Maldito 1964

Vejo certa euforia na comemoração dos 50 anos da “Revolução de 1964”. Nem “ditadura”, nem “revolução”; o termo mais conveniente é “regime militar”. Ou “governos militares”.

Não vejo motivo algum para comemorações. A caserna andou semifestiva e ganhou um cala-boca de Dilma; o cala-boca certo da pessoa errada.

Por que então o pontapé inicial do regime militar não deve ser comemorado? Ora, dirão, ele nos livrou a iminente ação dos comunistas, das guerrilhas que faziam e desfaziam em alguns pontos do país — talvez isso o leitor não o saiba, mas as guerrilhas marxistas começaram suas atividades entre o fim dos anos 50 e começo dos 60, ou seja, antes do advento do golpe. É fato também que Goulart era, se não conivente, pelo menos fingia que as tais guerrilhas não existiam.

Se o regime militar foi tão “benéfico” nesse ponto, por que não deve ser comemorado? Simplesmente pelo fato de a ascensão do regime em 1964 e seu recrudescimento a partir de 1968 ter contribuído enormemente para a amalgamação da esquerda, antes dispersa e realmente fraca. O regime militar, com sua perseguição a guerrilhas armadas e organizações que agiam pelo terrorismo — político ou efetivo —, terminou por legitimar as ações da esquerda, tornando-os vítimas quando, na verdade, seu objetivo último era a implantação de um regime que, caso tivesse sido posto em marcha, teria sido muitas vezes pior.

As ações desenvolvidas na segunda quinzena de março de 1964, que culminaram nos acontecimentos cruciais dos dias 31 de março de 1º de abril, foram tomadas dentro de um ambiente de agitação social, que vinha desde a renúncia de Jânio Quadros, ou melhor, da tentativa de autogolpe por parte do presidente Jânio.

O conjunto de manifestações conhecido como Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorrido entre 19 de março e 8 de junho de 1964, em resposta a declarações “socialistas” por parte do então presidente da República, João Goulart, ajudou a criar um clima de instabilidade política. As manifestações opunham-se às políticas levadas a cabo por Goulart e tinham amplo apoio popular. Basta lembrar que, após a vitória do golpe, a marcha de 2 de abril de 1964, no Rio de Janeiro, levou às ruas 1 milhão de pessoas.

Talvez o golpe fosse desnecessário e poderia ter sido evitado por João Goulart.

Alguns fatos

É notório que nem todo Exército apoiava o movimento que se levantava. Há relatos de que o general Amaury Kruel, do II Exército, baseado em São Paulo, teria telefonado várias vezes ao presidente Goulart, pedindo apenas um “sim” deste último para dar início ao contragolpe. Embora o II Exército houvesse aderido ao movimento, seu comandante era um constitucionalista. Há relatos ainda, do seio do próprio movimento, que qualquer movimento contrário dos legalistas teria feito o movimento “correr de volta para a caserna”. Mas o governo preferiu resistir até o último minuto.

Faltava pouco mais de um ano para as eleições presidenciais de 1965. Na linha de frente: Carvalho Pinto (governador de São Paulo entre 1959 e 1963, e ministro da Fazenda em 1963 — 24% das intenções de voto), Juscelino Kubitschek (ex-presidente, 22%), Carlos Lacerda (governador do Estado da Guanabara naquele momento —16%) e Adhemar de Barros (governador de São Paulo naquele momento — 9%), segundo pesquisa do Ibope feita em 20 de março de 1964 (Jornal da Unicamp, mar/2003). Ou seja, Goulart fora, porque a Constituição o impedia de concorrer, embora se aventasse, à época, uma alteração na Constituição para que ele pudesse disputar.

Eis o que dizia a Constituição de 1946 a esse respeito.

Art 139 – São também inelegíveis:

        I – para Presidente e Vice-Presidente da República:

a) o Presidente que tenha exercido o cargo, por qualquer tempo, no período imediatamente anterior, e bem assim o Vice-Presidente que lhe tenha sucedido ou quem, dentro dos seis meses anteriores ao pleito, o haja substituído;

[…]

Logo, se os militares simplesmente não tivessem intervindo, a situação política teria tomado outros rumos a partir de 1965, justamente observando o fenômeno das marchas da Família; o eleitorado estava num momento de mudança de espectro.

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1 Comentário

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One response to “Maldito 1964

  1. Haroldo

    Olá. Cheguei por acaso (navegando perdidão…). O blog está bem de textos. Sobre “Maldito 1964” independente do que deu não dá de dispensar fatores relevantes da Guerra Fria. E dá de considerar que o PT – “fruto de 1964” – do Lula&Dilma 2003-14 não vai além duma quinta-categoria relativo à esquerda-dureza de 1964. Ou seja o Regime Militar sim colaborou para um mais que provável extirpar logo mais do esquerdismo/trabalhismo/socialismo/populismo.

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