O passado condena

É um velho adágio, principalmente quando nos valemos de ataques pessoais para desqualificar a opinião de alguém: “Teu passado te condena”. Nada é mais verdadeiro. Mas se engana quem pensa que são as grandes decisões erradas ou as grandes cretinices as que mastigam uma alma. Claro que maltratam, e a dor é aguda, porém breve. Pior ainda são as pequenas coisas que, num momento de distração, de ócio, voltam para torturar a alma. E são pecadilhos, mas pecadilhos mortais. Afinal, uma cápsula de cianureto não mata pelas suas dimensões, mas pelo que contém.

Fui uma criança ruim. Fiz e desfiz. Eu era o menino que fazia perguntas inoportunas e criava situações vexatórias, berrava além da conta. Que mentia sem muito remorso, que era cínico, chantagista, chorão. Quando meus pais lembram-se de algum episódio do qual eu também me lembro, não raramente me vem uma vergonha paralisadora.

Uma vez, na casa de um amigo de escola, a mãe desse amigo me chamou a atenção pelo fato de eu estar comendo de boca aberta. Lembro com precisão da minha reação: um suspiro de descontentamento. O mesmo tipo que hoje me causa ódio, um suspiro de fastio de criança mimada. Mas a memória é cruel. O meu suspiro mal-educado eternizou aquele momento para minha tortura futura: o relógio de parede, a toalha com estampa de morangos, os pratos de cerâmica branca. Lembro-me do fato, e a vergonha me tolhe o fôlego. Se estou na rua, tenho de encostar-me em alguma parede ou poste. Afinal, qual é a nossa vontade de quando uma criança faz esse tipo de birra conosco? É de partir-lhe a cara.

Uns 20 anos depois do fato, estava no mercado do bairro, na banca de frutas. Ergo a vista e quem vejo? A mãe do meu coleguinha. Estava mais velha, mas era ela. E vinha na minha direção. Senti meu coração disparar, a garganta trancar. E nada mais. Acordei na enfermaria do supermercado com um monte de gente ao meu redor. No meio daqueles rostos, procurei justamente aquele que não queria ver, o da mãe do coleguinha. Por sorte, a pobre mulher não me reconheceu e não quis saber porque um fulano barbudo caiu no meio do supermercado.

Coisas de 30 anos têm o poder de enrubescer e acabar com o meu dia. Porque meus pais ficaram com uma imagem cândida, mas eu me lembro do que aconteceu, do que fiz, com uma crueldade ímpar. Pode ser que a memória tenha pintado o fato com cores mais tétricas, mas sei que não foi exatamente como eles se lembram.

Creio que more aí o receio que tenho de crianças. Não consigo vê-las com a candura que as pessoas lhes atribuem, como anjinhos, criaturas puras. Vejo-as como anões sarcásticos, de riso sardônico e sem noção de limites; caráter que vão esconder, mas que vai acompanhá-las na vida adulta.

Depois do desbunde da infância, parece que tomei algum tipo de semancol, mas a dose foi exagerada. De criança chata, passei àquele tipo de adolescência de sentar em cantos e ficar horas parado. Alguém da família chegou a cogitar que eu estaria doente. Talvez. Doente de arrependimento, mesmo sem sabê-lo. O passado é um juiz inflexível e sisudo.

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