A tevê

Confesso que vejo pouca televisão. Falando assim, de repente, pareço primeiro-anista de Ciências Sociais, que cada fala, até mesmo o pedido de um pingado e um misto-quente na padaria, tem de ser um sinal enfático de “protesto” contra o “sistema”. Não. Vejo pouca tevê pelo simples fato de não ter paciência; mesmo com o advento da tevê a cabo, relativamente acessível e com mil canais sobre os interesses mais extravagantes e desconexos temas. Mas se você, leitor, como eu, era criança entre o final dos anos 80 e começo dos 90, sabe a angústia que a televisão aberta pode causar a gente menos antenada.

Vamos ficar com aquela emissora satanizada pela esquerda universitária; não digo o nome apenas por gaiatice — Nudge, nudge. Wink, wink. Say no more! Três ou quatro novelas diárias; e novela me dá pavor. Abusa-se da tensão para manter a audiência. Na redação em que trabalho, a televisão acaba ficando ligada durante as novelas; outro dia, embora de onde me sento não veja a imagem, o televisor começou a emitir uns gemidos, coisa digna de filme pornô, mas era uma cena mais caliente de uma novela.

Filmes. Só blockbuster. Não que eu goste de filme alternativo; filme iraniano é como escargot, há quem veja nele uma iguaria fina e quem veja apenas mais um pestilento caracol de jardim; e eu sou do segundo time. E há os filmes que passam à tarde, que já foram reprisados centenas de vezes e sempre no mesmo horário. Também, quem vê televisão às 4 da tarde e tem mais de 18 anos? Poucos.

Três ou quatro horários de novela; o filme da tarde, o filme da noite. Ah, sim, o telejornal. Como sempre, mesmo o da emissora cujo nome não se diz, que procura ser mais sisudo e tem a devida fama, traz sempre os cortes mais frescos de carne, sejam cortados a faca ou a bala. Muita gente diz que a televisão só mostra desgraça; eis algo de que discordo. A televisão mostra desgraça porque quem lhe assiste baba esperando pela desgraça; se as pessoas não tivessem uma curiosidade mórbida pelo sangue e pela violência, as próprias emissoras colocariam outras coisas em suas grades de programação, como teatrinho de marionetes. Mas é justo que a televisão passe o que as pessoas querem ver.

Sobrou a faixa da manhã. É a hora dos programas voltados para a dona de casa: receitas, dicas de beleza, ‘merchãs’ correlatos, conselhos para a saúde, geralmente alarmismos envolvendo ovos, café, cigarro, fritura, sedentarismo; em separado ou tudo junto.

“Mas você disse que não vê tevê; como sabe de tanto detalhe?” É porque o esquema não muda nunca. E outra: às vezes eu vejo tevê sim; como eu disse no começo do texto, eu vejo pouca tevê, mas não a aboli da minha vida. Mas é claro que uma colher de óleo de fígado de bacalhau é melhor; dizem que, ao menos, faz bem à saúde.

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