Morte estrepitosa

Quando se fala em língua morta, logo se pensa no latim e no grego clássico. De fato, são línguas mortas porque ninguém as usa como instrumento de comunicação diário, salvo grupos de maníacos universitários.

Mas as línguas não morrem como nós, de ataques cardíacos fulminantes ou em decorrência de derrames. Elas morrem de forma sutil, sem que se perceba; cânceres seculares — outras línguas — instalam-se no seio da comunidade de falantes e sufocam lentamente variantes linguísticas. Hoje temos gente que se preocupa com línguas moribundas, que as põe em uma UTI linguística e acompanham a vida de seus últimos falantes. Mas, geralmente, as línguas somem do nada. Chega-se a um vilarejo italiano em que se falava uma variante de servo-croata e, tempos depois, os velhos morreram e as novas gerações, pressionadas pela escola e pela mídia, deixam de lado aquela língua inútil, que só servia para falar com os velhos.

Há dois casos de desaparecimento, porém, que me deixam intrigado. O primeiro é o da língua geral paulista. Durante um longo período da nossa história, a língua geral — quase um esperanto de base tupi montado e regularizado pelos jesuítas — foi língua veicular das populações da capitania de São Vicente; era usada pelos bandeirantes e pelos índios. Alguns desses tremendos homens eram falantes nativos de língua geral e arrastavam um português protocolar e selvagem. Um decreto do Marquês de Pombal, de meados do século XVIII, simplesmente determinou a extirpação daquela língua, que, no lapso de um século, desapareceu de fato, deixando apenas alguns vestígios nos dialetos do interior paulista: o erre retroflexo — o erre “caipira”, tão característico dessas regiões interioranas —, uma meia-dúzia de palavras e um saco de topônimos híbridos, que poucos falantes do tupi original entenderiam.

O outro caso talvez seja a única morte de língua que teve data e hora. Trata-se do dálmata — sem cachorradas, por favor —, uma língua românica falada na Ístria e na Dalmácia. A língua definhou por muito tempo, e os únicos estudos efetuados durante sua existência foram feitos pelo linguista Giulio Matteo Bartoli (1873-1946), que teve como corpus o último falante de dálmata — se bem que não fosse nativo —, Tuone Udaina.

Udaina, que era barbeiro, aprendeu a língua dos seus pais, esses sim, falantes nativos. No decorrer da vida, passada na ilha de Veglia — Krk para os eslavófilos e quem mais conseguir pronunciar um nome sem vogais —, rapava rostos e via o dálmata rapar-se da língua dos mais novos. No fim da vida, quando Bartoli o encontrou, era o último exemplar, o thesaurus de toda uma língua.

Registrar corpus de um só objeto é considerado uma grosseria pelos critérios de pesquisa da ciência atual. Mas não havia remédio: ou Bartoli registrava o que Udaina lhe dizia, ou a língua estaria perdida para sempre. Será que o velho barbeiro, com o legítimo intuito de divertir-se, não quis tirar uma casquinha do jovem glotologista e posto alguma palavra ou entonação simplesmente inexistente? Pode ser que fosse honesto até a ponta da língua. Enfim, jamais saberemos.

O dálmata teve um fim retumbante. A língua e o último homem que a mantinha na terra morreram na tarde de 10 de junho de 1898. A explosão de uma mina terrestre deu cabo de ambos. Provavelmente o fim mais pirotécnico de uma língua.

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