A Ucrânia, a Moldávia e a recolonização russa

A situação dramática que se vê na Ucrânia não é fruto do acaso ou da bondade dos russos. Na verdade, trata-se da ação de uma escola longeva dentro da tradição autocrática russa.

Voltemos algum tempo. Nada melhor para garantir domínio sobre um território que simplesmente povoá-lo — ou repovoá-lo — com população metropolitana. Foi o que a Alemanha fez durante a segunda guerra principalmente na Polônia. Depois, até 1950, essas populações tiveram de retornar à Alemanha. Mas a ideia não é alemã; é russa. Foi dessa maneira que o Império Russo consolidou seu domínio sobre a Sibéria — basta lembrar que a Rússia, durante um bom tempo, limitava-se à Moscóvia. Tanto é, que não se inclui a Rússia entre as potencias colonizadoras, como Portugal, Espanha e Inglaterra, embora aquela certamente o seja.

A empreitada sobre a Sibéria deu tão certo que a Rússia soviética não pensou duas vezes em aplicar a mesma política na Europa. Com a perda da Finlândia, dos países bálticos e da Polônia, não se pensou duas vezes em russificar as regiões compostas majoritariamente por outros grupos nacionais. Possivelmente a Carélia é o primeiro experimento dessa neocolonização: em 1926, 57% da população era carélia (grupo étnico-linguístico muito próximos dos finlandeses); hoje, a República da Carélia — uma autonomia dentro da Federação Russa — tem apenas 7,2% de carélios, segundo o censo russo de 2010. A presença russa desmotiva a questão de que o território é historicamente finlandês.

O mesmo, com mais ou menos sucesso, foi aplicado nas repúblicas soviéticas. Praticamente todas têm uma população russa significante:

Na Estônia, embora seja etnicamente mais coesa, dois condados — Harju e Ida-Viru — têm 36% e 70% da população de origem russa. Abaixo, os índices de população russa por ex-república soviética em ordem decrescente:

Letônia (26,9%)
Cazaquistão (23,3%)
Ucrânia (17,3%)
Geórgia (9%)
Bielorússia (8,3%)
Quirguistão (6,6%)
Moldávia (5,95%)
Lituânia (5,8%)
Uzbequistão (5,4%)
Turcomenistão (4%)
Azerbaijão (1,3%)
Tadjiquistão (1,1%)
Armênia (0,5%)

A Letônia, que detém a maior porcentagem de russos entre as ex-repúblicas, parece não ter problemas com a comunidade; afinal, entrou, em companhia das outras duas repúblicas bálticas, na União Europeia.

Porém, é a Moldávia que vive a situação mais dramática — até a eclosão da crise ucraniana — com relação à minoria russa. A própria Moldávia é uma invenção dessa política neocolonial russa. O território foi, até a Segunda Guerra, parte da Romênia, com quem comparte história, língua e etnicidade, parte da Romênia. A então Bessarábia foi anexada pela URSS e transformada na República Socialista Soviética da Moldávia. Os russos implementaram uma política que sustentava a diferença étnico-linguística entre a Romênia e a Bessarábia, sustentando que se tratava de povos diferentes e de línguas diferentes. Até mesmo o alfabeto foi substituído: o romeno continuou usando o latino, enquanto que o “moldavo”, criado pelos russos, passou a usar o alfabeto cirílico.

Com a independência da Moldávia, em 1991, uma pequena faixa na margem esquerda do Nistro — Dniester — declarou-se independente: surgia a República da Transnístria. A estreita faixa de terra é de maioria eslava — russos e ucranianos somam 62,5% da população.

A política soviética para com a Moldávia transformou-a num Estado paranoico com a questão da identidade. Parte da população defende a reunificação com a Romênia, mas a elite política e pró-russa — basicamente os ex-comunistas que viraram a casaca — sustêm que a identidade moldava — que inexistia antes da Segunda Guerra — é algo diferente da romena.

Com relação à Ucrânia, a porcentagem geral de população russa é de 17,3%, quando se observa o total do país; porém, na Crimeia, no Sul e no Leste do país, essa taxa pode chegar a 92%, quando se vê a proporção por província. E, não à toa, esse conjunto corresponde à costa ucraniana do Mar Negro — a Rússia ainda mantém uma base naval na Crimeia — e as regiões de fronteira com a Rússia. Logo, essa distribuição de população russa não foi algo aleatório, mas resultado de uma política de colonização russa, com o intuito de transformar essas comunidades no “exterior” em território irredento; ao menor choramingo dessas populações, a Mãe Rússia tem um pretexto para agir.

A questão da Crimeia vai longe. É conhecida essa tendência colonialista russa, tanto que, em 1992, as potências ocidentais, Rússia e Ucrânia assinaram o chamado Memorando de Budapeste, pelo qual a Ucrânia entregaria à Rússia o arsenal nuclear remanescente da URSS em seu território e teria a garantia da sua independência e integridade.

Porém, sabe-se bem que acordos com a Rússia são papel molhado.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s