Eu gosto

Já tratei da questão de gostos em outros lugares e textos. Temos uma mania irrefreável de usar gosto ou repulsa como argumento. “Gosto” ou “não gosto” povoam discussões que deveriam primar por maior exatidão. “Não concordo com fulano porque não gosto da abordagem que ele dá ao tema.” Não é assim. Elabore o seu argumento; não pode ficar assim.

Na minha trajetória como professor de língua estrangeira, volta e meia me deparo com esse tipo de argumento. Ainda mais lecionando uma “língua exótica”, como é considerada a língua italiana. Tudo aquilo que não é inglês ou espanhol é “língua exótica”.

Quase sempre, na aula demonstrativa que a escola promove, pergunto quais são os objetivos do aluno com a língua italiana, e as respostas são várias: “vou fazer estágio na Itália”, “preciso ler algumas obras para o mestrado”, “preciso fazer a proficiência para o doutorado”. Estas são respostas que me dão alento, pois será o tipo de aluno mais esforçado. A obrigação iminente os obriga a serem diligentes com o estudo. De modo geral, o brasileiro é relapso com o aprendizado, só estuda o necessário e, quando sai da faculdade, dificilmente põe a mão novamente em um livro. Isso possivelmente explica a má qualidade dos nossos profissionais de nível superior: estudam na faculdade e, depois, passam a vida como diletantes, no achismo  baseado em fundamentos amolecidos pelo tempo e pela preguiça.

Quando um aluno me diz que procurou aulas de italiano porque “gosta”, é hora de eu me preocupar. É o tipo de aluno que começa empolgado, mas que, na primeira dificuldade — coisa que na língua italiana não falta, como o uso das particelle ci e ne, por exemplo —, começa a desanimar, a ficar mais aéreo, faltar, até que desaparece por completo das aulas, sem sequer dar satisfação. Será uma experiência muito, mas muito breve.

É claro que se deve tirar algum prazer do estudo, caso contrário, além de dolorido, será inútil e traumático, mas desistir completamente após a primeira dificuldade é indício de uma fraqueza de espírito sem tamanho, característica que, infelizmente, permeia grande parte dos nossos conterrâneos.

Se alguém gosta de algo, desistir desse algo após a primeira tentativa mostra que era apenas um amor fugaz, um amor de terça de Carnaval.

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