Monthly Archives: Setembro 2014

Anões diplomáticos

Muito tem se falado de política interna neste espaço — não se esperaria outro, já que a temática é eleição. Mas a ida recente da presidente Dilma às Nações Unidas me fez lembrar de um ponto importantíssimo para o próximo governo, obscurecido pela fuzarca interna: a política externa.

Nos últimos 12 anos, o Brasil passou de coadjuvante benquisto a país pária. Em 2010, buscou, com a Turquia, respaldar o Irã na produção de urânio, numa tentativa desastrada de protagonismo. O resultado foi que Europa, Estados Unidos e Israel ignoraram a manobra que, como se sabe, não foi levada a sério pelo próprio Irã.

A integração regional por meio do Mercosul naufraga miseravelmente pelo uso político, o que não é culpa apenas do Brasil, mas também do populismo argentino. A inclusão da Venezuela como membro pleno do bloco, em um circo montado sobre o impeachment do então presidente paraguaio, Fernando Lugo, mostrou o que se tornou o mercado comum.

A política externa do PT arrasta o Brasil para o limbo das nações. Nos últimos tempos, tivemos três alocuções da presidente Dilma no plenário das Nações Unidas. Em 2011, Dilma discursou um amontoado confuso de temas como Primavera Árabe e regulamentação financeira, além de criticar Israel, claro; em 2012, citou o conceito de islamofobia (?), numa prova irrefutável de abraçar o politicamente correto apenas por aplausos, e defendeu mecanismos de “controle” na Internet. No mais recente discurso, defendeu diálogo com a turma do Estado Islâmico. Sim, aquela turma que corta cabeças de opositores e jornalistas.

Não bastasse isso tudo, formamos o tal Brics com Rússia, China, Índia e a neófita África do Sul. Longe de parecer um bloco, essa associação parece mais uma gangue de arruaceiros. Nada nascerá de tal conluio. Fora as amizades carnais com Cuba e Venezuela, o pior que há no quesito democracia na América Latina.

Em miúdos, a política externa brasileira precisa ser revista, independentemente de quem ganhe o Planalto em outubro. Conseguimos manchar um trabalho que vinha desde o Barão do Rio Branco em meros 12 anos; não houve avanço algum, apenas uma deterioração aguda da imagem do País frente aos olhos dos nossos principais parceiros de verdade: Europa e Estados Unidos. Resolvemos isso, ou estaremos fadados a ser mesmo como a diplomacia israelense nos classificou recentemente, por conta do protesto torto da diplomacia brasileira aos conflitos em Gaza: anões diplomáticos.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 28/9/2014.

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O futuro da democracia

Na semana passada, falamos rapidamente do despreparo de candidatos e eleitorado para o exercício sério da responsabilidade que requer a administração da coisa pública. Num Estado gigantesco, em que cabem apaniguados de todos os partidos, a incompetência é regra. A diminuição de cargos eletivos ou do eleitorado “sobressalente” — inflado pelo voto obrigatório — não interessa aos que estão ou aos que estavam no poder, logo, não fará parte de reforma política alguma.

Mesmo essa constituinte espúria que alguns setores da esquerda querem não virá para mexer com estrutura alguma; apenas servirá para cimentar a permanência do PT no poder pelo próximo século, mas não terá mudança nenhuma nas chagas do despreparo de mão dupla das eleições. Ao contrário, pode agravá-lo.

E falando em despreparo e PT pelos próximos cem anos, as próximas eleições não significarão nada se o Decreto nº 8.243 não for revogado. A ideia central por trás desse texto, que institui praticamente o Estado Novo petista, é substituir as instituições democraticamente eleitas, como Câmara e Senado, por representantes da “sociedade civil”.

É claro que o desgaste de tais instituições não foi gratuito ou mesmo um fenômeno natural. Foi algo estudado e induzido para que, quando parecesse insolúvel, a varinha de condão esquerdista viesse com uma solução milagrosa. Aliás, um dos grandes problemas do brasileiro e o amor entranhável às soluções milagrosas.

Este decreto colocará o poder de legislar nas mãos de gente que não foi eleita, que transformará demandas minoritárias em preceitos gerais e favorecerá o surgimento de entidades fantoches cujo único objetivo será servir ao projeto esquerdista de conquista do Estado. Não sou eu quem diz. Quem diz é Yuri Bezmenov, desertor da KGB que, em uma palestra em uma universidade americana — disponível no YouTube, legendada —, aponta a desmoralização das instituições como um dos passos para a instauração do Estado revolucionário.

Este tipo de colocação está acima de problemas econômicos, pois estamos sempre sujeitos às marés dos mercados. A bonança se vai, mas os pilares institucionais de um povo têm de resistir. Mas os temos ou estão apodrecidos pelo lento trabalho de cupins? Até mesmo a nossa indiferença ajuda o projeto de tomada do Estado numa sociedade formalmente democrática, pois é isso que vivemos: uma democracia formal, de papel.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 23/9/2014.

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Cultura democrática

Todo brasileiro tem uma receita de sucesso para o governo. Assim como tem uma seleção dos sonhos que poderia ter ganhado a copa.

Nas eleições começa a chuva de proposições dos anônimos. “Ah, se eu fosse presidente…”. Noventa por cento delas são barca furada, pois todos têm urgência de resolver apenas os seus problemas. “Vou aumentar o salário mínimo para R$ 2 mil”; “Vamos subir todas as aposentadorias”. É claro que são ideias até louváveis, mas seus propositores desconhecem o mecanismo complexo necessário para movimentos do tipo.

Não estou defendendo a “profissionalização” da política; aliás, o que mais há no meio são os políticos “profissionais”, cuja única ocupação durante a vida toda é pingar de cargo em cargo. Defendo que haja uma participação efetiva da população na vida política, não à moda da esquerda, que abusa das palavras “luta”, “combate”, “confronto”, mas que o povo saiba, pelo menos, as funções dos cargos que tem de eleger.

Era bom saber, por exemplo, qual a função constitucional de um deputado. O que faz, qual a abrangência legal e territorial daquele mandato. Mas parece difícil pedir isso ao eleitorado, já que mil candidatos estão lá, inflando as listas, e tampouco sabem as atribuições do cargo ao qual concorrem.

Por outro lado, é legítimo que o cidadão de saco cheio queira eximir-se de participar; é fato que uma fatia considerável do eleitorado é absolutamente desqualificada para votar e que vai à urna como autômato. É antidemocrático forçar as pessoas a participarem do processo eleitoral; é antiético forçar uma pessoa que não tem o menor conhecimento de nada a votar. Cria-se, com isso, uma falsa ideia de democracia, em que a participação maciça validaria as escolhas. Mas que legitimidade há num pleito em que grande parte das pessoas vota no primeiro espertalhão que lhe deu um santinho 5 minutos antes de a pessoa entrar na cabine de votação?

Falta ao brasileiro uma cultura democrática legítima. Por isso, qualquer despreparado se crê no direito de disputar eleições; por isso alguns são eleitos. Por isso muita gente sente-se à vontade de palpitar em coisas das quais apenas sente a superfície. Por isso nenhum projeto de reforma política, para manter a “participação popular” e fomentar esse pensamento de que todos são capazes, vai abrir mão do voto obrigatório. Anotem aí.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/9/2014.

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E a direita?

Todo país politicamente saudável tem partidos de esquerda e de direita. Pergunto ao (e)leitor: onde estão nossos partidos de direita?

Antes que haja berreiro, vejamos os candidatos à presidência: Marina Silva (PSB), ex-petista; Eduardo Jorge (PV), ex-petista e Dilma Rousseff (PT); fora a nanoesquerda radical, que conta com PSTU e PCO. Não, não excluí Aécio Neves (PSDB) da lista, antes, deixei-o como a cereja da torta. A social-democracia brasileira, nas palavras do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista à revista Piauí, é o “partido de Lênin”. A social-democracia tem por base a ideia de distribuição de renda por meio do Estado. Isso é direita? Aliás, as privatizações tucanas e seu sistema de agências reguladoras têm cheiro a NEP (a Nova Política Econômica de Lênin, aplicada nos anos imediatamente após o golpe de estado bolchevique sobre a Rússia).

Logo, deduz-se que não há direita no Brasil. Aliás, a afirmação não é minha, mas o próprio ex-presidente Lula, em 2009, disse que, na eleição que seria no ano seguinte, “todos os candidatos eram de esquerda”. Nosso espectro político é monocromático, o que não é um fato a ser comemorado, pois denota pobreza de opinião por parte do eleitorado. Classificar o PSDB como direita, por exemplo, é apenas um delírio de quem está mais a esquerda. Assim como associar direita a autoritarismo e a ditaduras é pura ignorância ou má-fé de quem fala. Nunca vi tucano de calibre falar abertamente em livre mercado ou Estado mínimo; apenas uma ou outra ave implume, à beira do ninho.

A direita no Brasil é nanica por dois motivos: 1) por uma ideia de que o ‘povo’ é objeto de todas as atenções do Estado, flagelo que começou com Vargas e impregna nossa vida pública desde então e 2) o ideário da direita é assumido por gente histriônica, que apenas tenta chamar a atenção do eleitorado para se eleger, como quem veste uma fantasia para ir ao baile de Carnaval. Há raríssimas exceções.

Faltam partidos que defendam seriamente livre mercado, empreendedorismo e Estado mínimo. Os debates ficam sempre em todos daquela conversa fiada de “educação, saúde e segurança”. De que adianta? Tudo o que o Estado nos oferece é ruim. Que tal um partido que defenda a desarticulação desse sistema falido e pugne pela desoneração do contribuinte para que ele mesmo tenha a liberdade de escolher o que achar melhor em educação e saúde? O pensamento assistencialista da esquerda impõe a visão de que o cidadão é um incapaz, que tem de ser tutelado.

Quando haverá opções reais nas eleições?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/9/2014.

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