O sistema

Era quase um grito de ordem, nos anos 60, ser contra o “sistema”. O sistema capitalista, claro, que na visão de partidos de esquerda era responsável pela miséria, pela segregação, pelo neocolonialismo, blá, blá, blá e um monte de blá.

E o sistema tinha uma cabeça: os Estados Unidos. O cerne, o centro. E seus lacaios da Europa Ocidental. A Europa Oriental vivia no paraíso com cheiro de enxofre, guiado pela União Soviética.

Hoje o sistema é algo muito mais reles, mas continua sendo danoso. O sistema é aquela entidade que “cai” quando é a sua vez no caixa eletrônico. Ou quando você finalmente será atendido para fazer o licenciamento do carro. “Desculpa, senhor, o sistema caiu.”

Não é uma simples queda. É uma avalanche. Uma queda de sistema pode ter consequências comezinhas, como, por exemplo, impedir que você passe o cartão de débito na compra mensal para a casa, e você acaba empatando a fila do caixa do supermercado por meia hora, sentindo um misto de raiva, vergonha e vontade de ir ao banheiro. Ou pode falhar em alguma base de mísseis russa e disparar alguma ogiva, do meio da Sibéria Oriental. Afinal, se nossos sistemas são ruins, que pensar daqueles herdados do comunismo?

A informática, mãe dos sistemas, é a grande heroína do final do século XX e começo deste nosso século sujinho. Não sei se há, mas deveria haver uma personificação da informática, assim como havia as personificações de Roma, da Concórdia, da Felicidade, da Alegria, nas moedas romanas. A Informática deveria ser uma senhora translúcida, com cabos por veias e tendões, circuitos impressos a fazer a vez do cérebro. Nas mãos, uma cornucópia com saídas USB. Mouses no lugar dos pés. No ventre transparente, seu filho dileto, o sistema, que não passa de um grumo de teclas fora do lugar, informe. Para arrematar, a Informática fica apoiada sobre uma grande tina cheia de merda. Com os dois pés.

O sistema é o burocrata eletrônico, sem alma. Considerando, claro, que os burocratas de carne e osso tenham alma, o que é uma incógnita.

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