Cultura democrática

Todo brasileiro tem uma receita de sucesso para o governo. Assim como tem uma seleção dos sonhos que poderia ter ganhado a copa.

Nas eleições começa a chuva de proposições dos anônimos. “Ah, se eu fosse presidente…”. Noventa por cento delas são barca furada, pois todos têm urgência de resolver apenas os seus problemas. “Vou aumentar o salário mínimo para R$ 2 mil”; “Vamos subir todas as aposentadorias”. É claro que são ideias até louváveis, mas seus propositores desconhecem o mecanismo complexo necessário para movimentos do tipo.

Não estou defendendo a “profissionalização” da política; aliás, o que mais há no meio são os políticos “profissionais”, cuja única ocupação durante a vida toda é pingar de cargo em cargo. Defendo que haja uma participação efetiva da população na vida política, não à moda da esquerda, que abusa das palavras “luta”, “combate”, “confronto”, mas que o povo saiba, pelo menos, as funções dos cargos que tem de eleger.

Era bom saber, por exemplo, qual a função constitucional de um deputado. O que faz, qual a abrangência legal e territorial daquele mandato. Mas parece difícil pedir isso ao eleitorado, já que mil candidatos estão lá, inflando as listas, e tampouco sabem as atribuições do cargo ao qual concorrem.

Por outro lado, é legítimo que o cidadão de saco cheio queira eximir-se de participar; é fato que uma fatia considerável do eleitorado é absolutamente desqualificada para votar e que vai à urna como autômato. É antidemocrático forçar as pessoas a participarem do processo eleitoral; é antiético forçar uma pessoa que não tem o menor conhecimento de nada a votar. Cria-se, com isso, uma falsa ideia de democracia, em que a participação maciça validaria as escolhas. Mas que legitimidade há num pleito em que grande parte das pessoas vota no primeiro espertalhão que lhe deu um santinho 5 minutos antes de a pessoa entrar na cabine de votação?

Falta ao brasileiro uma cultura democrática legítima. Por isso, qualquer despreparado se crê no direito de disputar eleições; por isso alguns são eleitos. Por isso muita gente sente-se à vontade de palpitar em coisas das quais apenas sente a superfície. Por isso nenhum projeto de reforma política, para manter a “participação popular” e fomentar esse pensamento de que todos são capazes, vai abrir mão do voto obrigatório. Anotem aí.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/9/2014.

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