Monthly Archives: Dezembro 2013

Ciência versus religião

Alguns setores da sociedade contemporânea tendem a ver religião e ciência como campos opostos, o que acredito ser uma divisão, se não casuísta, no mínimo, equivocada.

Temos a impressão de 1) o que vale é apenas o presente e 2) que esse presente é o cume de todo desenvolvimento humano. Ignorar a história ou lê-la com parâmetros modernos certamente induzirá a concepções de todo errôneas. Possivelmente a oposição entre ciência e religião é a mais patente delas.

Alguns creem impossível um cientista religioso ou um religioso cientista. Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e René Descartes eram cientistas religiosos; é um traço importante de suas personalidades que pode ser verificado em suas várias biografias. Gregor Mendel, o pai da genética moderna, era monge agostiniano e começou suas pesquisas no jardim do mosteiro em que viveu.

Essa oposição entre religião e ciência vem do fato de alguns autores quererem que esta última suplante a primeira, como um “culto à ciência”. E vale mesmo o argumento de que a religião leva obrigatoriamente ignorância para desqualificá-la — ou seja, de que bastam os saberes contidos em uma doutrina religiosa para reger a vida na terra.

A religião é a forma primeira de explicação do mundo. Basta ver no que consistem os primeiros cultos: deuses da fertilidade — humana e vegetal —, de fenômenos naturais, astros-deuses — principalmente o Sol, como entre os incas e os egípcios. Ou seja, há já uma percepção da relação de fenômenos então inexplicáveis como sendo necessários à vida.

E é claro que o “culto” dessas divindades-elementos ligaram-se à coisa pública, uma vez que aplacar a fúria dos deuses ou agradá-los por benesses era de interesse coletivo. Logo, as nascentes rei publicae — ainda sem territorialidade, ainda em nível tribal — abarcaram o culto. Melhor: tenho a impressão, que ainda requer muito para ser formulada de maneira coerente, de que a própria unidade tribal que deu origem ao sedentarismo e às primeiras cidades, como Çatalhöyük. Ou seja, a religião teve um importante papel de união na infância da civilização moderna.

A partir desse momento, Estado e religião formam uma coisa só, o que trouxe problemas. A aproximação da religião ao poder provocou a institucionalização da religião e tornou-a dogmática e, de dogmática em fetichista. Antes, eram assuntos religiosos comuns que norteavam a condução da coisa pública; em algum ponto da história, a balança inverteu-se, e o Estado passou a ditar os preceitos religiosos como instrumento de controle e propaganda. Com isso, os rituais, agora com uma hierarquia e com uma casta de “atravessadores” na relação fiel-divindade, tornam-se mais suntuosos e, logo, fetichistas.

Mesmo parecendo nociva, a associação de Estado e religião teve seus momentos de glória. O Levítico, livro da tradição judaico-cristã, é um grande exemplo disso. Ali há várias normas de conduta, principalmente sobre alimentação e higiene, o que acaba tendo valor legislativo em um período em que Estado e culto se confundiam.

O vínculo a religião servia mesmo para legitimar autoridade em um período que “direitos civis” e “tolerância” não estavam no cardápio. Ou a autoridade do rei vinha de Deus — o direito divino dos monarcas esteve em voga na Europa até a Revolução Francesa — ou vinha pelo fio da espada. Logo, não podemos julgar reis como tiranos apenas porque se baseavam no direito divino para governar. Era uma maneira de evitar guerras civis pelo poder.

O problema que existe entre religião e ciência no Ocidente, ou seja, na Europa Católica, tem mais relação com uma imobilidade institucional da Igreja que dogmas propriamente ditos.

Após a queda do Império Romano, foi a Igreja Católica, convertida em Estado, que manteve a cultura ocidental. Se não fosse esse papel da Igreja, o mundo seria muito diferente, e para pior, pode ter certeza. Porém, a acumulação de poder espiritual e temporal exercidos pela Igreja, benéfica nos primeiros séculos da Idade Média, começou a “fazer água” justamente num período cujo acontecimento foi promovido pela própria Igreja: o Renascimento.

Foi no Renascimento que a concepção de mundo mostrada pela Igreja pelo prisma da Bíblia começa a ser questionada e, na esteira das novidades, questiona-se também o próprio poder da Igreja. Formando naquele período não apenas uma religião, mas um Estado teocrático com influência direta sobre os outros estados católicos, a Igreja ensaia uma reação aos questionamentos, usa até mesmo a Inquisição para tal, mas entre “amigos”. Caso emblemático usado pelos que advogam a ignorância da religião frente ao pretenso “esclarecimento” da ciência é a questão de Galileu e a Igreja no caso de “heresia”, em que Galileu discordava do heliocentrismo.

Sabe-se que a pendenga entre Galileu e a Igreja, na verdade, foi uma rusga pessoal entre ele e seu amigo, o Papa Urbano VIII. O papa, longe de ser o grão-inquisidor, tinha vívido interesse no trabalho de Galileu; o problema foi Galileu, no seu “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”, ter posto frases atribuídas ao papa na boca de Simplício, o ingênuo defensor da corrente cosmológica aristotélica — em oposição ao heliocentrismo, de Copérnico.

Como àquela época a Igreja detinha o monopólio do ensino superior na Itália, o problema de Galileu é mais uma pendenga acadêmica que um embate ciência-religião. Lógico que uma afronta direta ao tipo de ciência pensado pela Igreja não era bem-vinda, mas a intransigência de Galileu no trato com a instituição custou-lhe a prisão domiciliar. Galileu “sofreu” por afrontar o lado político da Igreja, não exatamente pela defesa de suas ideias. Galileu, involuntariamente, atacou as “formas” da Igreja e não sua “essência”, pois era notoriamente um homem religioso e, pasmem, tinha apoio mesmo em parte da Cúria.

As grandes oposições criadas entre ciência e religião provêm da época da Revolução Francesa. A adoção da padronização social — uma sociedade em classes —, do sistema métrico — a padronização das unidades de massa e dimensão — e a substituição do catolicismo — um fator formativo importante ao francês da época — por um culto ao estado, todas essas novidades revolucionárias precisavam de uma contraparte a ser hostilizada. No caso da sociedade, a aristocracia e o clero. Quantos massacres os revolucionários não promoveram contra esses setores da sociedade, já que não “haveria espaço” para eles na sociedade revolucionária. Ou seja, o racionalismo científico proposto pelos revolucionários franceses. Estima-se que a revolução tenha matado entre 16 mil e 40 mil pessoas — uma merreca perto do que viria com Stálin e Hitler. Alguém lembrará da Inquisição, que matou milhões. Vamos aos milhões da Inquisição.

Vamos citar apenas o caso da Inquisição Espanhola. Segundo o historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade La Sapienza, de Roma, “a Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em “contumácia”, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.” As informações constam das Atas do Simpósio Internacional sobre a Inquisição, ocorrido em Roma, em outubro de 1998, promovido pela própria Igreja com a abertura dos arquivos do Santo Ofício ( o que pode ser verificado  em http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/october/documents/hf_jp-ii_spe_19981031_simposio_it.html, acessado em 27/12/2013, e também em artigo de Reinaldo Azevedo quando teve de defender-se de informações amalucadas de feministas http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/%E2%80%9Ce-os-milhoes-mortos-pela-santa-inquisicao%E2%80%9D-perguntam-e-eu-respondo/, acessado em 27/12/2013).

As informações acerca dos mortos pela Inquisição foram manipuladas pela historiografia pós-revolucionária e, posteriormente, pela marxista, na ânsia de criar um inimigo para atacar, no caso, a “cegueira” causada pelo cristianismo.

Diante de esses vários fatos, o que se percebe é que a oposição religião-ciência, hoje um filhote autônomo do politicamente correto, é filhote do terror revolucionário, mas que se agarrou tanto à ideia do racionalismo revolucionário que acabou gerando, no seio das Revoltas de 1848, a teoria socialista de Karl Marx. Por sua vez, o marxismo tem quase os mesmos inimigos: o clero novamente e a burguesia, que havia substituído a nobreza quando da Revolução Francesa.

A oposição religião-ciência não se sustenta por fatos políticos e históricos. E tampouco por fatos morais. É sabido que essa influência religiosa moldou os povos. Depois da queda do Império Romano, foi o catolicismo que, sendo também força política, criou uma área de cultura comum no Mediterrâneo, sendo parte incontornável do caráter dos povos latinos, mesmo de indivíduos ateus — hoje em dia — dentro dessas sociedades.

E outra: a religião faz parte da formação de caráter dos povos. Não há povo que não tenha suas crenças. E hoje, com a liberdade de expressão, ficou ainda mais fácil a convivência entre ciência e religião. A primeira busca evidências materiais e respostas sobre o mundo; a segunda dá uma resposta filosófica a certos questionamentos. É claro que radicalismo de qualquer lado será uma grande perda. Novamente.

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Cinema

Estou muito longe de ser um cinéfilo. Não devo ter assistido a vinte filmes inteiros na minha vida toda. Não tiro o mérito de diretores, atores, contrarregras, produtores e a legião de profissionais que o tornam possível. Porém, acredito que o rótulo de “sétima arte” seja muito pomposo para uma “arte menor”, derivada da 5ª arte (o teatro), com a inclusão de aparato técnico.

O cinema, como o teatro, me dá uma espécie de “vergonha alheia”, uma angústia. Em suma, vontade de levantar no meio da sessão. Não sei como há gente que se acotovela em première de filme, passa noites sem dormir porque o lançamento de determinada película está próxima. São incompreensíveis os fãs daquelas sagas intermináveis, com cinco, sete filmes; casos graves de monomania. E os que fazem cosplay de filme, então? Vão a pré-estreias caracterizados.

Meu problema com o cinema vem da “imposição”. Filmes de duas horas em que os fatos vêm se impondo, sem freio, com seu próprio ritmo, sem tempo para uma análise mais detalhada. O que não ocorre com a literatura. Alguém me dirá: “Ah, mas dá pra parar o DVD, voltar, ver de novo”. Não na sala de projeção. Em um livro, para-se a qualquer tempo.

É essa “imposição” que mata o cinema. E também a glamourização de técnicas teatrais; fora o abuso de efeitos especiais, principalmente nos filmes americanos: tire os efeitos e veja o que sobra. Sou mais pelas produções curtas. Séries, documentários. Cinema é para os fortes.

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Sobre toalhas

Toalhas de banho são um enigma na minha vida. Assim como as escovas de dentes. Vivo trocando e tomei ralhos imensos por conta da distração. Posso trocar a cor, o modelo; há uma chance de 9 em 10 de eu pegar a toalha que não me pertence e me enxugar com ela.

Toalhas são manufatos banais, e o banho é lugar, para mim, de pensamentos elevados. A água ajuda meu raciocínio; sob a ducha tenho meus melhores insights e o automatismo me impele a pegar a primeira toalha que vejo.

Uma bronca da mãe ou da esposa por conta de ter usado as suas toalhas, vá lá, mas há gente que dá uma importância irreal e desnecessária às toalhas.

Certa feita, eu e minha esposa fomos à casa de uma amiga que estava grávida. Lá, havia ainda mais casal, amigos dos amigos da minha esposa, cuja mulher também estava esperando nenê.

Entre conversas amenas regadas a guaraná e amendoim — não me lembro com precisão, mas todos na mesa eram abstêmios, fora as grávidas, pelos motivos óbvios —, surgiu os tópicos das toalhas e, claro, fui posto na berlinda pelos meus maus hábitos.

Foi então que uma das grávidas relatou o que considero a última palavra em monomania e toalhas. Uma amiga dela, numa outra conversa sobre toalhas, disse que usava uma peça para enxugar o rosto e outra para enxugar as nádegas e regiões adjacentes. Diante do pasmo da interlocutora, ainda arrematou: “Como assim você usa a mesma toalha para enxugar a bunda e a cara?”.

Confesso que tal nível de neura eu desconhecia: uma toalha para a cara e outra para bunda. Essa afirmação me deixou encafifado dias. Fiquei cheirando as toalhas usadas para ver se eu distinguia algum odor de bunda nelas, mas, no máximo, sentia aquele cheiro úmido de quando elas começam a ficar sujas. Continuei achando desnecessário o uso de duas toalhas para me enxugar.

Curioso mesmo deve ser uma pessoa dessas entrando numa loja. “Bom dia. Eu gostaria de duas toalhas de banho diferentes, porque uma é para o rosto, e a outra é para a bunda.”

Até respeito, mas, para mim, continua na categoria das manias indecifráveis.

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