Ciência versus religião

Alguns setores da sociedade contemporânea tendem a ver religião e ciência como campos opostos, o que acredito ser uma divisão, se não casuísta, no mínimo, equivocada.

Temos a impressão de 1) o que vale é apenas o presente e 2) que esse presente é o cume de todo desenvolvimento humano. Ignorar a história ou lê-la com parâmetros modernos certamente induzirá a concepções de todo errôneas. Possivelmente a oposição entre ciência e religião é a mais patente delas.

Alguns creem impossível um cientista religioso ou um religioso cientista. Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e René Descartes eram cientistas religiosos; é um traço importante de suas personalidades que pode ser verificado em suas várias biografias. Gregor Mendel, o pai da genética moderna, era monge agostiniano e começou suas pesquisas no jardim do mosteiro em que viveu.

Essa oposição entre religião e ciência vem do fato de alguns autores quererem que esta última suplante a primeira, como um “culto à ciência”. E vale mesmo o argumento de que a religião leva obrigatoriamente ignorância para desqualificá-la — ou seja, de que bastam os saberes contidos em uma doutrina religiosa para reger a vida na terra.

A religião é a forma primeira de explicação do mundo. Basta ver no que consistem os primeiros cultos: deuses da fertilidade — humana e vegetal —, de fenômenos naturais, astros-deuses — principalmente o Sol, como entre os incas e os egípcios. Ou seja, há já uma percepção da relação de fenômenos então inexplicáveis como sendo necessários à vida.

E é claro que o “culto” dessas divindades-elementos ligaram-se à coisa pública, uma vez que aplacar a fúria dos deuses ou agradá-los por benesses era de interesse coletivo. Logo, as nascentes rei publicae — ainda sem territorialidade, ainda em nível tribal — abarcaram o culto. Melhor: tenho a impressão, que ainda requer muito para ser formulada de maneira coerente, de que a própria unidade tribal que deu origem ao sedentarismo e às primeiras cidades, como Çatalhöyük. Ou seja, a religião teve um importante papel de união na infância da civilização moderna.

A partir desse momento, Estado e religião formam uma coisa só, o que trouxe problemas. A aproximação da religião ao poder provocou a institucionalização da religião e tornou-a dogmática e, de dogmática em fetichista. Antes, eram assuntos religiosos comuns que norteavam a condução da coisa pública; em algum ponto da história, a balança inverteu-se, e o Estado passou a ditar os preceitos religiosos como instrumento de controle e propaganda. Com isso, os rituais, agora com uma hierarquia e com uma casta de “atravessadores” na relação fiel-divindade, tornam-se mais suntuosos e, logo, fetichistas.

Mesmo parecendo nociva, a associação de Estado e religião teve seus momentos de glória. O Levítico, livro da tradição judaico-cristã, é um grande exemplo disso. Ali há várias normas de conduta, principalmente sobre alimentação e higiene, o que acaba tendo valor legislativo em um período em que Estado e culto se confundiam.

O vínculo a religião servia mesmo para legitimar autoridade em um período que “direitos civis” e “tolerância” não estavam no cardápio. Ou a autoridade do rei vinha de Deus — o direito divino dos monarcas esteve em voga na Europa até a Revolução Francesa — ou vinha pelo fio da espada. Logo, não podemos julgar reis como tiranos apenas porque se baseavam no direito divino para governar. Era uma maneira de evitar guerras civis pelo poder.

O problema que existe entre religião e ciência no Ocidente, ou seja, na Europa Católica, tem mais relação com uma imobilidade institucional da Igreja que dogmas propriamente ditos.

Após a queda do Império Romano, foi a Igreja Católica, convertida em Estado, que manteve a cultura ocidental. Se não fosse esse papel da Igreja, o mundo seria muito diferente, e para pior, pode ter certeza. Porém, a acumulação de poder espiritual e temporal exercidos pela Igreja, benéfica nos primeiros séculos da Idade Média, começou a “fazer água” justamente num período cujo acontecimento foi promovido pela própria Igreja: o Renascimento.

Foi no Renascimento que a concepção de mundo mostrada pela Igreja pelo prisma da Bíblia começa a ser questionada e, na esteira das novidades, questiona-se também o próprio poder da Igreja. Formando naquele período não apenas uma religião, mas um Estado teocrático com influência direta sobre os outros estados católicos, a Igreja ensaia uma reação aos questionamentos, usa até mesmo a Inquisição para tal, mas entre “amigos”. Caso emblemático usado pelos que advogam a ignorância da religião frente ao pretenso “esclarecimento” da ciência é a questão de Galileu e a Igreja no caso de “heresia”, em que Galileu discordava do heliocentrismo.

Sabe-se que a pendenga entre Galileu e a Igreja, na verdade, foi uma rusga pessoal entre ele e seu amigo, o Papa Urbano VIII. O papa, longe de ser o grão-inquisidor, tinha vívido interesse no trabalho de Galileu; o problema foi Galileu, no seu “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”, ter posto frases atribuídas ao papa na boca de Simplício, o ingênuo defensor da corrente cosmológica aristotélica — em oposição ao heliocentrismo, de Copérnico.

Como àquela época a Igreja detinha o monopólio do ensino superior na Itália, o problema de Galileu é mais uma pendenga acadêmica que um embate ciência-religião. Lógico que uma afronta direta ao tipo de ciência pensado pela Igreja não era bem-vinda, mas a intransigência de Galileu no trato com a instituição custou-lhe a prisão domiciliar. Galileu “sofreu” por afrontar o lado político da Igreja, não exatamente pela defesa de suas ideias. Galileu, involuntariamente, atacou as “formas” da Igreja e não sua “essência”, pois era notoriamente um homem religioso e, pasmem, tinha apoio mesmo em parte da Cúria.

As grandes oposições criadas entre ciência e religião provêm da época da Revolução Francesa. A adoção da padronização social — uma sociedade em classes —, do sistema métrico — a padronização das unidades de massa e dimensão — e a substituição do catolicismo — um fator formativo importante ao francês da época — por um culto ao estado, todas essas novidades revolucionárias precisavam de uma contraparte a ser hostilizada. No caso da sociedade, a aristocracia e o clero. Quantos massacres os revolucionários não promoveram contra esses setores da sociedade, já que não “haveria espaço” para eles na sociedade revolucionária. Ou seja, o racionalismo científico proposto pelos revolucionários franceses. Estima-se que a revolução tenha matado entre 16 mil e 40 mil pessoas — uma merreca perto do que viria com Stálin e Hitler. Alguém lembrará da Inquisição, que matou milhões. Vamos aos milhões da Inquisição.

Vamos citar apenas o caso da Inquisição Espanhola. Segundo o historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade La Sapienza, de Roma, “a Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em “contumácia”, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.” As informações constam das Atas do Simpósio Internacional sobre a Inquisição, ocorrido em Roma, em outubro de 1998, promovido pela própria Igreja com a abertura dos arquivos do Santo Ofício ( o que pode ser verificado  em http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/october/documents/hf_jp-ii_spe_19981031_simposio_it.html, acessado em 27/12/2013, e também em artigo de Reinaldo Azevedo quando teve de defender-se de informações amalucadas de feministas http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/%E2%80%9Ce-os-milhoes-mortos-pela-santa-inquisicao%E2%80%9D-perguntam-e-eu-respondo/, acessado em 27/12/2013).

As informações acerca dos mortos pela Inquisição foram manipuladas pela historiografia pós-revolucionária e, posteriormente, pela marxista, na ânsia de criar um inimigo para atacar, no caso, a “cegueira” causada pelo cristianismo.

Diante de esses vários fatos, o que se percebe é que a oposição religião-ciência, hoje um filhote autônomo do politicamente correto, é filhote do terror revolucionário, mas que se agarrou tanto à ideia do racionalismo revolucionário que acabou gerando, no seio das Revoltas de 1848, a teoria socialista de Karl Marx. Por sua vez, o marxismo tem quase os mesmos inimigos: o clero novamente e a burguesia, que havia substituído a nobreza quando da Revolução Francesa.

A oposição religião-ciência não se sustenta por fatos políticos e históricos. E tampouco por fatos morais. É sabido que essa influência religiosa moldou os povos. Depois da queda do Império Romano, foi o catolicismo que, sendo também força política, criou uma área de cultura comum no Mediterrâneo, sendo parte incontornável do caráter dos povos latinos, mesmo de indivíduos ateus — hoje em dia — dentro dessas sociedades.

E outra: a religião faz parte da formação de caráter dos povos. Não há povo que não tenha suas crenças. E hoje, com a liberdade de expressão, ficou ainda mais fácil a convivência entre ciência e religião. A primeira busca evidências materiais e respostas sobre o mundo; a segunda dá uma resposta filosófica a certos questionamentos. É claro que radicalismo de qualquer lado será uma grande perda. Novamente.

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