O mundo não é redondo

O conto “O mundo não é redondo” é de Giovanni Guareschi e está no livro “Lo Zibaldino”, publicado inicialmente em 1948. Guareschi é mais conhecido pela série “Dom Camilo”, que, em vários volumes, conta a história conflituosa de um padre (dom Camilo) e o prefeito comunista de uma cidadezinha da planície do Pó no pós-guerra imediato. Alguns dos livros — não sei se todos — foram traduzidos para o português e publicados inicialmente pela finada editora Difel, no fim dos anos 70. Cronista de um período crítico da história da Itália e do mundo, Guareschi tem um texto irônico e agudo e faz das situações particulares um espelho dos problemas que afetam a humanidade até hoje.

A versão do conto é da sétima edição de “Lo Zibaldino”, da BUR, de 2013. A tradução é minha. Boa leitura.

* * *

O mundo não é redondo

Os Sumos Turistas andaram pelo mundo de norte a sul e depois se reuniram em congresso para relatar suas experiências.

“Eu”, disse o primeiro Sumo Turista, “encontrei o país onde ninguém morre. É um país como qualquer outro, com árvores, pernilongos e aquedutos, mas as pessoas podem nascer, mas não podem morrer. Nessa terra singular, não há médicos, não existe pena capital e não existem seguros de vida. De resto, é igual aos nossos países”.

“Não está claro”, interrompeu o presidente. “Se ninguém morre e as pessoas continuam a nascer, os habitantes, acima de tudo, devem viver em estratos, uns sobre os outros, de tantos que devem ser.”

O primeiro Sumo Turista negou com a cabeça:

“Não”, explicou. “Porque todos, assim que amealham dinheiro suficiente, vão ao exterior para morrer.”

 * * *

 “Eu”, disse o segundo Sumo Turista, “encontrei o país onde as máquinas tomaram o lugar dos homens.

“É um país onde, desde 1200 antes de Cristo, já se conheciam a calculadora e o rádio. Com o tempo, foi desenvolvida uma máquina para fazer tudo, fosse para julgar alguém culpado ou para escrever um romance de aventura. Tudo, no fundo, é matemática, e conceituados filósofos demonstraram a harmonia aritmética do pensamento. Desenvolveu-se uma máquina para fazer cada coisa, e, de ano em ano, as ditas máquinas eram aperfeiçoadas; foram interligadas até a criação de um admirável todo feito de fios, braços articulados, células fotoelétricas, ondas, campos magnéticos.

“E o homem, um belo dia, viu-se prisioneiro da sua obra-prima. É impossível parar a máquina, que traz a energia de recursos naturais controlados e regulados por ela mesma.

“O homem é vigiado continuamente por raios invisíveis que registram cada gesto seu, que controlam perfeitamente o funcionamento do seu organismo. Cada cômodo, cada rua é um conjunto de braços articulados, de tentáculos metálicos, de miras fotoelétricas. O homem entra em casa: na soleira, uma balança automática registra seu peso; um raio, sua estatura, um termômetro magnético, sua temperatura.

“Imediatamente, a máquina central sabe se ele deve comer ou não: se deve comer, um braço articulado pega o homem e o põe à mesa; outro braço arruma-lhe o guardanapo; uma cozinha automática começa a fumegar: a comida está pronta. Tentáculos de aço levam o de-comer à boca. Precisa comer. Só poderá levantar-se quando a balança que fica sob a cadeira for acionada e liberar uns negócios que o mantinham preso à cadeira.

“O homem prepara-se para acender um cigarro: um sopro de ar comprimido o joga fora. As radiações magnéticas emitidas pelo sistema nervoso advertiram um aparelho que o homem está agitado e que, logo, o fumo é inoportuno.

“Tenciona pegar um livro da estante; acende-se uma seta vermelha que lhe indica qual livro deve pegar: as ondas magnéticas emitidas pelo cérebro do homem e registradas por um aparelho especial são tais para permitir a leitura apenas de um determinado gênero.

“O homem tornou-se prisioneiro das suas máquinas: ele deve fazer apenas aquilo que lhe dizem as máquinas. E nada mais.”

“Parece-me muito interessante”, observou o presidente. “Assim, o homem não pode errar nunca. E esses homens são felizes.”

“Não. Ao contrário, procuram fugir, mas são recapturados impreterivelmente.”

“Poderiam então quebrar as máquinas”, objetou o presidente.

“Se observamos bem o caso, até mesmo pedem a Deus que nenhuma máquina enguice. Porque o primeiro dia em que apenas uma peça enguiçar, sendo todo o mecanismo interligado a outro, seria uma bagunça imensa, e os homens, por exemplo, seriam obrigados a ter o nariz polido pela escova para sapatos, a caminhar sobre as mãos e a vestir uma banheira em vez de uma blusa.”

O presidente aprovou:

“Já vemos nós com as máquinas de venda automáticas: imaginemos com uma máquina tal. E como se viram esses desgraçados?”

“Compõem poemas. Mas de cor, clandestinamente: a máquina só permite escrever poemas àqueles que, pelas radiações magnéticas do cérebro, mostrem-se aptos a escrever poemas.”

 * * *

 “Eu”, disse o terceiro Sumo Turista, “encontrei o país onde os animais têm direitos iguais aos dos homens.

“Há muitos anos, um ermitão da floresta, um homem de grande engenho, ensinou aos animais o segredo da palavra. Depois, satisfeito de sua imensa tarefa, morreu, e os animais disseram em coro: ‘Depois de ter tagarelado tanto, um pouco de silêncio não lhe fará mal’.

A partir daí, reuniram-se durante a noite em comício e organizaram uma revolução. Houve vítimas e, ao fim, foi feito um acordo entre as partes baseado no reconhecimento de um princípio de absoluta igualdade.

“Desta maneira, hoje, naquele país singular, para efeito de lei, tanto vale um homem quanto um cavalo.”

“Isso é interessantíssimo”, disse o presidente. “Mas não vejo de que modo se possa chegar, em qualquer questão, a uma identidade de ideais entre homens e animais. Por exemplo, como faz uma galinha para entrar em acordo com um homem de 40 anos?”

O terceiro Sumo Turista sorriu e explicou:

“Na primeira reunião de governo, o gato declarou a prescrição da luz elétrica: ‘De noite, se vê muito bem mesmo sem luz’, afirmou o gato.

“‘De noite, dorme-se’, afirmaram o cavalo, o boi e a cabra-montesa.

“Na segunda reunião, a vaca declarou as roupas prescritas: ‘Vou por aí totalmente nua e sou uma mulher com filhos de estirpe. Não há necessidade alguma de os homens esconderem-se sob cortes de tecido’.

“Na terceira sessão, o boi declarou a prescrição da história: ‘A história é absolutamente inútil’, afirmou. ‘Eu não vejo que utilidade há em escrever nos livros que meu tataravô foi abatido em 7 de julho de 1901 em Xis, que o tataravô do meu tataravô puxava o arado na propriedade da família Ípsilon, que a pele do patriarca da minha família serviu para fazer os sapatos de Fulano.’

“Na quarta sessão, a assembleia declarou solenemente que os micróbios são animais como todos os outros e que, por isso, ninguém tem direito de assassiná-los.

“Então, os homens, durante a noite, deram no pé, e os animais ficaram sós.

“E ainda estão sós. O problema é por conta do abastecimento: como o terreno, não mais cultivado, produz apenas pasto, as galinhas, por exemplo, que precisam de milho, estão sempre encrencadas. Os herbívoros encrencam-se no inverno, quando vem a neve.”

“E então?”, perguntou o presidente.

“Então”, explicou o terceiro Sumo Turista, “quando têm fome, as galinhas vão botar ovos no exterior para ter seus grãos, os cavalos e os bois vão puxar carroças e arados no exterior para ter feno”.

“Logo”, afirmou o presidente, “é tudo como antes; ou pior”.

“Não”, afirmou o terceiro Sumo Turista. “Agora, tendo a palavra, de quando em quando os animais se reúnem em comício e fazem discursos comemorativos sobre a sua ação libertadora. Depois, acusam os mais gordos de trair o povo e os matam a chifradas.”

* * *

“Eu encontrei o país em que ninguém mente”, disse o quarto Sumo Turista.

“Ora, não comecemos a contar histórias da carochinha!”, exclamou o presidente.

E a sessão foi suspensa.

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