Doroteia e a democracia

dorocaixa

Doroteia só fala comigo. Sabe da celeuma que causaria um gato falante, seja entre os humanos ou entre a comunidade felina. Mas mesmo antes de falar, procurava manifestar suas opiniões políticas.

O PSDB não a agradava. Via alguém na folha de jornal que lhe servia de banheiro e a esfiapava. Com o PT era pior: tratava de espalhar bem seus excrementos para cobrir a fotografia de qualquer petista que fosse. Opiniões fortes.

Dias desses, com a proximidade das eleições e seu desconhecimento do tema, Dorô, instigada pelos jornais, me perguntou:

— Então é isso? Através de uma maquineta pouco confiável vocês escolhem seus líderes?

— Sim, Dorô. Mas não os chamamos exatamente de líderes. São governadores, presidentes, deputados federais e estaduais e senadores.

— Detalhes. E só tem esses candidatos?

— Como assim “só”?

— Só esses que aparecem nos jornais… e depois das eleições? Eles lutam até a morte pelo poder?

— Sim, só esses que aparecem nos jornais e alguns outros de pouca monta. Antes das eleições, é preciso fazer o registro no Tribunal Eleitoral, senão não é possível ser candidato e ser votado. E não, eles não lutam até a morte. Quem ganha na urna ganha o poder.

— Quem tiver mais votos ganha?

— Isso.

— Nada de luta?

— Não.

— E como faz o líder para defender seu poder?

— Veja, Doroteia. O presidente defende não precisa defender o seu poder. Ele governa; para governar, precisa do apoio do Congresso, formado pelos deputados e senadores. O mesmo ocorre nos estados.

— E se alguém quiser lutar com o presidente?

— Para quê? E outra: ele tem guarda-costas.

— Vocês, humanos, são uma vergonha. Onde já se viu um líder que não sabe lutar?

— A luta, nesse campo, Dorô, é com as palavras.

— Balelas! Mas, mudando de assunto, já que os candidatos são limitados e não podem ser postos pra fora com luta corporal, como vocês os escolhem?

— A maioria das pessoas vota no menos pior, no que pode causar menos dano ou simplesmente é incapaz de fazer dano.

Dorô arrepiou os pelos das costas.

— Isso é repulsivo! Vocês votam no menos pior? Não existe nada melhor que isso?

— Talvez até exista, Dorô, mas está fora da política. No Brasil, ela é feita pela pior casta da sociedade, então as pessoas se veem obrigadas a eleger o menos pior, na visão delas.

— Isso é uma desonra. Era preferível anular o voto a dá-lo a qualquer idiota de baixa periculosidade.

— Penso assim, Doroteia, mas a massa acha que tem de votar em alguém.

— O que acontece se ninguém for eleito?

— Isso não tem como acontecer. Sempre alguém elege o candidato mais bonito ou mais cheiroso. Ou aquele que fede e diz que é povão; o eleitorado divide-se basicamente entre quem toma banho e quem não. Mas há quem não tome banho por preguiça e quem não o faça por convicção; e ainda quem toma banho escondido e diz que não toma; e também quem finge que toma. As pessoas votam; elas têm em mente de que têm de eleger alguém. Não votar é simplesmente um ato que deixa você com a consciência limpa, pois pouco afeta o sistema eleitoral. Anular o voto é quase como um ato particular.

— Pavoroso. Por isso que, entre os gatos, resolvemos na força bruta. É dolorido, mas é eficiente.

— Parece uma espécie de justiça selvagem.

Doroteia observa um mosquito que entrou na sala. Antes de se dispersar totalmente atrás do inseto, perguntou ainda:

— Mas, afinal, você é do grupo que toma banho ou não?

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