O futuro da democracia

Na semana passada, falamos rapidamente do despreparo de candidatos e eleitorado para o exercício sério da responsabilidade que requer a administração da coisa pública. Num Estado gigantesco, em que cabem apaniguados de todos os partidos, a incompetência é regra. A diminuição de cargos eletivos ou do eleitorado “sobressalente” — inflado pelo voto obrigatório — não interessa aos que estão ou aos que estavam no poder, logo, não fará parte de reforma política alguma.

Mesmo essa constituinte espúria que alguns setores da esquerda querem não virá para mexer com estrutura alguma; apenas servirá para cimentar a permanência do PT no poder pelo próximo século, mas não terá mudança nenhuma nas chagas do despreparo de mão dupla das eleições. Ao contrário, pode agravá-lo.

E falando em despreparo e PT pelos próximos cem anos, as próximas eleições não significarão nada se o Decreto nº 8.243 não for revogado. A ideia central por trás desse texto, que institui praticamente o Estado Novo petista, é substituir as instituições democraticamente eleitas, como Câmara e Senado, por representantes da “sociedade civil”.

É claro que o desgaste de tais instituições não foi gratuito ou mesmo um fenômeno natural. Foi algo estudado e induzido para que, quando parecesse insolúvel, a varinha de condão esquerdista viesse com uma solução milagrosa. Aliás, um dos grandes problemas do brasileiro e o amor entranhável às soluções milagrosas.

Este decreto colocará o poder de legislar nas mãos de gente que não foi eleita, que transformará demandas minoritárias em preceitos gerais e favorecerá o surgimento de entidades fantoches cujo único objetivo será servir ao projeto esquerdista de conquista do Estado. Não sou eu quem diz. Quem diz é Yuri Bezmenov, desertor da KGB que, em uma palestra em uma universidade americana — disponível no YouTube, legendada —, aponta a desmoralização das instituições como um dos passos para a instauração do Estado revolucionário.

Este tipo de colocação está acima de problemas econômicos, pois estamos sempre sujeitos às marés dos mercados. A bonança se vai, mas os pilares institucionais de um povo têm de resistir. Mas os temos ou estão apodrecidos pelo lento trabalho de cupins? Até mesmo a nossa indiferença ajuda o projeto de tomada do Estado numa sociedade formalmente democrática, pois é isso que vivemos: uma democracia formal, de papel.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 23/9/2014.

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