Velhota

Dias desses, eu voltava do Centro da cidade — coisa que aqui faço a pé —, e, por acidente, vi entrando numa casa uma senhora que é membro da academia de letras local. É oportuno dizer que essas academias existem aqui no Interior apenas como uma espécie de orgia de afagos. Afagam-se até o orgasmo.

É uma dessas senhoras que crê poder enganar a idade com vestidos joviais — mas da juventude dos anos 70 — e manda para os jornais textos intragáveis, que cheiram a vaselina perfumada e mantêm uma visão do mundo cor-de-rosa, como tem uma menina de 15 anos. Vi-a entrar com um carrinho de feira, com mantimentos. Talvez seu próximo texto seja sobre maçãs ou sobre “magia da natureza” presente nas frutas.

É gente que deveria pôr-se no seu lugar e ficar observando os pássaros bicar-lhe as romãs — toda velhota tem uma romãzeira no jardim, da qual colhe frutos apenas para fazer chá. Mas não. Ela vai fazer um texto torto, que dará trabalho ao editor do jornal, ao revisor, que o deixarão palatável, e as outras velhotas da cidade com veleidades literárias acharão o píncaro da produção literária mundial.

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