Monthly Archives: Julho 2014

Eu gosto

Já tratei da questão de gostos em outros lugares e textos. Temos uma mania irrefreável de usar gosto ou repulsa como argumento. “Gosto” ou “não gosto” povoam discussões que deveriam primar por maior exatidão. “Não concordo com fulano porque não gosto da abordagem que ele dá ao tema.” Não é assim. Elabore o seu argumento; não pode ficar assim.

Na minha trajetória como professor de língua estrangeira, volta e meia me deparo com esse tipo de argumento. Ainda mais lecionando uma “língua exótica”, como é considerada a língua italiana. Tudo aquilo que não é inglês ou espanhol é “língua exótica”.

Quase sempre, na aula demonstrativa que a escola promove, pergunto quais são os objetivos do aluno com a língua italiana, e as respostas são várias: “vou fazer estágio na Itália”, “preciso ler algumas obras para o mestrado”, “preciso fazer a proficiência para o doutorado”. Estas são respostas que me dão alento, pois será o tipo de aluno mais esforçado. A obrigação iminente os obriga a serem diligentes com o estudo. De modo geral, o brasileiro é relapso com o aprendizado, só estuda o necessário e, quando sai da faculdade, dificilmente põe a mão novamente em um livro. Isso possivelmente explica a má qualidade dos nossos profissionais de nível superior: estudam na faculdade e, depois, passam a vida como diletantes, no achismo  baseado em fundamentos amolecidos pelo tempo e pela preguiça.

Quando um aluno me diz que procurou aulas de italiano porque “gosta”, é hora de eu me preocupar. É o tipo de aluno que começa empolgado, mas que, na primeira dificuldade — coisa que na língua italiana não falta, como o uso das particelle ci e ne, por exemplo —, começa a desanimar, a ficar mais aéreo, faltar, até que desaparece por completo das aulas, sem sequer dar satisfação. Será uma experiência muito, mas muito breve.

É claro que se deve tirar algum prazer do estudo, caso contrário, além de dolorido, será inútil e traumático, mas desistir completamente após a primeira dificuldade é indício de uma fraqueza de espírito sem tamanho, característica que, infelizmente, permeia grande parte dos nossos conterrâneos.

Se alguém gosta de algo, desistir desse algo após a primeira tentativa mostra que era apenas um amor fugaz, um amor de terça de Carnaval.

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Made in Brazil

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Dias desses, eu assistia ao Bob Esponja na televisão. Quando o desenho acabou, começou uma série nacional sobre a vida modorrenta de uma adolescente suburbana. Um daqueles enredos que não são totalmente falsos, mas são muito floreados para serem reais. Algo insosso, com uma trilha sonora de violão choroso.

Lembrei-me de que há legislação que obriga as emissoras a cabo a transmitirem produção nacional. Porém não há legislação que me obrigue a ver produção nacional. Eu vejo o que quero.

Infelizmente, a produção audiovisual brasileira está longe de qualquer padrão de excelência, seja de ordem estética ou técnica. Filmes nacionais oscilam entre pornochanchadas intelectualoides* e comédias leves com atores de televisão. Por isso a necessidade de Ancine, Lei Rouanet, Filmobrás, BNDES e regime de cotas imposto aos canais para que a produção nacional tenha espaço.

Com raríssimas exceções — não saberia citar quais, mas deve haver —, o cinema nacional está em coma, vivendo por aparelhos. Fomentá-lo é apenas adiar sua morte. É possível que de do processo de necrose nasça algo novo. Como está, será apenas a perpetuação de um cinema pseudocomercial, que quer ser comercial, mas não tem público que o ature.

A manutenção desse sistema “cultural” somente tem por objetivo a manutenção artificial de uma “cultura brasileira” (se é que isso existe, mas deixemos para uma próxima oportunidade) e para manter os “artistas” apaniguados dos partidos que se alternam no poder, mas que são, no fim das contas, variantes do mesmo tema. Tanto é que já existe uma indústria de editais de “ação cultural” e outras barbaridades menores.

Mas deixemos de conversa. É só trocar de canal.

* * *

(*) um amigo me falou de um filme nacional recente, cujo nome agora me foge, mas que fala sobre uma trupe de teatro no meio dos anos 70. A certa altura, no meio de um diálogo de um casal gay, surge a seguinte fala: “Que saudade do seu pau”. Puxa, mas quanto conteúdo e relevância! Ah, detalhe: pago com o seu dinheiro, via fomentos estatais.

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Doroteia e a democracia

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Doroteia só fala comigo. Sabe da celeuma que causaria um gato falante, seja entre os humanos ou entre a comunidade felina. Mas mesmo antes de falar, procurava manifestar suas opiniões políticas.

O PSDB não a agradava. Via alguém na folha de jornal que lhe servia de banheiro e a esfiapava. Com o PT era pior: tratava de espalhar bem seus excrementos para cobrir a fotografia de qualquer petista que fosse. Opiniões fortes.

Dias desses, com a proximidade das eleições e seu desconhecimento do tema, Dorô, instigada pelos jornais, me perguntou:

— Então é isso? Através de uma maquineta pouco confiável vocês escolhem seus líderes?

— Sim, Dorô. Mas não os chamamos exatamente de líderes. São governadores, presidentes, deputados federais e estaduais e senadores.

— Detalhes. E só tem esses candidatos?

— Como assim “só”?

— Só esses que aparecem nos jornais… e depois das eleições? Eles lutam até a morte pelo poder?

— Sim, só esses que aparecem nos jornais e alguns outros de pouca monta. Antes das eleições, é preciso fazer o registro no Tribunal Eleitoral, senão não é possível ser candidato e ser votado. E não, eles não lutam até a morte. Quem ganha na urna ganha o poder.

— Quem tiver mais votos ganha?

— Isso.

— Nada de luta?

— Não.

— E como faz o líder para defender seu poder?

— Veja, Doroteia. O presidente defende não precisa defender o seu poder. Ele governa; para governar, precisa do apoio do Congresso, formado pelos deputados e senadores. O mesmo ocorre nos estados.

— E se alguém quiser lutar com o presidente?

— Para quê? E outra: ele tem guarda-costas.

— Vocês, humanos, são uma vergonha. Onde já se viu um líder que não sabe lutar?

— A luta, nesse campo, Dorô, é com as palavras.

— Balelas! Mas, mudando de assunto, já que os candidatos são limitados e não podem ser postos pra fora com luta corporal, como vocês os escolhem?

— A maioria das pessoas vota no menos pior, no que pode causar menos dano ou simplesmente é incapaz de fazer dano.

Dorô arrepiou os pelos das costas.

— Isso é repulsivo! Vocês votam no menos pior? Não existe nada melhor que isso?

— Talvez até exista, Dorô, mas está fora da política. No Brasil, ela é feita pela pior casta da sociedade, então as pessoas se veem obrigadas a eleger o menos pior, na visão delas.

— Isso é uma desonra. Era preferível anular o voto a dá-lo a qualquer idiota de baixa periculosidade.

— Penso assim, Doroteia, mas a massa acha que tem de votar em alguém.

— O que acontece se ninguém for eleito?

— Isso não tem como acontecer. Sempre alguém elege o candidato mais bonito ou mais cheiroso. Ou aquele que fede e diz que é povão; o eleitorado divide-se basicamente entre quem toma banho e quem não. Mas há quem não tome banho por preguiça e quem não o faça por convicção; e ainda quem toma banho escondido e diz que não toma; e também quem finge que toma. As pessoas votam; elas têm em mente de que têm de eleger alguém. Não votar é simplesmente um ato que deixa você com a consciência limpa, pois pouco afeta o sistema eleitoral. Anular o voto é quase como um ato particular.

— Pavoroso. Por isso que, entre os gatos, resolvemos na força bruta. É dolorido, mas é eficiente.

— Parece uma espécie de justiça selvagem.

Doroteia observa um mosquito que entrou na sala. Antes de se dispersar totalmente atrás do inseto, perguntou ainda:

— Mas, afinal, você é do grupo que toma banho ou não?

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Doroteia e a identidade coletiva

Dias desses, estávamos vendo televisão. Parei num canal que transmitia um documentário sobre as ruínas das Missões, no Rio Grande do Sul. Doroteia, que até aquele instante dormia largada nas minhas pernas, acordou para bocejar e coçar-se e deu de cara com uma igreja semiderruída no tubo de raios catódicos do televisor — sim, a tela de LCD ainda não chegou a minha casa.

— Parece interessante. Do que se trata?

— São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, Dorô. Era parte de um complexo de reduções jesuíticas na bacia do Paraná que englobava o que hoje é parte de Brasil, Argentina e Paraguai.

— E por que está destruído?

— Nós destruímos.

— Eu e você?

— Não, Dorô. Nós paulistas, no século XVII.

— Bem, eu sou um gato. Não posso ter me envolvido nessa briga de padres e bandeirantes; você é descendente de imigração recente. Tampouco tem relação com os fatos.

— Não é assim que funciona, Dorô. É uma questão de identidade. Não tenho mais relação com a terra dos meus antepassados porque nasci aqui e aqui vivo. Logo, a minha história tem de ser a do lugar em que eu nasci e cresci, mesmo fazendo parte de um ciclo populacional diferente. Mais coisas definem identidade regional ou nacional que simplesmente origem étnica; a identificação com a história do lugar em que você nasceu é importante.

— Nasci aqui, mas tanto se me dá.

— É fácil querer desprender-se desse peso e simplesmente não ter compromisso com nada. Parece confortável demais, aliás, bem próprio dos felinos…

— Alto lá. Também não é assim.

Fiz-lhe um cafuné para reparar a ofensa involuntária.

— Temos de separar as histórias, Doroteia. Uma coisa é a minha história familiar; em geral, as histórias familiares, tirando a de grandes nomes, pouco têm a acrescentar à nossa noção de realidade: nossos parentes vieram de uma Europa esfaimada e analfabeta; ninguém faz imigração porque é moda ou porque a Vogue publicou. A história comum, compartilhada por vários indivíduos, é que nos localiza no mundo, o que forma a ideia de nação. Caso contrário, cada um de nós será uma nação: o reino do eu-sozinho, uma noção autista de identidade. Eu me vejo como paulista, mesmo sendo fruto da imigração, mas que já está longe quase um século de mim. Ninguém da minha família nascido aqui fala castelhano ou italiano; tendo nascido aqui, a minha história coletiva é a história paulista, por isso me autorizo a dizer nós paulistas, porque é a história da terra em que nasci e onde vivo. A herança cultural tem de ser um misto de história pessoal e coletiva, com preferência para a última.

Doroteia não parecia convencida.

— Nasci ali, num terreno baldio. Mamãe, sabe lá Deus de onde veio; papai, nunca o vi. Então, minha história coletiva é o terreno baldio.

— Vocês, gatos, não estão organizados em sociedade e não têm memória que passe de geração em geração. Fica difícil assim, Dorô. Não dá pra comparar. Não podemos viver como vocês, que apenas têm percepção do hoje. Nossa história se arrasta por séculos, e ignorá-la é como viver à deriva no oceano. A consciência história é necessária; só o passado pode significar o presente e dar parâmetro para o futuro.

— Belas palavras, meu caro, mas o meu pratinho está vazio.

Diante de tal argumento, quem pode continuar uma discussão. E lá fui eu encher a tigela da Doroteia.

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