O filho da puta

A corda que enforca o falastrão, em geral, é sua própria língua; o poste da forca, a própria memória ruim, que o impede de lembrar-se de todas as bravatas já ditas. Foi exatamente o que aconteceu com o ex-presidente Lula ao defender a presidente Dilma dos apupos e da ordem nada lisonjeira de que fosse tomar no cu. Lula esqueceu-se de quando pôs em xeque a reputação da mãe do presidente Itamar Franco e a honra do então ministro dos Transportes, Eliseu Resende, em 1993. Por sorte, o artigo da Folha de São Paulo e um memorando da Presidência da República na época foram recuperados e lembraram ao senhor Lula o quanto arde pimenta no olho dos outros. Naquele outro olho.

O PT, Lula e Dilma, nesse mais recente episódio insosso da política nacional, apenas colheram o que vêm plantando desde que o partido existe: a desmoralização das instituições. Só que quando o PT ocupa as instituições, quer o respeito que não lhes deu quando era oposição.

Eis uma das grandes questões deixadas pela Revolução Francesa. Antes, a maioria dos países do mundo — se não todos — eram monarquias, como França, Espanha e Portugal, ou repúblicas aristocráticas, como Veneza, Gênova e São Marino. Nesses regimes, existia uma classe apta ao governo; a partir do momento em que os preceitos revolucionários americanos começaram a fazer eco no Velho Mundo, tendo por motor a França, o relativo equilíbrio existente rompeu-se, abrindo a direção dos estados a quem conseguisse a ela chegar. Com a amplitude pornográfica do conceito de democracia, criaram-se uns monstrinhos modernos: o político profissional, cujo único objetivo é locupletar-se, e o eleitor-rês, que vota — delega o poder que tecnicamente “emana” dele — no primeiro finório que lhe oferecer um par de sapatos ou um saco de farinha. A dessacralização das instituições foi o primeiro passo para sua ruína; desde quando elas podem ser guiadas por absolutamente qualquer um, posto lá por quaisquer outros, claro fica que perdem a sua legitimidade. E observem que o discurso vigente é exatamente o avesso, que a legitimidade vem da “vontade soberana” exercida através do voto.

Desde que qualquer um pode chegar ao poder, seja sendo eleito para um cargo ou usurpando-o em nome do enigmático e amplíssimo “bem maior”, o filiputismo — o ato de ser um grande filho da puta — é intrínseco ao processo. Basta ver que nossos governantes são, em regra, representantes dignos dos piores sentimentos que formam a lata de lixo da alma nacional. Às vezes de alguns nichos específicos, como os piores sentimentos presentes no radicalismo sindical-populista, da empolada e inútil “academia” brasileira ou do mofo verde que reina nos quartéis; mas, desde Vargas, vêm sempre a galope da besta de mil cabeças, o populismo assistencialista, que transformou o Estado num síndico tirano e onipresente.

Todo aquele que for igual a nós é um filho da puta. Pois consideramos todos que nos façam eventuais agravos ou danos, mesmo que acidentais, filhos da puta. Se somos um país de filhos da puta, por que nossos governantes, oriundos do seio do povo, não querem sê-lo? Por que negam um traço tão amplo do genius populi brasiliani? O que nos une, o que nos irmana é o filiputismo.

Todos nós, nossos pais, nossos avós, sempre consideramos os governantes como grandes filhos da puta, mesmo que tenhamos votado neles. É nosso direito inabalável ofendê-los, assim como eles se locupletam — moral ou financeiramente — de nós.

Logo, certo estava Lula em qualificar Itamar Franco como filho da puta. Assim como Lula é chamado de filho da puta por milhões de pessoas em âmbito privado. Se fosse verdadeira a história de a orelha arder porque estão falando mal de nós, políticos não teriam orelhas, porque elas cairiam necrosadas; os representantes do povo seriam uma estranha classe de filhos da puta sem orelhas.

É direito nosso chamá-los filhos da puta; é uma questão de igualdade, de democracia. Lembro-me do meu avô, que veio da Espanha porque a guerra provocada por Franco, um grande hijo de puta, e seu conseguinte governo filiputista o impeliram a tal. Caiu aqui, em plena república populista, aquele período infernal entre a Constituinte de 1946 e o triste ato dos capitani de 1964, em pleno governo democrático Vargas, a quem considerou também um filho da puta sem estirpe; seu filho da puta predileto era Castelo Branco, a quem chamava de “filho da puta sem pescoço”, numa descrição quase zoológica. Na geração seguinte, meu pai elenca seus filhos da puta de estimação: Delfim Netto (o “filho da puta morsa”, outro grande momento da taxonomia zoopolítica), Orestes Quércia, Franco Montoro, Carvalho Pinto, José Sarney (esse um filho da puta de tipo perene, um highlander dos filhos da puta); eu fico com todos e ainda incluo Fernando Henrique Cardoso, o filho da puta presunçoso, produto típico da nossa academia, que é pródiga em produzir pesquisa científica “ensalamada” e filhos da puta de gabinete, e Lula, o filho da puta alpinista, que soube ser filho da puta como poucos e do filiputismo fez sua fortaleza.

Grandes filhos da puta, pequenos filhos da puta; somos todos. Por que os filhos da puta que derruíram as instituições — e são imensos filhos da puta por isso — não querem que se lhes diga o óbvio? Ou seja, de que são grandes, imensos, colossais filhos da puta.

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