Vacas sagradas

O jornalista Ariel Palacios, correspondente de O Estado de São Paulo na Argentina, tem um artigo em que fala do poder dos mortos nas eleições argentinas. Juan Domingo Perón e Néstor Kirchner decidiram e decidem eleições mesmo estando sob sete palmos de terra.

Quem assistiu ontem ao horário eleitoral gratuito na televisão teve uma ligeira impressão de que o Brasil sofreu uma argentinização política. Com exceção da extrema esquerda, todos presidenciáveis homenagearam de alguma maneira o ex-candidato pelo PSB, Eduardo Campos, a começar, obviamente, pelo próprio partido. Campos será o estadista que nunca foi; temos tradição em criá-los, como fizemos com José Alencar, o vice de Lula.

O PSB optou por passar parte das gravações que já estavam prontas. O PV, uma mensagem lida. O PT pôs o próprio Lula para falar de Campos. Aécio Neves (PSDB) falou sobre “ideais comuns” que o uniam ao governador pernambucano. Aécio já arrasta consigo o legado do finado avô, Tancredo Neves, o presidente que nunca o foi.

Contrariamente à Argentina, onde até mesmo os sepulcros dos políticos viram lugares de peregrinação e seus corpos viram relíquias — basta mencionar en passant o furto das mãos do general Perón, em 1987 —, o Brasil não tem a tradição de cultos em longo prazo. Mesmo Vargas é citado esporadicamente. De Brizola, nem uma linha. Vejamos quanto tempo durará o efeito Campos sobre a política nacional.

Fora o detalhe da morte trágica de Campos, o horário político teve aquela insipidez habitual: todos contra o PT — sem citá-lo diretamente, valendo-se apenas de alusões — e o PT mostrando um país que talvez fosse o Reino Unido ou a Suécia.

Embora não esteja morto, o fantasma de Lula veio assombrar o programa petista e, fazendo propaganda para uma Dilma despojada — que gosta de passear com o cachorro e cozinhar —, fez mais propaganda para si que para Dilma, dizendo que no seu segundo governo estava mais preparado que no primeiro.

O PSDB escolheu o tapa com luva de pelica. Falou de “avanços das últimas décadas” e concentrou o ataque “nos últimos quatro anos”. Estariam poupando Lula, que se tornou uma espécie de vaca sagrada da política?

Muitas palavras já gastas: educação, saúde, união, povo, socialismo, futuro, avanço, segurança, crise. Gastas e com aquele odor a ranço.

Ainda é cedo para dizer algo, mas é muito improvável que o horário eleitoral nos reserve alguma surpresa.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa, Araraquara/SP, em 20/8/2014.

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