Monthly Archives: Junho 2014

Condomínio

Quem mora em condomínio sabe: nada pior que síndico novo. A sindicância (?) ainda é um mistério dos tempos modernos, de prédios de cem apartamentos; quase ninguém vai às reuniões do condomínio; afinal, é notoriamente sabido que uma cerveja no fim do dia ou a série da tevê a cabo é muito mais entusiasmante que reunião de condomínio.

Reunião de condomínio é frequentada sempre por aposentados, mas não por qualquer aposentado; trata-se de uma casta específica de idosos: os que têm fome de poder, seja porque nunca o tiveram ou porque o tiveram e gostam da sensação inebriante que é ter poder sobre o cotidiano alheio. E lógico que, sendo essas pessoas a décima parte dos condôminos, elegeram entre si o síndico.

Há casos de verdadeiras ditaduras, em que o síndico é o mesmo faz 40 anos, e a eleição, que ocorre anualmente, é apenas um ato simbólico, para constar em ata, aquela que amarela durante meses no quadro de avisos do prédio, até que seja substituída por outra. Às vezes, nem se trata de uma eleição propriamente dita, mas de uma aclamação. Há ainda prédios em que cada eleição é uma luta furibunda entre facções que se formam por divergências seriíssimas. Por exemplo, a turma que na última pintura do edifício quis bege versus o partido do salmão com detalhes em sépia. A partir da primeira divergência, será guerra eterna; para qualquer mudança no edifício serão necessárias várias reuniões ordinárias e extraordinárias.

Mas, para quem vive em prédio, poucas coisas são mais irritantes que síndico novo, principalmente se o ungido é síndico pela primeira vez. Ele se vê como um estadista; o condomínio passa a ser seu império. Começam a brotar cartazes nos elevadores ressuscitando regras caídas no ostracismo havia dez, 15 anos. Os interfones começam a tocar no sábado pela manhã: “Bom dia. Eu poderia falar com o responsável pelo apartamento?”; e lá vem alguma regra draconiana que será cobrada com severidade. “Mas eu desconhecia isso, moro aqui há cinco anos e nunca tinha ouvido falar disso”, o pobre condômino pode tentar rebater. Inútil: “Está no Regulamento do condomínio; o senhor pode pegar uma cópia com o porteiro e verificar”.

Viver em apartamento tem suas vantagens, mas as desvantagens quase todas moram de subaluguel com o síndico.

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Dom Sarney

Juan Carlos I abdicou do trono de Espanha, como agora anda em voga na Europa. Também os nossos monarcas sem coroa abdicam.

A notícia me atingiu em cheio. Não consegui anotar a placa do caminhão; nem sei se era um caminhão. Só vi um nome em neon: José Sarney. O presidente emérito do Senado e da República anunciou ontem que não tem intenção de concorrer novamente à Câmara Alta.

O quarto senador do Maranhão, em seu pseudoexílio no Amapá, decidiu afastar-se daquilo a que se dedicou toda a vida. Há três motivos possíveis e que não se excluem: 1) está prevendo derrota certa no seu Estado de aluguel; 2) o chá da ABL anda imperdível ou 3) o governo petista está fazendo tanta água que as ratazanas mais gordas já estão deixando o navio.

Sarney é o que chamo de príncipe no sentido maquiavélico do termo. E maquiavélico no sentido baseado na obra magna do ilustre florentino, e não no senso comum. Podemos chamar Sarney de todos os nomes feios que conheçamos, dos mais batidos a termos incomuns como sevandija e mandrião, mas é inegável sua agilidade política.

Elegeu-se governador do Maranhão em 1966, já enquistado nas forças que sustentavam o regime militar. Foi ao Senado e lá ficou de 1971 a 1985, na Arena; com a extinção do partido, foi para seu sucessor natural, o PDS, pingou no finado PFL em 1984, para finalmente aportar no PMDB, num dos maiores atos do teatro político nacional. Acabou como “elemento de união” entre a velha e a nova política na chapa que formou com Tancredo Neves para disputar a Presidência da República no Colégio Eleitoral contra seu ex-colega de partido Paulo Maluf.

Lembro-me de uma fala do meu pai que escuto em estéreo toda vez que 1985 vem à tona:

— Se esse Tancredo morrer, o Sarney vai ser presidente da República.

A frase fatal (?!) foi dita pelo meu egrégio pai possivelmente em janeiro de 1985. O resto já é de conhecimento geral: pouco antes da posse, marcada para 15 de março, as dores abdominais do presidente eleito reverberam pela imprensa e pela população. Quem toma posse no lugar do presidente é seu vice, o já citado Sarney. Tancredo morre pouco mais de um mês da posse, em 21 de abril, depois de um imbróglio médico-político, legando-nos um presente de grego, ou de mineiro. Para ilustrar Tancredo, recorro a outra citação familiar, de um polêmico tio-avô:

— Tancredo só foi bom presidente porque nunca foi presidente.

Ato digno, diga-se en passant, ficou por conta do presidente João Figueiredo, que se negou a passar a faixa a Sarney; a faixa presidencial foi-lhe entregue por um fotógrafo do Planalto.

Não preciso detalhar o governo Sarney. A situação econômica, que já vinha deteriorada do governo Figueiredo, estourou-lhe no colo. Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser… Sarney foi a ave de mau agouro que inaugurou a Nova República com suas asas corvinas; depois viria a desvairada eleição de 1989, com a vitória pouco luminosa de Fernando Collor.

Se Sarney vai “aposentar-se”, que não seja por falta de adeus. Já prestou bastantes serviços ao País. Obrigado por nada.

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Doroteia e a propriedade dos capachos

Doroteia é uma gata de opinião. Desde que apareceu em casa, suas opiniões políticas são como sua pelagem: mescladas. Tem sido minha companheira de debates políticos, pois tem mais cérebro e coerência que muitos comentaristas políticos que escrevem em jornalões por aí.

Apoia a reforma agrária, mas a dos capachos. Tanto que, quando escapa pela porta do apartamento e invade o hall do andar, vai deitar-se sobre um capacho que está à porta de um dos vizinhos. Como não tenho capacho à porta enquanto os outros três apartamentos têm, Doroteia crê que é sua função como movimento social felino que advogar pela divisão igualitária dos capachos.

— Por que não temos um capacho? — ela pergunta enquanto rola sobre o tapetinho alheio.

— Não gosto de capacho, Dorô. E outra: veja que todos os capachos do andar trazem escrito “bem-vindo”. Não gosto dessas liberdades.

— A gente arruma um que não tenha nada escrito…

— Não.

— Vamos pegar um desses e dividir. Vamos fundar o Movimento dos Sem-Capacho. Temos direito a capacho. Vamos pedir uma emenda constitucional.

— Não, Dorô. Nada disso. É propriedade privada. Além do mais, você tem o tapete da sala, que é bem maior.

Ela olha me olha fixamente e, do alto dos seus bigodes, com desdém.

— A propriedade é uma invenção burguesa.

Olho para ela intrigado.

— Vamos, Doroteia. Já pra dentro.

Não adianta a ordem. Sou obrigado a usar do meu poder de polícia enquanto autoridade constituída, pegá-la e pô-la para dentro do apartamento.

Qual a minha surpresa, horas depois, quando descubro a minha edição de “A propriedade é um roubo”, do Proudhon, cheia de arranhões nos cantos inferiores das páginas.

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A tevê

Confesso que vejo pouca televisão. Falando assim, de repente, pareço primeiro-anista de Ciências Sociais, que cada fala, até mesmo o pedido de um pingado e um misto-quente na padaria, tem de ser um sinal enfático de “protesto” contra o “sistema”. Não. Vejo pouca tevê pelo simples fato de não ter paciência; mesmo com o advento da tevê a cabo, relativamente acessível e com mil canais sobre os interesses mais extravagantes e desconexos temas. Mas se você, leitor, como eu, era criança entre o final dos anos 80 e começo dos 90, sabe a angústia que a televisão aberta pode causar a gente menos antenada.

Vamos ficar com aquela emissora satanizada pela esquerda universitária; não digo o nome apenas por gaiatice — Nudge, nudge. Wink, wink. Say no more! Três ou quatro novelas diárias; e novela me dá pavor. Abusa-se da tensão para manter a audiência. Na redação em que trabalho, a televisão acaba ficando ligada durante as novelas; outro dia, embora de onde me sento não veja a imagem, o televisor começou a emitir uns gemidos, coisa digna de filme pornô, mas era uma cena mais caliente de uma novela.

Filmes. Só blockbuster. Não que eu goste de filme alternativo; filme iraniano é como escargot, há quem veja nele uma iguaria fina e quem veja apenas mais um pestilento caracol de jardim; e eu sou do segundo time. E há os filmes que passam à tarde, que já foram reprisados centenas de vezes e sempre no mesmo horário. Também, quem vê televisão às 4 da tarde e tem mais de 18 anos? Poucos.

Três ou quatro horários de novela; o filme da tarde, o filme da noite. Ah, sim, o telejornal. Como sempre, mesmo o da emissora cujo nome não se diz, que procura ser mais sisudo e tem a devida fama, traz sempre os cortes mais frescos de carne, sejam cortados a faca ou a bala. Muita gente diz que a televisão só mostra desgraça; eis algo de que discordo. A televisão mostra desgraça porque quem lhe assiste baba esperando pela desgraça; se as pessoas não tivessem uma curiosidade mórbida pelo sangue e pela violência, as próprias emissoras colocariam outras coisas em suas grades de programação, como teatrinho de marionetes. Mas é justo que a televisão passe o que as pessoas querem ver.

Sobrou a faixa da manhã. É a hora dos programas voltados para a dona de casa: receitas, dicas de beleza, ‘merchãs’ correlatos, conselhos para a saúde, geralmente alarmismos envolvendo ovos, café, cigarro, fritura, sedentarismo; em separado ou tudo junto.

“Mas você disse que não vê tevê; como sabe de tanto detalhe?” É porque o esquema não muda nunca. E outra: às vezes eu vejo tevê sim; como eu disse no começo do texto, eu vejo pouca tevê, mas não a aboli da minha vida. Mas é claro que uma colher de óleo de fígado de bacalhau é melhor; dizem que, ao menos, faz bem à saúde.

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O mundo não é redondo

O conto “O mundo não é redondo” é de Giovanni Guareschi e está no livro “Lo Zibaldino”, publicado inicialmente em 1948. Guareschi é mais conhecido pela série “Dom Camilo”, que, em vários volumes, conta a história conflituosa de um padre (dom Camilo) e o prefeito comunista de uma cidadezinha da planície do Pó no pós-guerra imediato. Alguns dos livros — não sei se todos — foram traduzidos para o português e publicados inicialmente pela finada editora Difel, no fim dos anos 70. Cronista de um período crítico da história da Itália e do mundo, Guareschi tem um texto irônico e agudo e faz das situações particulares um espelho dos problemas que afetam a humanidade até hoje.

A versão do conto é da sétima edição de “Lo Zibaldino”, da BUR, de 2013. A tradução é minha. Boa leitura.

* * *

O mundo não é redondo

Os Sumos Turistas andaram pelo mundo de norte a sul e depois se reuniram em congresso para relatar suas experiências.

“Eu”, disse o primeiro Sumo Turista, “encontrei o país onde ninguém morre. É um país como qualquer outro, com árvores, pernilongos e aquedutos, mas as pessoas podem nascer, mas não podem morrer. Nessa terra singular, não há médicos, não existe pena capital e não existem seguros de vida. De resto, é igual aos nossos países”.

“Não está claro”, interrompeu o presidente. “Se ninguém morre e as pessoas continuam a nascer, os habitantes, acima de tudo, devem viver em estratos, uns sobre os outros, de tantos que devem ser.”

O primeiro Sumo Turista negou com a cabeça:

“Não”, explicou. “Porque todos, assim que amealham dinheiro suficiente, vão ao exterior para morrer.”

 * * *

 “Eu”, disse o segundo Sumo Turista, “encontrei o país onde as máquinas tomaram o lugar dos homens.

“É um país onde, desde 1200 antes de Cristo, já se conheciam a calculadora e o rádio. Com o tempo, foi desenvolvida uma máquina para fazer tudo, fosse para julgar alguém culpado ou para escrever um romance de aventura. Tudo, no fundo, é matemática, e conceituados filósofos demonstraram a harmonia aritmética do pensamento. Desenvolveu-se uma máquina para fazer cada coisa, e, de ano em ano, as ditas máquinas eram aperfeiçoadas; foram interligadas até a criação de um admirável todo feito de fios, braços articulados, células fotoelétricas, ondas, campos magnéticos.

“E o homem, um belo dia, viu-se prisioneiro da sua obra-prima. É impossível parar a máquina, que traz a energia de recursos naturais controlados e regulados por ela mesma.

“O homem é vigiado continuamente por raios invisíveis que registram cada gesto seu, que controlam perfeitamente o funcionamento do seu organismo. Cada cômodo, cada rua é um conjunto de braços articulados, de tentáculos metálicos, de miras fotoelétricas. O homem entra em casa: na soleira, uma balança automática registra seu peso; um raio, sua estatura, um termômetro magnético, sua temperatura.

“Imediatamente, a máquina central sabe se ele deve comer ou não: se deve comer, um braço articulado pega o homem e o põe à mesa; outro braço arruma-lhe o guardanapo; uma cozinha automática começa a fumegar: a comida está pronta. Tentáculos de aço levam o de-comer à boca. Precisa comer. Só poderá levantar-se quando a balança que fica sob a cadeira for acionada e liberar uns negócios que o mantinham preso à cadeira.

“O homem prepara-se para acender um cigarro: um sopro de ar comprimido o joga fora. As radiações magnéticas emitidas pelo sistema nervoso advertiram um aparelho que o homem está agitado e que, logo, o fumo é inoportuno.

“Tenciona pegar um livro da estante; acende-se uma seta vermelha que lhe indica qual livro deve pegar: as ondas magnéticas emitidas pelo cérebro do homem e registradas por um aparelho especial são tais para permitir a leitura apenas de um determinado gênero.

“O homem tornou-se prisioneiro das suas máquinas: ele deve fazer apenas aquilo que lhe dizem as máquinas. E nada mais.”

“Parece-me muito interessante”, observou o presidente. “Assim, o homem não pode errar nunca. E esses homens são felizes.”

“Não. Ao contrário, procuram fugir, mas são recapturados impreterivelmente.”

“Poderiam então quebrar as máquinas”, objetou o presidente.

“Se observamos bem o caso, até mesmo pedem a Deus que nenhuma máquina enguice. Porque o primeiro dia em que apenas uma peça enguiçar, sendo todo o mecanismo interligado a outro, seria uma bagunça imensa, e os homens, por exemplo, seriam obrigados a ter o nariz polido pela escova para sapatos, a caminhar sobre as mãos e a vestir uma banheira em vez de uma blusa.”

O presidente aprovou:

“Já vemos nós com as máquinas de venda automáticas: imaginemos com uma máquina tal. E como se viram esses desgraçados?”

“Compõem poemas. Mas de cor, clandestinamente: a máquina só permite escrever poemas àqueles que, pelas radiações magnéticas do cérebro, mostrem-se aptos a escrever poemas.”

 * * *

 “Eu”, disse o terceiro Sumo Turista, “encontrei o país onde os animais têm direitos iguais aos dos homens.

“Há muitos anos, um ermitão da floresta, um homem de grande engenho, ensinou aos animais o segredo da palavra. Depois, satisfeito de sua imensa tarefa, morreu, e os animais disseram em coro: ‘Depois de ter tagarelado tanto, um pouco de silêncio não lhe fará mal’.

A partir daí, reuniram-se durante a noite em comício e organizaram uma revolução. Houve vítimas e, ao fim, foi feito um acordo entre as partes baseado no reconhecimento de um princípio de absoluta igualdade.

“Desta maneira, hoje, naquele país singular, para efeito de lei, tanto vale um homem quanto um cavalo.”

“Isso é interessantíssimo”, disse o presidente. “Mas não vejo de que modo se possa chegar, em qualquer questão, a uma identidade de ideais entre homens e animais. Por exemplo, como faz uma galinha para entrar em acordo com um homem de 40 anos?”

O terceiro Sumo Turista sorriu e explicou:

“Na primeira reunião de governo, o gato declarou a prescrição da luz elétrica: ‘De noite, se vê muito bem mesmo sem luz’, afirmou o gato.

“‘De noite, dorme-se’, afirmaram o cavalo, o boi e a cabra-montesa.

“Na segunda reunião, a vaca declarou as roupas prescritas: ‘Vou por aí totalmente nua e sou uma mulher com filhos de estirpe. Não há necessidade alguma de os homens esconderem-se sob cortes de tecido’.

“Na terceira sessão, o boi declarou a prescrição da história: ‘A história é absolutamente inútil’, afirmou. ‘Eu não vejo que utilidade há em escrever nos livros que meu tataravô foi abatido em 7 de julho de 1901 em Xis, que o tataravô do meu tataravô puxava o arado na propriedade da família Ípsilon, que a pele do patriarca da minha família serviu para fazer os sapatos de Fulano.’

“Na quarta sessão, a assembleia declarou solenemente que os micróbios são animais como todos os outros e que, por isso, ninguém tem direito de assassiná-los.

“Então, os homens, durante a noite, deram no pé, e os animais ficaram sós.

“E ainda estão sós. O problema é por conta do abastecimento: como o terreno, não mais cultivado, produz apenas pasto, as galinhas, por exemplo, que precisam de milho, estão sempre encrencadas. Os herbívoros encrencam-se no inverno, quando vem a neve.”

“E então?”, perguntou o presidente.

“Então”, explicou o terceiro Sumo Turista, “quando têm fome, as galinhas vão botar ovos no exterior para ter seus grãos, os cavalos e os bois vão puxar carroças e arados no exterior para ter feno”.

“Logo”, afirmou o presidente, “é tudo como antes; ou pior”.

“Não”, afirmou o terceiro Sumo Turista. “Agora, tendo a palavra, de quando em quando os animais se reúnem em comício e fazem discursos comemorativos sobre a sua ação libertadora. Depois, acusam os mais gordos de trair o povo e os matam a chifradas.”

* * *

“Eu encontrei o país em que ninguém mente”, disse o quarto Sumo Turista.

“Ora, não comecemos a contar histórias da carochinha!”, exclamou o presidente.

E a sessão foi suspensa.

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O filho da puta

A corda que enforca o falastrão, em geral, é sua própria língua; o poste da forca, a própria memória ruim, que o impede de lembrar-se de todas as bravatas já ditas. Foi exatamente o que aconteceu com o ex-presidente Lula ao defender a presidente Dilma dos apupos e da ordem nada lisonjeira de que fosse tomar no cu. Lula esqueceu-se de quando pôs em xeque a reputação da mãe do presidente Itamar Franco e a honra do então ministro dos Transportes, Eliseu Resende, em 1993. Por sorte, o artigo da Folha de São Paulo e um memorando da Presidência da República na época foram recuperados e lembraram ao senhor Lula o quanto arde pimenta no olho dos outros. Naquele outro olho.

O PT, Lula e Dilma, nesse mais recente episódio insosso da política nacional, apenas colheram o que vêm plantando desde que o partido existe: a desmoralização das instituições. Só que quando o PT ocupa as instituições, quer o respeito que não lhes deu quando era oposição.

Eis uma das grandes questões deixadas pela Revolução Francesa. Antes, a maioria dos países do mundo — se não todos — eram monarquias, como França, Espanha e Portugal, ou repúblicas aristocráticas, como Veneza, Gênova e São Marino. Nesses regimes, existia uma classe apta ao governo; a partir do momento em que os preceitos revolucionários americanos começaram a fazer eco no Velho Mundo, tendo por motor a França, o relativo equilíbrio existente rompeu-se, abrindo a direção dos estados a quem conseguisse a ela chegar. Com a amplitude pornográfica do conceito de democracia, criaram-se uns monstrinhos modernos: o político profissional, cujo único objetivo é locupletar-se, e o eleitor-rês, que vota — delega o poder que tecnicamente “emana” dele — no primeiro finório que lhe oferecer um par de sapatos ou um saco de farinha. A dessacralização das instituições foi o primeiro passo para sua ruína; desde quando elas podem ser guiadas por absolutamente qualquer um, posto lá por quaisquer outros, claro fica que perdem a sua legitimidade. E observem que o discurso vigente é exatamente o avesso, que a legitimidade vem da “vontade soberana” exercida através do voto.

Desde que qualquer um pode chegar ao poder, seja sendo eleito para um cargo ou usurpando-o em nome do enigmático e amplíssimo “bem maior”, o filiputismo — o ato de ser um grande filho da puta — é intrínseco ao processo. Basta ver que nossos governantes são, em regra, representantes dignos dos piores sentimentos que formam a lata de lixo da alma nacional. Às vezes de alguns nichos específicos, como os piores sentimentos presentes no radicalismo sindical-populista, da empolada e inútil “academia” brasileira ou do mofo verde que reina nos quartéis; mas, desde Vargas, vêm sempre a galope da besta de mil cabeças, o populismo assistencialista, que transformou o Estado num síndico tirano e onipresente.

Todo aquele que for igual a nós é um filho da puta. Pois consideramos todos que nos façam eventuais agravos ou danos, mesmo que acidentais, filhos da puta. Se somos um país de filhos da puta, por que nossos governantes, oriundos do seio do povo, não querem sê-lo? Por que negam um traço tão amplo do genius populi brasiliani? O que nos une, o que nos irmana é o filiputismo.

Todos nós, nossos pais, nossos avós, sempre consideramos os governantes como grandes filhos da puta, mesmo que tenhamos votado neles. É nosso direito inabalável ofendê-los, assim como eles se locupletam — moral ou financeiramente — de nós.

Logo, certo estava Lula em qualificar Itamar Franco como filho da puta. Assim como Lula é chamado de filho da puta por milhões de pessoas em âmbito privado. Se fosse verdadeira a história de a orelha arder porque estão falando mal de nós, políticos não teriam orelhas, porque elas cairiam necrosadas; os representantes do povo seriam uma estranha classe de filhos da puta sem orelhas.

É direito nosso chamá-los filhos da puta; é uma questão de igualdade, de democracia. Lembro-me do meu avô, que veio da Espanha porque a guerra provocada por Franco, um grande hijo de puta, e seu conseguinte governo filiputista o impeliram a tal. Caiu aqui, em plena república populista, aquele período infernal entre a Constituinte de 1946 e o triste ato dos capitani de 1964, em pleno governo democrático Vargas, a quem considerou também um filho da puta sem estirpe; seu filho da puta predileto era Castelo Branco, a quem chamava de “filho da puta sem pescoço”, numa descrição quase zoológica. Na geração seguinte, meu pai elenca seus filhos da puta de estimação: Delfim Netto (o “filho da puta morsa”, outro grande momento da taxonomia zoopolítica), Orestes Quércia, Franco Montoro, Carvalho Pinto, José Sarney (esse um filho da puta de tipo perene, um highlander dos filhos da puta); eu fico com todos e ainda incluo Fernando Henrique Cardoso, o filho da puta presunçoso, produto típico da nossa academia, que é pródiga em produzir pesquisa científica “ensalamada” e filhos da puta de gabinete, e Lula, o filho da puta alpinista, que soube ser filho da puta como poucos e do filiputismo fez sua fortaleza.

Grandes filhos da puta, pequenos filhos da puta; somos todos. Por que os filhos da puta que derruíram as instituições — e são imensos filhos da puta por isso — não querem que se lhes diga o óbvio? Ou seja, de que são grandes, imensos, colossais filhos da puta.

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