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Dilma em Gavião Peixoto

A primeira vez num evento político é tão frustrante quanto aqueloutra primeira vez. Algo sempre sai como não deveria ter saído. No meu caso, me refiro à visita da presidente Dilma à Embraer em Gavião Peixoto, região central do Estado, que tive o prazer de acompanhar.

Ao que parece, o evento para a inauguração de um hangar da fábrica era o que se pode chamar de “evento controlado”. Seguranças da Presidência, verdadeiras carrancas de terno, com seus detectores de metal portáteis.

Sem entrevistas, sem público externo, sem os piolhos habituais das plateias revoltas. A imprensa, coitada, ficou isolada num chiqueirinho, a uns 20 metros do palco onde presidente e ministros desfilavam sua oratória ruim. Além da inauguração do hangar em si, a surpresa: um acordo entre Embraer e Aeronáutica para compra de 28 KC-390, o novo jato militar de transporte da empresa.

Entre a imprensa e o palco das autoridades, um mar azul de funcionários da Embraer. No lado oposto, os oportunistas de plantão, ou seja, as autoridades-satélite: prefeitos e vereadores da região, deputados do PT e o candidato ao Governo paulista, o quase desconhecido Alexandre Padilha.

O candidato foi o único político que veio dar uma palhinha “fora de programa” com a imprensa. Encostou-se à defensa de aço que fazia a separação dos ambientes e tagarelou um pouco com os poucos jornalistas que lhe prestaram atenção. Pouco antes, jornalistas de uma rede de televisão se perguntavam: “Você sabe quem é o Padilha? Não consigo identificá-lo”.

O ápice da peça ruim foi a aparição ex machina do governador Geraldo Alckmin, o que melou a festa. O tucano botou um ovo no ninho petista. O divertido da situação é o mal-estar que esse tipo de imprevisto costuma causar. Quase dava para cortar a tensão com faca.

Apesar do prazer em observar a fauna política e seus pavoneios, a frustração veio do fato de a presidente não ter vindo falar com a imprensa. Frustrante, mas previsível. Na semana anterior, houve um imbróglio entre dois ministros, Mantega e Mercadante. Este, numa desastrada entrevista à Folha, deu a entender que o Governo represa preços administrados — como energia e combustíveis —, o que foi desmentido por Mantega quase que simultaneamente. E é claro que os jornalistas presentes esperavam que a presidente visse ao cercadinho e respondesse algumas dessas indagações.

Ao final da pantomima, mandaram ao checkpoint o ministro da Defesa, Celso Amorim, que chegou dizendo: “Estou aqui, podem perguntar”. Óbvio que as perguntas ficaram no improviso e no chove-não-molha. As perguntas queriam ser sobre a Dilma, eleições, crise ministerial, mas nasceram mortas, fanadas; mandaram um ministro barbudinho, que mesmo da área que capitaneia entende pouco. Só decepção.

Fato curioso, mas também compreensível, é o direcionamento dos políticos quando veem a imprensa. Seus corpos se inclinam na direção dos microfones das grandes emissoras, as mesmas pelas quais fingem bronca ou indiferença, ainda mais políticos de esquerda, acostumados a dizer entre dentes a expressão “mídia burguesa” e outras grasnadelas.

Não falamos com a presidente, que era a intenção principal, mas, pelo menos, vi como são organizados esses eventos.

Decepcionante, mas previsível.

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