Dom Sarney

Juan Carlos I abdicou do trono de Espanha, como agora anda em voga na Europa. Também os nossos monarcas sem coroa abdicam.

A notícia me atingiu em cheio. Não consegui anotar a placa do caminhão; nem sei se era um caminhão. Só vi um nome em neon: José Sarney. O presidente emérito do Senado e da República anunciou ontem que não tem intenção de concorrer novamente à Câmara Alta.

O quarto senador do Maranhão, em seu pseudoexílio no Amapá, decidiu afastar-se daquilo a que se dedicou toda a vida. Há três motivos possíveis e que não se excluem: 1) está prevendo derrota certa no seu Estado de aluguel; 2) o chá da ABL anda imperdível ou 3) o governo petista está fazendo tanta água que as ratazanas mais gordas já estão deixando o navio.

Sarney é o que chamo de príncipe no sentido maquiavélico do termo. E maquiavélico no sentido baseado na obra magna do ilustre florentino, e não no senso comum. Podemos chamar Sarney de todos os nomes feios que conheçamos, dos mais batidos a termos incomuns como sevandija e mandrião, mas é inegável sua agilidade política.

Elegeu-se governador do Maranhão em 1966, já enquistado nas forças que sustentavam o regime militar. Foi ao Senado e lá ficou de 1971 a 1985, na Arena; com a extinção do partido, foi para seu sucessor natural, o PDS, pingou no finado PFL em 1984, para finalmente aportar no PMDB, num dos maiores atos do teatro político nacional. Acabou como “elemento de união” entre a velha e a nova política na chapa que formou com Tancredo Neves para disputar a Presidência da República no Colégio Eleitoral contra seu ex-colega de partido Paulo Maluf.

Lembro-me de uma fala do meu pai que escuto em estéreo toda vez que 1985 vem à tona:

— Se esse Tancredo morrer, o Sarney vai ser presidente da República.

A frase fatal (?!) foi dita pelo meu egrégio pai possivelmente em janeiro de 1985. O resto já é de conhecimento geral: pouco antes da posse, marcada para 15 de março, as dores abdominais do presidente eleito reverberam pela imprensa e pela população. Quem toma posse no lugar do presidente é seu vice, o já citado Sarney. Tancredo morre pouco mais de um mês da posse, em 21 de abril, depois de um imbróglio médico-político, legando-nos um presente de grego, ou de mineiro. Para ilustrar Tancredo, recorro a outra citação familiar, de um polêmico tio-avô:

— Tancredo só foi bom presidente porque nunca foi presidente.

Ato digno, diga-se en passant, ficou por conta do presidente João Figueiredo, que se negou a passar a faixa a Sarney; a faixa presidencial foi-lhe entregue por um fotógrafo do Planalto.

Não preciso detalhar o governo Sarney. A situação econômica, que já vinha deteriorada do governo Figueiredo, estourou-lhe no colo. Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser… Sarney foi a ave de mau agouro que inaugurou a Nova República com suas asas corvinas; depois viria a desvairada eleição de 1989, com a vitória pouco luminosa de Fernando Collor.

Se Sarney vai “aposentar-se”, que não seja por falta de adeus. Já prestou bastantes serviços ao País. Obrigado por nada.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s