais velhos deixam, juntamente com as histórias saudosas e anedotas, espaço para os mais novos.

No começo, não entendia bem o porquê de enterrarem as pessoas em buracos na terra. Talvez brotassem e se tornassem árvores. O cemitério da Vila Formosa, outrora um grande descampado, com o passar dos anos, tornou-se quase que um parque. À sombra rendada das copas das árvores, viam-se cruzes de concreto. Quando novas, ainda mantinham sua caiação em rosa ou azul; depois ganhavam aquele escurecimento do que fica exposto à umidade.

Nessas idas aos cemitérios, sempre cheias de semblantes carregados — embora para nós, as crianças, era uma oportunidade de rever os primos da mesma idade que vinham de longe, o que terminava em discretas brincadeiras para não chamar a atenção dos adultos — acabei por acostumar-me com a longa ladeira de cruzes e árvores. Muito mais que as cruzes, as grandes árvores despertavam meu interesse.

Dentre as tantas espécies ali em esplendor, havia também árvores frutíferas: abacateiros de vinte metros de altura, pitangueiras, goiabeiras, amoreiras e pés de outras frutas ainda que, por não serem comuns às quitandas, eu não saberia precisar.

Quando passávamos pelo cemitério e era época de alguma fruta, as árvores estavam sempre abarrotadas, cheias de modo incomum, na apoteose da fertilidade vegetal e com muitos frutos já caídos por terra, a apodrecer. Passávamos todos em cortejo e ninguém reparava nas frutas. Certa vez, quando levávamos algum tio-avô à cova, subindo uma das ladeiras poeirentas do cemitério, puxei discretamente o bolso do paletó do meu pai, para que ele me desse atenção e eu lhe disse baixinho:

— Pai, por que tem essas árvores no cemitério?

— É pra fazer sombra…

— Sombra pros mortos…?

Ele me fitou com certa complacência.

— É, pode ser pros mortos também, mas eles não ligam lá muito pra isso. — E pôs-se a olhar as árvores que nos rodeavam: grandes, majestosas e de troncos nodosos.

Puxei-o novamente pelo paletó. Meu pai apenas usava seu único paletó quando alguém se casava ou morria. Vê-lo vestir o paletó era um sinal.

— E as frutas, pai? Pra quem são? São pros mortos também?

— Não, filho. As frutas, os passarinhos comem…

— Mesmo as que caem no chão?

Outro olhar intrigado do meu pai na minha direção. Um raio de sol pálido, escapado às nuvens e ao vento frio, bateu-lhe fugazmente no rosto.

— Bem, pode ser que os mortos tenham lá sua parte… a terra filtra.

— E nós, pai? Podemos comer dessas frutas…?

— Melhor não, filho. Frutas, é melhor comprar na quitanda… as frutas do cemitério são boas só pros pássaros… e pros mortos.

E nesse ponto morreu também o assunto.

Mesmo quando passávamos pela avenida João XXIII, de carro, sempre se via a copa de alguma árvore frutífera carregada por cima do grande muro caiado. Mas, ao que parecia, ninguém colhia os frutos. Caíam do pé ou apodreciam e secavam ali mesmo, na haste que as ligava à árvore. Morriam pelo chão às dezenas.

Mesmo as crianças que empinam seus papagaios no céu livre de fios do cemitério ou os moradores de rua, que poderiam empanzinar-se com uma cornucópia dessas frutas, evitam-nas. O destino das suculentas frutas de cemitério — parece-me que são sempre grandes, lustrosas, sadias — é chegar ao máximo de seu esplendor e vulgarmente apodrecerem, partilhando o mesmo destino selado ao homem: pulvis es et in pulvis reverteris.

* * *

Depois de ter sido demitido de uma grande fábrica de eletrônicos, no começo dos anos 90, Cláudio resolveu abrir uma oficina eletrônica. Com o curso técnico e a experiência adquirida no emprego, a empreitada não lhe foi muito difícil. Em pouco tempo, tinha já uma freguesia considerável e os bons serviços garantiam-lhe uma eficiente propaganda boca a boca que trazia gente de fora do bairro.

Fora as qualidades como técnico competente, Cláudio ainda era notável pela simpatia. Punha-se por detrás do balcão de madeira da oficina sempre com um sorriso de dentes todos no rosto redondo e luzidio. As mãos de dedos roliços sempre estavam entretidas com chaves de fenda ou ferro de solda.

Fazia quinze anos que a loja era no mesmo lugar: numa rua tranquila, que morria na entrada secundária do cemitério. O prédio onde ficava a oficina era dividido com uma floricultura. Cláudio gostava do odor forte das flores que a brisa trazia, mesmo que ali tivessem odor e forma de lamento. Mas a ele, isso pouco importava:

— Todos morremos. Ninguém fica pra semente. — Falou certa vez para o barbeiro que fica do outro lado da rua, enquanto esse rapava-lhe o rosto.

Olhou bem para o rosto lunar refletido no espelho e repetiu a frase, reparando no movimento dos lábios. O barbeiro sentiu-se estremecer e Cláudio, notando o receio do colega, tratou logo de consertar a situação:

— Ô, homem! Que isso! Me preocupa não quando vou morrer, apenas como. Não quero que doa muito, não quero que me deixe a morte preso a uma cama. Que seja rápido e fulminante…

O barbeiro, tropegamente, tentou justificar-se:

— Não, Cláudio… o que me preocupa não é bem… como ou quando morrer… mas o que tem do lado de lá…

Cláudio respondeu entre um largo sorriso:

— Olha, só morrendo é que se descobre: ou seja, mais dia, menos dia, vamos descobrir. Dizem que há o paraíso… Outro dia, na missa, o padre perguntou: “Quem quer ir pro paraíso?”. Todos levantaram a mão. Todos, sem exceção. Afinal, tenho a impressão de que a missão da igreja é nos conduzir ao paraíso, não é? Mas em seguida, diante daquele monte de mãos erguidas, ele fez outra pergunta: “E quem quer ir para o paraíso… agora?”. Um silêncio estranho apareceu… Quando for a hora, será; fique tranquilo.

Cláudio pagou ao barbeiro e despediu-se.

Foi abrir a sua oficina, exatamente do outro lado da rua. Já nos afazeres habituais, continuou pensando em como sempre achou mórbida essa preocupação das pessoas com a morte e com o além-túmulo. Lembrou-se da avó, sempre tão temente à ordem divina; fatalista. Missas, sepultamentos. Missas de sétimo dia, círios.

— Sempre se vê a morte do mesmo jeito… E se for de outra maneira? Algo que ninguém conhece? Tem aí muitos relatos de gente que vai e que volta… li em alguma parte. Mas li em outra parte que tem também uns cientistas que dizem que isso é por conta de uma atividade cerebral intensa que leva as pessoas à beira da morte a terem visões e…

O pensamento de Cláudio foi interrompido por alguém que entrou na oficina. Seus dois funcionários vieram do fundo do salão para atender, mas o chefe interrompeu-os:

— Não se preocupem, rapazes. Podem deixar que eu vejo.

Era um senhor já de boa idade. Parara o carro diante da loja e tinha nas mãos um rádio capela, de forma ogival.

— Bom dia. Aqui que é a oficina do Cláudio?

— Sim-senhor! É a minha oficina…

— Vim de longe, rapaz, porque tenho este rádio a válvula… era da minha esposa, que já se foi tem um bom tempo… lembro-me como se fosse hoje. O carro fúnebre subiu por essa rua…

De fato, alguns cortejos passavam por ali, por conta de o portão principal do cemitério ser na avenida diagonal, muito movimentada, e o passo lento dos automóveis em cortejo prejudicar o trânsito.

— Bem, eu sinto muito… — disse Cláudio um pouco sem jeito.

— Ora, rapaz, não tem problema! Não sou desses que têm problemas com a dona morte… todos morremos, mais cedo ou mais tarde…

— Curioso… antes de abrir a oficina, estava fazendo a barba ali no meu amigo e falávamos exatamente desse mesmo assunto. Sou da mesma opinião que o senhor…

— De fato, não é? Mas não se preocupe… vamos tratar agora das coisas entre vivos. Gostaria de saber se o senhor pode me consertar esse rádio.

E depôs o aparelho sobre o balcão. Cláudio fez um exame visual.

— Bonito modelo! Tenho a impressão de tê-lo visto já em algum lugar… mexido com um igual, mas não costumo mexer com rádios a válvula… que estranho… Bem, de qualquer modo, se o senhor quiser deixar, posso ver o que posso fazer… mas não garanto muita coisa.

— Ficaria muito caro?

— Depende… depende muito da disponibilidade das válvulas. Elas praticamente não são mais feitas e ficamos à mercê das que estão estocadas nas lojas mais antigas. Vamos fazer assim: eu vejo o que pode ser feito e faço um orçamento. Se o senhor não quiser, pode vir buscar o rádio de volta… sem compromisso.

O homem velho sorriu.

— Bom… excelente. Deixo sim.

Depois de fazer as devidas anotações, Cláudio estava à porta da loja conversando com o homem, que já se despedia. O homem parou um instante e olhou para o portão do cemitério, uns cem metros acima. Junto do portão, do lado de dentro, um imenso abacateiro.

— Nossa, mas que abacates imensos! Pena que não estão num pomar ou num quintal…

Um grande abacateiro, de uns quinze metros de altura. Quinze anos ali e Cláudio jamais reparara que a árvore era um abacateiro. Alguns galhos chegavam a pender de tantos abacates gordos e brilhantes.

— É… é uma beleza.

— Ninguém os come e é uma pena. Deve ter quase cem ali…

— Verdade… pecado.

— Bem, mas já tomei muito tempo do senhor. Então, o senhor me telefona quando tiver o orçamento?

— Sim, sim. Telefono. À tarde, se for necessário, mando um dos meus funcionários ao centro da cidade para ver nas lojas de eletrônica se achamos as válvulas… se for o caso de trocar alguma…

— Então, está ótimo. Muito prazer e até logo. — disse o senhor entrando no carro.

Cláudio ainda ficou olhando o carro descendo a rua, em direção à avenida e voltou para dentro da loja. Na mesa atrás do balcão, o rádio capela da General Electric, possivelmente dos anos 40: todo em madeira com uns detalhes neoclássicos, similar à maquete de um teatro. Três botões com incrustação de um material que poderia ser madrepérola. O aparelho parecia-lhe muito familiar.

Cláudio foi para o fundo da loja e disse a um dos rapazes que fosse para o balcão. Ao outro, que o ajudasse com aquele rádio, que era trabalho para cirurgião.

— Sabe, Marcelo — disse Cláudio lentamente —, acho que sempre se aprende algo. Você é novinho… já viu um desses? Um rádio a válvula? Imagino que a sua sensação agora deve ser parecida à daqueles estudantes de medicina que veem todos os órgãos em separado, como aqui — e com um gesto amplo do braço, mostrou os circuitos, potenciômetros e botões pendurados à parede — e nesta pequena raridade, esse tesouro do passado, de tempos passados, testemunha de sabe-se lá quantos acontecimentos da história mundial: dos mais insignificantes ao fim da Segunda Guerra, por exemplo. Abrir isso, pra você, será uma experiência única! Será como dissecar um marciano!

Marcelo, adolescente que Cláudio empregava como aprendiz, olhava alternadamente, do meio de suas espinhas, para o chefe e para aquele rádio estranho e não entendia um pingo do que Cláudio falava. Era uma tarefa como qualquer outra. E chata.

Cláudio e Marcelo dedicaram toda a manhã para desmontar, limpar e separar as peças. Cláudio desmontava e desenhava um esquema dos circuitos; Marcelo limitava-se a limpar as peças meticulosamente e a escutar as palestras do chefe.

— Olha, Marcelo: as válvulas! Hoje substituíram elas pelos transistores.

Ao fim de todo o trabalho de desmontagem, limpeza e remontagem, o rádio voltou a funcionar. Uma limpeza bastou. Cláudio testou-o várias vezes e deixou-o funcionando num canto. A voz fanhosa do velho rádio substituiu a do aparelho estéreo que costumava ficar ligado.

— E bom trabalhar um pouco, né, vovô?

Eram três da tarde e Cláudio não fora almoçar. Deixou o Marcelo no balcão e saiu para comer. Chegando à porta, porém, a fome misturada com a lembrança do homem do rádio fez com que ele virasse o rosto para admirar os abacates que pendiam sobre o portão do cemitério.

— Devem estar realmente bons…

Fim de tarde. Começava já a soprar um vento frio; Cláudio dispensara os meninos e vestia o surrado abrigo de náilon; abaixou a porta de aço da oficina e entrou rapidamente no carro, esfregando as mãos. Pelo retrovisor, contrastada pela luz laranja e forte do pôr do sol de inverno, viu a silhueta do abacateiro. Virou-se para trás e fitou a árvore. A vista conseguia distinguir mal-e-mal pontos redondos naquele breu de folhas: os abacates.

A rua estreita estava deserta e o vento varria as folhas caídas. Havia dois caminhos para Cláudio: descer a rua e pegar a avenida ou subir e cortar caminho pelo cemitério, evitando a avenida. Talvez sua visão da morte tivesse relação com, de quando em quando, usar o cemitério como atalho.

— É um caminho como qualquer outro…

Engatou a primeira e subiu lentamente a rua. Logo que passou o portão do cemitério com a marcha mal engatada, o carro morreu. Exatamente sob o abacateiro. Com a cabeça para fora do carro, olhava os grandes abacates que pendiam da árvore, embalados pelo vento que os punha para dormir. Alguns ao alcance das mãos de um homem de pé. A fome da hora do almoço, somada àquela visão, dera-lhe vontade de abacate.

— Quer saber? Vou levar uns.

Saiu do carro e tirou do porta-malas um engradado plástico. Pegou o primeiro e o pôs na caixa: maduro e pesado, mas frio, como se estivesse na geladeira. Um pensamento agulhou-o de improviso: e se alguém o visse pegando os abacates? Certamente terminaria em chacota pela vizinhança. Suou frio um instante. Com gestos rápidos, pegou mais cinco, colocou-os na caixa e, acomodando-a mesmo no banco de trás, acelerou e foi-se levantando poeira.

De dentro do carro, pelo retrovisor, via com gosto que não havia ninguém junto ao portão do cemitério.

— Ótimo. Ninguém viu.

Olhou com o canto dos olhos para trás e os abacates brilhavam à luz difusa que entrava no carro. Eram realmente bonitos de se ver.

Cláudio continuou o caminho normalmente.

Em casa, beijou a esposa e pôs-se na sala à espera o jantar.

— Já está quase pronto. – disse a esposa – fica por perto que eu já chamo.

Ficou ali mesmo, acomodado na poltrona, folheando umas revistas de eletrônica amareladas; tinha centenas delas pelas estantes da sala, no baú do sofá, sob a mesa de centro. De súbito, lembrou-se dos abacates. Pensou em falar deles à esposa, mas lembrando da origem das frutas, pensou também que ela iria dar-lhe uma bela bronca e dar fim nas frutas. A palavra morreu-lhe entre a língua e os dentes, à metade, num ganido esquisito:

— Uie…

— O que foi, Cláudio? Você sabe que daí da sala eu não escuto; se quer dizer algo, vem aqui até a cozinha.

— Não, não é nada. Estava vendo umas coisas velhas nas revistas e me admirei…

Jantou sem se lembrar dos abacates. Falou de amenidades com a esposa, do filho que estava de férias na casa de uns parentes, do tempo e do rádio antigo que lhe trouxera um senhor.

— Nossa, deve ser uma raridade. — disse a esposa.

— E é. E era apenas sujeira que impedia ele de falar. Sabe como são os mais antigos: põem as coisas num canto e se esquecem delas. Aí, o bolor e o azinhavre agem… limpamos o dito-cujo e ele ficou falando como se fosse novo.

Após o jantar, viu um filme ruim pela televisão com a esposa. Assim que ela anunciou que ia deitar-se, Cláudio sorrateiramente foi ao carro e tirou da caixa um abacate, o primeiro que pegara: pesado e frio; o maior deles. Maravilhosa fruta que brilhava, mesmo sob a baça luz de mercúrio da iluminação pública, e inebriava pela beleza. Levou-o para a cozinha, partiu-o em dois e, na própria casca, comeu a polpa com açúcar. Metade de cada vez.

— Eu fazia assim no sítio do meu avô… só faltou o limão.

Satisfeito, foi deitar-se, pensando na felicidade do estômago cheio.

Cláudio estava andando no meio do cemitério. O sol a pino fazia com que ofegasse e suasse por todos os poros. Tinha de levar o rádio ao seu dono, aquele rádio capela. Não sabia por que o homem que lhe aparecera na oficina escolhera um lugar tão estranho para fazer a entrega.

Andou mais um pouco e nem as frondosas árvores do cemitério davam-lhe um refresco adequado. O vento levantava tufos de poeira vermelha do chão que revolteava à luz do sol e entrava-lhe nos olhos.

Foi aproximando-se da área onde havia um muro de gavetas. Tinha um aspecto de muito velho, mas não se lembrava dele. E olha que já enterrara ali meia família paterna. Andando por entre um corredor de gavetas, viu à distância o homem do rádio, de terno branco. Foi até ele, que só percebeu a presença de Cláudio quando quase estavam por esbarrar-se.

— Aqui está o seu rádio. Está funcionando… era apenas sujeira.

O homem virou-se. Parecia diferente: não era mais exatamente aquele senhor de idade que entrara na sua oficina. Ou melhor, era. O rosto, os cabelos. Mas parecia duas vezes maior. Não reparara que ele era tão alto. Talvez fosse a má impressão do lugar ou o desnível do terreno; ou o branco que deixa as coisas maiores. Também a expressão do rosto, que na oficina difundia certa bondade inerente, agora estava mais dura, menos amistosa. Pode ser por conta da sombra da árvore sob a qual eles estão.

— Obrigado, meu filho. Por tudo. — e sorriu acinzentado, dando-lhe o dinheiro. Cláudio tirou do bolso um recibo e uma caneta e rapidamente preencheu-o e o deu ao homem.

— Tem noventa dias de garantia…

— Não será necessário…

Virou as costas e foi embora. Cláudio virou-se para o lado oposto e começou a descer a ladeira poeirenta. Empurrava-o uma pressa instintiva. A luz do ocaso vinha-lhe exatamente dentro dos olhos e na cegueira cheia de luz, via apenas manchas luminosas vermelhas, da poeira que o vento levantava e as alongadas sombras das cruzes, como martelos de cabos longuíssimos que vinham lhe dar aos pés.

Atrás de umas árvores, viu um prédio estranho. Parecia-se com um dos blocos destinados aos velórios, mas estava praticamente no meio da quadra de sepulturas. Foi ao prédio e notou com estranheza que era uma lanchonete com mesinhas de plástico à porta. Estava escurecendo e a luz das lâmpadas fluorescentes batia sobre algumas cruzes que estavam mesmo bem próximas; etéreas, pareciam fantasmas de cruzes.

— Boa noite. Quer alguma coisa? — perguntou uma atendente.

— Não, estou apenas olhando.

— Pois saiba o senhor que vai precisar de bastante comida…

Àquela frase, sentiu-se quente, como se aquecido pelo sol novamente. A poeira invadiu-lhe os olhos numa lufada violenta. Coçou-se e abriu os olhos: viu o teto do quarto. Eram oito e meia da manhã. O cobertor e os lençóis que se enrolaram às suas pernas esquentavam-no sobremaneira; além do mais, perdera a hora.

Quanto à hora, não se preocupou muito. Marcelo, não obstante sua pouca idade, era um rapaz responsável, tinha as chaves da oficina e por certo já a abrira. Tomou rapidamente um café preto e saiu.

Assim que estacionou diante da oficina, sentiu um cheiro horrível de dentro do carro. Virou-se para trás e, onde estavam os abacates que colhera ontem, havia somente frutas podres. Mas o odor que exalavam era superior a fruta podre, parecia carniça.

— Mas que raios! Como é que apodreceram tão rápido?! Pff!, que nojo! Marcelo, me ajuda aqui!

Cláudio e Marcelo esvaziaram e lavaram o engradado.

— Nossa, seu Cláudio, nunca vi abacate tão fedido.

— Nem eu, Marcelo.

Terminada a limpeza, entraram ambos na loja. No lugar onde deixara o velho rádio capela, nem marca dele.

— E o rádio, Marcelo? Onde está?

— O mesmo senhor que tratou com você veio buscá-lo logo de manhã… eu cheguei e ele já estava na porta.

— E ele levou o rádio? Pagou?

— Olha, seu Cláudio… ele tinha um recibo com a sua assinatura… e a garantia que a gente dá pros aparelhos reparados. Acho que o senhor deu o recibo para ele antes… parece.

Confuso, Cláudio sentou-se um instante. Não era esse o combinado. Lembrou que anotara os telefones do cliente no caderno de controle. Pegou o aparelho e discou o número da casa:

— Esse número de telefone não existe. Favor consultar o catálogo telefônico ou o serviço de informações… — não esperou o fim da mensagem automática da companhia telefônica e discou novamente. — Esse número… — bateu o fone. Ligou para o outro número, casa de algum parente, de algum filho: — Esse núme… — bateu novamente o telefone com força, quase a ponto de quebrar o aparelho. Marcelo, sem respirar, olhava o chefe.

Cláudio ficou alguns instantes pensando, apoiado no balcão, tenso, como quem tenta lembrar-se de alguma coisa. Por fim, avermelhado, disse a Marcelo que ficasse no balcão que ele ia dar uma volta.

Precisava andar. Era certo que acontecera algo com ele. Um lapso de memória. Se bem que ainda era novo, mas havia vários casos de mal de Parkinson na família do pai, de Alzheimer na família da mãe; fora aquele tio-avô que se enforcou no sanatório e aquele outro, esquizofrênico, que vivia no meio do mato, no sopé da serra e que ninguém visitava, conhecia-o apenas pela fama de feroz e do folclore familiar.

Pensar em ser afligido por um desses males deixava Cláudio em pânico.  Caminhava ligeiro pela calçada da avenida, com uma leveza densa que turbava sua percepção. Parou diante da padaria e àquela vista pareceu ter recuperado algo de sobriedade. Entrou e pediu um café puro, sem açúcar. Os homens bebiam e conversavam sobre a última rodada do campeonato de futebol, o tilintar de copos e talheres, o rumor brusco do jato de água quente da cafeteira; parece que o trouxeram novamente para uma certeza, uma normalidade.

Talvez fora um lapso e não fosse ocorrer novamente. Era questão de fazer uns exames e não se apavorar. Pensava e olhava para o café no fundo do copo americano. De repente, sentiu um toque no ombro e voltou-se espavorido, assustando o barbeiro, que estava de passagem, o vira e viera cumprimentá-lo.

— Opa, calma que sou eu!

— Puxa, me desculpa… é que estava tão distraído, olhando para o café…

— Parece um pouco preocupado…

— Nada demais… umas besteirinhas.

— Então está bem. Mais tarde vou lá na tua oficina e conversamos mais um pouco, está certo?

— Certo, certo. — E o barbeiro afastou-se.

Cláudio pensou que talvez fosse melhor ir para casa, descansar um pouco e depois ligar para algum especialista marcando uma consulta.

Voltou, pegou o carro e foi para casa. A esposa já havia ido trabalhar.

— Era o que eu deveria estar fazendo também.

Tirou a roupa e vestiu novamente o pijama que ficara largado sobre a cama. Havia algo incomodando por dentro da calça de flanela. Cláudio chacoalhou a perna e, pela barra da calça, caiu algo. Eram quatro notas de dez reais.

— Mas como raios isso veio parar… — e sentiu-se um calafrio. Lembrou do sonho. Então fora verdade? Mas como? No cemitério, pelo que conseguia lembrar-se, não estava de pijama. Mas pusera do dinheiro no bolso da frente do jeans, disso lembra-se com nitidez. Sentou-se à beira da cama, trespassado pela confusão. Sentia vontade de sair correndo e berrando pela rua e, ao mesmo tempo, um cansaço que lhe vinha do tutano dos ossos.

Acabou por dormir. Não soube se simplesmente adormeceu envolto pela fadiga ou se desmaiou. Quando acordou, o sol punha-se. Escutou o tilintar de chaves: era a esposa que chegava; levantou-se rapidamente e foi ao seu encontro.

A esposa, que entrara e pusera sacolas de compra sobre a mesa, estranhou o marido em pijamas àquela hora.

— Cláudio, você está bem? Parece que correu atrás de um caminhão o dia todo!

De fato, Cláudio sentia um cansaço profundo.

— Não sei, querida. — e de modo sucinto contou à esposa o que tinha se passado, ou melhor, o que ele acreditava que tinha ocorrido.

A esposa, apreensiva, ouvia cada palavra.

— De fato, Cláudio, você não pode ter entregado o rádio ontem à tarde, pois falou dele na hora da janta… eu me lembro nitidamente. Tem certeza que você não o entregou hoje de manhã… parece que tinha uma caixa no banco de trás do carro, que eu vi de manhã.

No meio daquela confusão sem par, Cláudio lembrara-se dos abacates.

— Caixa? No banco do carro? Estava vazia. — uma ponta de pudor ainda se fez sentir por conta dos abacates do cemitério. — Talvez eu esteja mesmo muito cansado… é possível que algo tenha me deixado nervoso… não sei. Espero que passe.

A esposa abraçou Cláudio.

— Fique tranquilo, vai passar… mas é bom marcar um médico… não quero te assustar… mas é bom.

— Não, tudo bem… eu pensei nisso também. Vou marcar sim.

Depois de ter dormido por tanto tempo, Cláudio não tinha sono. A esposa foi dormir e ele ficou na sala com uma estranha sensação de incômodo. O silêncio da madrugada e a leitura começavam a irritá-lo; quando ia levantar-se para ligar a televisão, em um reflexo instintivo, virou-se para a poltrona no outro canto da sala e, sentado nela, o homem do rádio, com o terno branco, exatamente como se lhe figurou no sonho. Cláudio esboçou um berro de pavor, mas o mesmo pavor travou-o na garganta. Caiu de volta no sofá.

O homem do rádio recuperara aquele semblante sereno: tinha a expressão como a de um benévolo avô. Cláudio fixou bem os olhos nele.

— Calma, filho, não precisa gritar… não é o caso…

— Mas o que raios você está fazendo na minha casa?! Já não lhe entreguei o maldito rádio?

— Rádio? E quem se importa com um rádio velho…? Meus interesses estão muito acima daquele rádio… aliás, você tem certeza de que aquele rádio existiu?

Cláudio não sabia de mais nada. Não conseguia reunir uma migalha de razão.

— Que seja! Mas você! O que você quer?

O homem sorriu e tirou do bolso do paletó um charuto. Acendeu-o e soltou uma baforada de fumo: — Já tenho o que quero… quer uma tragada? É cubano…

— E por que não vai embora então e me deixa em paz?

— Simplesmente porque não posso levar embora o que tenho agora.

Um silêncio pesado instaurou-se. Cláudio olhava para o homem enquanto esse, que se havia levantado, passeava lentamente pela sala, observando as revistas e os livros. Parou diante de um quadro, uma paisagem bucólica: — Sabe, esse charuto pedi que o pusessem no meu bolso…

Cláudio apenas olhava, pálido.

— Tudo bem. Mas então, o que exatamente é seu e você não pode levar…?

O homem voltou-se devagar e sentou-se novamente na poltrona: — Bela casa a sua. Vou gostar de viver aqui…

Cláudio ergueu-se:

— Mas que porra! Como assim?!

— Veja bem — continuou o homem num tom professoral —, a questão é simples: agora, você me pertence.

— Como assim, eu pertenço a você? Não me vai dizer que você… é o Demônio?! Mas eu não vendi minha alma para você! Mas…

— Calma, não é nada disso. Não sou o Demônio nem tenho ou quero a sua alma. Sua alma continua sendo sua…

Cláudio abria a boca, mas nada saía. Não conseguia encontrar algo para livrá-lo da situação ou para pôr termo ao sonho.

— Mas se não é a minha alma que o senhor tem… o que é então?

— Seu corpo, Cláudio, seu corpo! — disse o homem mais secamente.

— Não entendo… não entendo mais merda nenhuma! Não entendo… — desesperou-se Cláudio.

— Preste atenção, Cláudio. Não há maldade ou bondade nessa história toda. Nem ponha aí o Demônio que compra almas, pois não é o caso. Nem nós do mundo intermediário sabemos da existência do bem ou do mal etéreos… entende? Quando morremos, nossa alma não boia por aí, como pensa essa gente que tem fumo de corda no lugar do cérebro… não, senhor. Imediatamente após a morte, a alma transfere-se para coisas vivas, tomando o lugar daquela outra alma, sem desalojá-la…

“Então, quase sempre quando alguém morre, vai ficar em algum ser vivo mais próximo… quase sempre, a primeira transferência é para algum micro-organismo. Bactérias, amebas, flora intestinal, essas coisas que temos pelo corpo. Assim que morri — e você está me vendo na forma que tive —, tive de me contentar em ser ameba; depois, uma bactéria que me levou para a raiz de uma planta. Depois, essa planta também morreu e consegui instalar-me num abacateiro… aquele abacateiro à porta do cemitério. Concentrei toda a minha existência em um abacate, o mais graúdo e brilhante.

“Mas é difícil que alguém coma frutas de cemitério, não é? As pessoas têm receio fetichista — aliás, um receio com fundamento, eu diria. Precisava chamar a atenção de alguém. Do abacateiro, vi você chegando de carro… — O homem filosofava e desfrutava da erudição.

— Um momento! Mas como você conseguiu sair do abacateiro e me atrair?

— Fácil, Cláudio. Já ouviu falar de mesmerismo? O chamado magnetismo animal? Pois também funciona com vegetais. Quando você saiu do carro, e gordo e guloso como é…

— Certo, sem pormenores…

— Tudo bem… fiz você ficar interessado no abacate. Você e os meninos da loja não viram nada mais do que uma alucinação coletiva. Nunca houve rádio; tive de me valer de uma lembrança sua para aquele rádio, o rádio que tinha no sítio do seu avô. Garanto que você ficou intrigado com a semelhança…

— Fiquei com a impressão que conhecia o aparelho de algum lugar…

— E de fato conhecia. Conhecia tão bem que pude dar a forma exata ao objeto da alucinação. Instiguei seu estômago para os abacates e fiz com que o carro morresse exatamente sob a árvore.

Cláudio voltou-se choroso para o homem: — Quer dizer que fui controlado por um abacate?

Até o homem mostrou-se um pouco encabulado: — É, Cláudio; é mais ou menos isso… quando você pôs os abacates na caixa, pegou aquele no qual eu estava concentrado. Ali foi um golpe de sorte. Você poderia ter pego qualquer outro, mas eu escolhi o mais provável, ou seja, o aparentemente mais suculento. Você agiu exatamente como eu previa; e na hora de escolher o primeiro, também escolheu o meu. E ainda bem, pois as frutas depois que são tiradas dos pés, por conta da energia das almas, estragam rapidamente… foi o que você viu no dia seguinte: as frutas totalmente estragadas.

— E agora — choramingou Cláudio —, o que vai acontecer?

— É um processo de substituição. Vamos compartilhar o mesmo corpo até a morte física… com predominância de um, ou seja, eu. Você, ou melhor, sua alma, continuará existindo, mas ficará relegada à percepção psíquica. As outras, passam a ser em minha função.

— Talvez eu esteja sendo ingênuo em perguntar para você, mas… não tem retorno esse processo?

— Não, Cláudio. É uma das mil formas de reencarnação existentes. É um jogo: há quem ganha e há quem perde. Você apenas será livre novamente quando o corpo físico morrer… — e nisso, como a imagem borrada do televisor, o homem sumiu.

Dormira no sofá e acordara babado; era mais de meio-dia. Provavelmente a esposa o deixara dormindo, tendo imaginado que ele demorara para pegar no sono. Tivera outro sonho medonho… ia telefonar para a esposa, que já estava no trabalho quando uma visão paralisou-lhe as ações: um charuto fumado pela metade no cinzeiro da mesa de centro.

O coração batia-lhe forte e, ofegante, teve de sentar-se.

— Meu Deus, então é verdade, é verdade! — e chorava.

De dentro da cabeça, disse-lhe uma voz. Aquela voz:

— Cláudio, não chore. Você tem pouco tempo até que eu tome conta de tudo… — e mão de Cláudio começou, como alheia à sua vontade, a mover-se em direção do cinzeiro. Explodiu num grito inumano: — Não!

Do jeito que estava, de pijamas, pegou as chaves do carro.

— Ah, meu velho! Não vai ser assim tão fácil quanto pensa.

Pegou um papel e deixou um bilhete para a esposa. Longo bilhete. A mão não queria obedecer-lhe. A voz erguia-se dentro da cabeça e Cláudio gritava para que se calasse.

Entrou no carro e, fazendo um esforço hercúleo, mal conseguia manter a direção e trocar as marchas. Seu inquilino de corpo estava tentando evitar as ações.

— Cláudio…!

— Cala a boca, seu filho da puta! Cala a boca!

Cláudio guiou por muito tempo até a ponte que havia sobre um braço de mar. Estava cansado, suava; o pijama estava empapado como se ele nadara. O esforço foi supremo e ele estava esgotado. Saiu do carro e as pernas falharam-lhe: o homem do rádio começava a sabotá-lo.

— Não, Cláudio — pedia-lhe a voz — Por favor, não faça isso!

— Cala a boca, filho duma puta! Vamos os dois, mas com você eu não fico!

Do outro lado da ponte, um policial rodoviário via a cena e, atraído pelo tom da voz raivosa começou a andar em direção ao carro para a averiguação. Percebendo que não conseguiria levar sua ideia a cabo caso o policial chegasse, Cláudio ergueu-se pesadamente e apoiou-se no gradil da ponte. O guarda, percebendo do que se tratava, tentou correr. Ao girar as pernas sobre o gradil com muito esforço precipitou-se; ouviu dois gritos simultâneos e que diziam um mesmo ‘não’: o do policial e o do senhor do rádio.

Foi um baque surdo. O policial mal teve tempo de chegar ao gradil. Viu apenas a ferida que o corpo fez na água. Ali embaixo, a derradeira discussão. O homem do rádio chamava Cláudio de imbecil e Cláudio respondeu-lhe com o último fôlego dos pulmões que não queria saber de hospedeiros, que nunca havia tido vermes e não era agora que ia alojá-los no corpo. Enquanto rodava e debatia-se, maldizia o abacate do cemitério. O homem do rádio não falava mais.

Subitamente, Cláudio viu-se livre do peso da água, como se o peso se lhe tivesse descolado qual um adesivo. Viu o corpo afundando já sem debater-se e percebeu-se com estranhos movimentos. Virou a cabeça o máximo que pôde e viu uma cauda luzidia. Agora estava num peixe. Era um peixe, não importava qual: apenas era um peixe agora. A alma desses animais, de natureza ingênua e diferente das humanas, não teve sequer tempo de esboçar reação.

O mais rápido que pôde, Cláudio afastou-se daquele lugar, nadando na direção da corrente, em busca do mar.

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