Doroteia e a identidade coletiva

Dias desses, estávamos vendo televisão. Parei num canal que transmitia um documentário sobre as ruínas das Missões, no Rio Grande do Sul. Doroteia, que até aquele instante dormia largada nas minhas pernas, acordou para bocejar e coçar-se e deu de cara com uma igreja semiderruída no tubo de raios catódicos do televisor — sim, a tela de LCD ainda não chegou a minha casa.

— Parece interessante. Do que se trata?

— São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, Dorô. Era parte de um complexo de reduções jesuíticas na bacia do Paraná que englobava o que hoje é parte de Brasil, Argentina e Paraguai.

— E por que está destruído?

— Nós destruímos.

— Eu e você?

— Não, Dorô. Nós paulistas, no século XVII.

— Bem, eu sou um gato. Não posso ter me envolvido nessa briga de padres e bandeirantes; você é descendente de imigração recente. Tampouco tem relação com os fatos.

— Não é assim que funciona, Dorô. É uma questão de identidade. Não tenho mais relação com a terra dos meus antepassados porque nasci aqui e aqui vivo. Logo, a minha história tem de ser a do lugar em que eu nasci e cresci, mesmo fazendo parte de um ciclo populacional diferente. Mais coisas definem identidade regional ou nacional que simplesmente origem étnica; a identificação com a história do lugar em que você nasceu é importante.

— Nasci aqui, mas tanto se me dá.

— É fácil querer desprender-se desse peso e simplesmente não ter compromisso com nada. Parece confortável demais, aliás, bem próprio dos felinos…

— Alto lá. Também não é assim.

Fiz-lhe um cafuné para reparar a ofensa involuntária.

— Temos de separar as histórias, Doroteia. Uma coisa é a minha história familiar; em geral, as histórias familiares, tirando a de grandes nomes, pouco têm a acrescentar à nossa noção de realidade: nossos parentes vieram de uma Europa esfaimada e analfabeta; ninguém faz imigração porque é moda ou porque a Vogue publicou. A história comum, compartilhada por vários indivíduos, é que nos localiza no mundo, o que forma a ideia de nação. Caso contrário, cada um de nós será uma nação: o reino do eu-sozinho, uma noção autista de identidade. Eu me vejo como paulista, mesmo sendo fruto da imigração, mas que já está longe quase um século de mim. Ninguém da minha família nascido aqui fala castelhano ou italiano; tendo nascido aqui, a minha história coletiva é a história paulista, por isso me autorizo a dizer nós paulistas, porque é a história da terra em que nasci e onde vivo. A herança cultural tem de ser um misto de história pessoal e coletiva, com preferência para a última.

Doroteia não parecia convencida.

— Nasci ali, num terreno baldio. Mamãe, sabe lá Deus de onde veio; papai, nunca o vi. Então, minha história coletiva é o terreno baldio.

— Vocês, gatos, não estão organizados em sociedade e não têm memória que passe de geração em geração. Fica difícil assim, Dorô. Não dá pra comparar. Não podemos viver como vocês, que apenas têm percepção do hoje. Nossa história se arrasta por séculos, e ignorá-la é como viver à deriva no oceano. A consciência história é necessária; só o passado pode significar o presente e dar parâmetro para o futuro.

— Belas palavras, meu caro, mas o meu pratinho está vazio.

Diante de tal argumento, quem pode continuar uma discussão. E lá fui eu encher a tigela da Doroteia.

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