Profissão idiota

Antigamente, os idiotas se formavam na rua, no lar, nos ambientes em que atuavam. Eram autodidatas ou conviviam com verdadeiros professores da idiotia: o pai, a mãe, um parente, um vizinho, um idiota mais velho e experimentado no mister. Tornavam-se idiotas irrepreensíveis. Não havia uma mocinha que, no seu sonho dourado de família perfeita, não suspirasse por um idiota completo, orgulhoso de si; um idiota do mundo.

Mas isso foi nos tempos áureos da idiotice. Algum idiota pouco competente — mas um espertalhão polivalente e poderoso — criou um lobby para que os políticos aprovassem a regulação da idiotice. Depois de criada a regulação, o espertalhão criou um curso superior de idiotia. Vivemos a era do idiota diplomado.

Um diploma não garante nada ao idiota. Exceto o direito de ascender na burocracia pública ou privada. Porque o idiota continua se formando na rua, no trato com a profissão.

Com seu curso, o espertalhão arrebanhou um monte de idiotas incautos e sedentos de regulação, incluindo o Estado, que sempre teve interesse em grilhões. Agora, a idiotice era reserva de mercado, somente acessível a idiotas diplomados. O espertalhão ganha rios de dinheiro ensinando o que o candidato a idiota poderia aprender exercendo a idiotia na prática.

O espertalhão criou um curso complexo, com várias disciplinas: Introdução à Idiotia I e II, Teoria do Idiota, Idiotia Marinha, Anatomia do Idiota-padrão, O Idiota e o Mercado de Trabalho. Fora as optativas.

Os futuros idiotas esforçam-se para pagar as mensalidades. Acabam sujeitando-se a empregos mixos, como boçais de meio período, jacus, mulas, energúmenos e até mesmo a um reles cargo de tonto. Com o mísero salário, bancam o futuro, vislumbram de noite o diploma de idiota, que paira no escuro, brilha; o Santo Graal de todo idiota moderno. Mesmo com o diploma de idiota, alguns dos alunos jamais deixarão o cargo que deu-lhes sustento, continuarão reles tontos.

Com seu monopólio questionado pela primeira vez, o filho do espertalhão — nesse lapso de tempo, o espertalhão sênior já havia morrido — maquinou mais uns lobbies e campanhas que levavam a crer que o exercício correto da idiotia só era possível com o curso superior. Foram criados o Conselho Federal de Idiotia e sindicatos de idiotas. O exercício da profissão de idiota não é considerado legal sem o registro no conselho. Aventou-se até a possibilidade de um “exame de ordem”.

Hoje a idiotia é um monopólio de bacharéis, que defendem sua guilda com unhas e dentes, apoiados pelos cursos superior de idiotia e pelas organizações que usam da mão de obra do idiota. A burocracia criada pelos idiotas diplomados os engole e os encolhe. E tudo que é burocratizado perde o romantismo, definha e morre, irremediavelmente.

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