Monthly Archives: Janeiro 2014

Velhota

Dias desses, eu voltava do Centro da cidade — coisa que aqui faço a pé —, e, por acidente, vi entrando numa casa uma senhora que é membro da academia de letras local. É oportuno dizer que essas academias existem aqui no Interior apenas como uma espécie de orgia de afagos. Afagam-se até o orgasmo.

É uma dessas senhoras que crê poder enganar a idade com vestidos joviais — mas da juventude dos anos 70 — e manda para os jornais textos intragáveis, que cheiram a vaselina perfumada e mantêm uma visão do mundo cor-de-rosa, como tem uma menina de 15 anos. Vi-a entrar com um carrinho de feira, com mantimentos. Talvez seu próximo texto seja sobre maçãs ou sobre “magia da natureza” presente nas frutas.

É gente que deveria pôr-se no seu lugar e ficar observando os pássaros bicar-lhe as romãs — toda velhota tem uma romãzeira no jardim, da qual colhe frutos apenas para fazer chá. Mas não. Ela vai fazer um texto torto, que dará trabalho ao editor do jornal, ao revisor, que o deixarão palatável, e as outras velhotas da cidade com veleidades literárias acharão o píncaro da produção literária mundial.

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Da dieta dos cães

O tio comido pelos cachorros esfaimados não passou de uma blague. Assustou (?!) muita gente, mas não era nada mais que invenção de um redator entediado de um tabloide, um tal Wen Wei Po, que deve ser uma espécie de Notícias Populares chinês.

Nessa estória toda, o que mais me deixou intrigado é o fato de, apesar de falsa, a notícia ser absolutamente verossímil. Tudo é possível em um país absolutamente fechado, onde o ditador gordinho já mandou matar ex-namorada sob a acusação de promover pornografia, onde quem não chorasse no funeral do velho Kim Jong-il estava sujeito a ser preso, onde há apenas um milhão de receptores de televisão, de onde vêm relatos de canibalismo por falta de comida, mas há dinheiro para imensos mísseis balísticos, onde o Estado controla tudo e até mesmo corta 90% do valor da moeda local para destruir as economias das pessoas, onde o mercado negro para produtos de primeira necessidade é punido com pena de morte.

Nesse dédalo de insânia, um dirigente caído em desgraça ter sido jogado para cães famintos parece algo menor. Cruel, típico do totalitarismo comunista, mas menor. E possível.

A Coreia do Norte vive sobre os princípios do Juche, uma mescla de marxismo-leninismo, militarismo e culto a personalidade que encerra a política da “defesa em primeiro lugar”. O Estado, (ir)responsável por tudo, prioriza os mísseis a um preço módico: uma dieta de 400 kcal para seus habitantes.

Mais absurdo que um tirano comido por cães é a existência de algo tão brutal e desumano como o regime norte-coreano, que reduz as pessoas ao status de propriedade do Estado.

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