Monthly Archives: Abril 2014

Valentão

Em toda classe, em todos os anos, há o valentão da turma. Da pré-escola à universidade, eles estão e estarão lá. Se bem que no ensino superior, o valentão é de outro tipo: é o valentão intelectual, recém-assenhorado de parte do mundo intelectual e que lambe com fogo seus colegas. Geralmente, o valentão do intelecto é justamente aquele que era espezinhado pelo valentão tradicional, nos anos anteriores, e que, agora, enquanto pavoneia-se na sala de aula, o outro levanta muros ou atende o balcão do McDonald’s, sem muito tempo para reflexões.

Mas quero ficar no valentão tradicional, deixemos o acadêmico para outra oportunidade. É aquele que tivemos oportunidade de conhecer — ou de ser — na escola. Distribuía croques, dava aos outros apelidos vexatórios, pescotapas discretos, brigava na porta da escola contra qualquer um que fosse contra seu poder, fosse alguém que se levantasse contra a tirania ou entrasse em concorrência pelo poder, um novo valentão ou o valentão do 6º ano.

Dos meus anos de escola, lembro-me de um valentão peculiar. Não era forte, ao contrário, era fracote como a maioria de nós, cabeçudo e com a cara cheia de pintas. Mesmo assim, era de tirar satisfação conosco, seja quando fazíamos algazarra ou ofendíamos a prima dele. Também não dava croques e sua voz era suave, mas as palavras soavam como pequenas peças pontudas de aço, ríspidas. Ele tinha um segredo: intimidava e era respeitado por ser deficiente. Sua mão esquerda era deformada de nascença, parecia um pequeno sabonete usado do qual saíam dedos incipientes e cor-de-rosa, que, segundo me lembro, não se mexiam.

Não lhe levantávamos a voz. A visão daquela mãozinha nos intimidava; talvez ele chorasse se lhe lembrássemos da existência daquela mão. Mão que, aliás, existia e não existia. Nunca era citada e apenas saía do bolso da calça do valentão quando ele ia “resolver” alguma pendenga. A mão era a sua autoridade sobre nós; a mão deformada da Justiça.

Já nos últimos anos do primeiro grau, o valentão da mãozinha começou a namorar a menina que era cobiçada por todos, lourinha com olhões translúcidos. Perto dele, ela mirrava, e seus olhos ficavam como se fossem de vidro.

E a mãozinha sempre na iminência de ser sacada do bolso, como uma arma sempre próxima.

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O hoje

A paz, a bonança e a diplomacia nos transformaram em seres sem ação, inertes, preocupados com quantas calorias ingerimos no almoço. A angústia de que não há nada a combater ou apenas ser ultrajado por uma causa mínima, como um assalto banal.

Não há novas terras para descobrir, já sabemos que o mundo é redondo e gira ao redor do sol. O que sobrou para o homem comum além de ver a silhueta da fábrica em que trabalha no ocaso? Acaso há algo além da mera ida e vinda do trabalho. Há algo além das flores cultivadas nos quintais?

A longevidade das instituições e o desejo de paz amoleceu a alma dos homens, que morre em cada pequena miséria. Se ontem tínhamos de matar leões, arrastar-nos pelas trincheiras e uma linha do horizonte infinita, hoje temos os malfeitos de escritório, a deglutição de sapos, a sensaboria consumista e as quinas dos tetos como máxima ambição.

Creio que acabou. Se não aparecer uma ruptura, o homem está condenado a ser escravo da própria cretinice.

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