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O que passa despercebido

Há muita preocupação com as eleições aos cargos executivos — presidente da República, governador e prefeito. São esses candidatos que polarizam as opiniões nas conversas no ponto de ônibus, no supermercado, na barbearia. Poucos se preocupam com os candidatos aos legislativos.

É notório que o voto para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados quase sempre é resolvido instantes antes de o eleitor entrar no recôndito da urna, onde ele fica frente a frente com aquela telinha estranhamente brilhante e opaca.

Dessa situação excluí-se o Senado. O fato de ser apenas uma vaga — desta vez — limita o número de candidatos e, consequentemente, torna-os mais visíveis.

É curioso. O eleitor diz que vai votar no candidato x. E para a Câmara? “Ah, não sei!” E como o candidato x, caso se torne presidente, vai governar?

Damos muito valor aos cargos executivos, mas nos esquecemos do fato de que ninguém governa sem o parlamento e, principalmente, sem maioria no parlamento. Votar no candidato x e ignorar os candidatos ao parlamento que o apoiam é o mesmo que jogar candidato e projeto de governo às piranhas.

Aí se segue aquela novela pós-eleitoral que conhecemos: os vencedores das eleições acabam sendo os maiores perdedores, porque a nossa democracia de coalizão exige uma maioria para manter a estabilidade do governo, maioria que terá de ser barganhada nos intestinos do poder.

Alguns países — como Itália, Reino Unido ou Alemanha — adotam um modelo mais coerente: primeiro, elege-se o parlamento; constituído o legislativo, o partido majoritário, tendo o aval do voto direto, forma o governo. Ao contrário do nosso sistema presidencial e semiplebiscitário, nesses países, caso o governo perca maioria ou apoio — por conta de escândalos de corrupção, por exemplo —, fica à mercê do parlamento, que pode pedir a dissolução do gabinete.

Hoje, elegem-se os executivos e, salvo exceções, ficam lá por quatro anos, por piores que possam ser.

No Brasil, em vez de se falar em uma mudança no sistema para que haja possibilidade de mudanças antes das datas marcadas, ao contrário: fala-se muito nas vantagens de uma “pasteurização” do calendário eleitoral, com a unificação das eleições gerais e das municipais.

Isso precisa ser repensado. A democracia não é uma simples questão de ir à urna. É preciso cobrar sempre executivos e parlamentares e termos a chance de abortar o mandato caso ele desaponte o eleitorado. E o primeiro passo para isso é observar melhor as eleições para os parlamentos.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/8/2014.

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Vacas sagradas

O jornalista Ariel Palacios, correspondente de O Estado de São Paulo na Argentina, tem um artigo em que fala do poder dos mortos nas eleições argentinas. Juan Domingo Perón e Néstor Kirchner decidiram e decidem eleições mesmo estando sob sete palmos de terra.

Quem assistiu ontem ao horário eleitoral gratuito na televisão teve uma ligeira impressão de que o Brasil sofreu uma argentinização política. Com exceção da extrema esquerda, todos presidenciáveis homenagearam de alguma maneira o ex-candidato pelo PSB, Eduardo Campos, a começar, obviamente, pelo próprio partido. Campos será o estadista que nunca foi; temos tradição em criá-los, como fizemos com José Alencar, o vice de Lula.

O PSB optou por passar parte das gravações que já estavam prontas. O PV, uma mensagem lida. O PT pôs o próprio Lula para falar de Campos. Aécio Neves (PSDB) falou sobre “ideais comuns” que o uniam ao governador pernambucano. Aécio já arrasta consigo o legado do finado avô, Tancredo Neves, o presidente que nunca o foi.

Contrariamente à Argentina, onde até mesmo os sepulcros dos políticos viram lugares de peregrinação e seus corpos viram relíquias — basta mencionar en passant o furto das mãos do general Perón, em 1987 —, o Brasil não tem a tradição de cultos em longo prazo. Mesmo Vargas é citado esporadicamente. De Brizola, nem uma linha. Vejamos quanto tempo durará o efeito Campos sobre a política nacional.

Fora o detalhe da morte trágica de Campos, o horário político teve aquela insipidez habitual: todos contra o PT — sem citá-lo diretamente, valendo-se apenas de alusões — e o PT mostrando um país que talvez fosse o Reino Unido ou a Suécia.

Embora não esteja morto, o fantasma de Lula veio assombrar o programa petista e, fazendo propaganda para uma Dilma despojada — que gosta de passear com o cachorro e cozinhar —, fez mais propaganda para si que para Dilma, dizendo que no seu segundo governo estava mais preparado que no primeiro.

O PSDB escolheu o tapa com luva de pelica. Falou de “avanços das últimas décadas” e concentrou o ataque “nos últimos quatro anos”. Estariam poupando Lula, que se tornou uma espécie de vaca sagrada da política?

Muitas palavras já gastas: educação, saúde, união, povo, socialismo, futuro, avanço, segurança, crise. Gastas e com aquele odor a ranço.

Ainda é cedo para dizer algo, mas é muito improvável que o horário eleitoral nos reserve alguma surpresa.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa, Araraquara/SP, em 20/8/2014.

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