Fetiche ortográfico

Foi sintomático o chilique causado na imprensa pelas redações do Enem do ano passado. E também é sintomático o chilique do estrato médio da população. No que se refere à celeuma causada pela Veja e outros veículos de comunicação, já vimos bem seus efeitos. Mas precisamos ver que as opiniões da revista refletem parte da população, nem que seja uma pequena parcela.

Há algum tempo, criticou-se ferozmente uma redação do Enem publicada como exemplo de nota máxima. No pequeno texto, havia três ocorrências da palavra “espanhóis”; uma delas estava sem o devido acento. A celeuma pelas redes sociais foi razoável. Na ânsia de criticar o processo todo — de fato, há muitos problemas não apenas com o modelo da avaliação, mas também com o próprio ensino, como bem sabemos —, a redação foi esculhambada.

Qualquer pessoa que tenha alguma intimidade com redações do tipo sabe que há vários fatores a serem levados em conta na construção de um texto. Claro que a observância das regras ortográficas é um deles. Que está dentro da norma culta da língua. Ou seja, é um subitem.

A preguiça me impede de procurar o texto, mas eram patentes algumas características: atendia ao tipo pedido na prova — que fosse dissertativo-argumentativo —, não tinha erros de sintaxe — e, nesse ponto, é uma completa raridade —, era coerente e apresentava uma ”proposta de intervenção” plausível.

Considerando que havia três ocorrências da mesma palavra e apenas uma tinha problema, pode-se inferir que 1) trata-se de um mero esquecimento, ou seja, a pessoa que escreveu o texto conhece a regra e, por um acaso, esqueceu-se do sinal e 2) o texto fora transcrito, apresentava-se digitado; pode mesmo ter sido um erro de digitação.

Os que se puseram a gritar preocupavam-se mais em atingir o governo e a má educação, o que até é legítimo, mas por outros meios. Ali simplesmente não cabia esse tipo de colocação, que soou ridícula e tacanha.

Esse fetiche ortográfico pôde — e pode ainda — ser visto com relação a tal reforma ortográfica que, além de inútil, despertou a imbecilidade latente; imbecilidade porque houve gente que falou mesmo em “reforma da língua”. Reforma da língua foi o que aconteceu na Grécia, em 1976, quando uma variedade de língua, mais popular, tomou o lugar da até então vigente. Aí tivemos uma “reforma linguística”.

Ortografia é uma convenção. Uma convenção necessária, claro, para que certos aspectos de um texto escrito sejam identificáveis por qualquer leitor adestrado na língua. A ortografia tem um papel importantíssimo na manutenção da unidade da escrita, um pouco como as normas de trânsito. Mesmo normas de trânsito passam eventualmente por alguns acertos, o que não significa que ruas deixarão de existir ou que todos os condutores estão desautorizados a dirigir por conta da alteração.

Trata-se apenas de um fetiche. Um texto pode estar absolutamente coerente com as normas ortográficas e simplesmente não atender ao que se propõe ou ao que foi pedido. É preciso ponderação. Nem tanto Marcos Bagno, nem tanto Napoleão Mendes de Almeida.

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