Disque-idiotice

Quando eu era criança, minha família não tinha telefone em casa. Meu pai entrou num dos famosos planos de expansão e aguardamos quase três anos pela linha. Naquela época, só havia telefone na casa da minha avó e no emprego do meu pai. E, pasmem, passávamos o dia todo sem nos falar. Meu pai saía de casa às 6 da manhã para ir trabalhar em Pinheiros e só voltava às 8 da noite, às vezes às 9 ou 10 horas por conta de algum serão.

Mesmo quando o telefone foi instalado em casa, era usado para coisas muito pontuais. Eventualmente meu pai telefonava do escritório; uma vez por semana, minha mãe falava com a minha avó. Nós, as crianças, só falávamos em alguma chamada já iniciada por algum adulto. “Vem dar um oi pra vovó.” Ou então: “Hoje é aniversário do pai, vem falar com ele…”

Já mais velho, quando estava no segundo grau, levava comigo fichas telefônicas, que eram como moedas, mas tinham três ranhuras e eram feitas de zamac — uma liga de zinco, alumínio, magnésio e cobre; claro que não sabia disso à época, foi a Wikipédia quem me disse. Eram cinza e valiam três minutos de conversação, o que, nas contas domésticas, equivalia a um pulso.

Só ligava para casa quando realmente tinha necessidade. As ligações para dizer “oi” eram raras. “Mãe, vai ter reposição na escola. Fico por aqui na parte da tarde” ou “Estou levando um colega para casa; vamos fazer um trabalho”.

Logo começaram a surgir os cartões telefônicos que, no mínimo, eram de 20 unidades — fichas ou pulsos, como queira. Os mais velhos não gostaram; sentiram-se obrigados a comprar 20 fichas de uma vez. Achavam um desperdício. “Não vai pegar”, disse meu pai certa vez.

Ainda nessa transição das fichas, surgiram os primeiros telefones celulares. Não que não existissem antes, mas os primeiros começaram a aparecer nas mãos de pessoas comuns. Como a telefonia ainda estatal, havia também uma longa fila de espera e os aparelhos eram monolíticos, pegavam mal — havia ainda poucas antenas — e a bateria não durava nada.

Era a época da ostentação. Os primeiros idiotas penduravam, ao lado do pager, aquele dinossauro telefônico. Eu e o meu pai, no Centro, certa vez, vimos o celular arriar as calças de um cidadão. Em plena praça do Patriarca. O cinto tinha de ser forte.

Quando terminei o segundo grau — àquela altura já era ensino médio —, alguns colegas já tinham um telefone seu. Mas que tocavam pouco também. Não havia ainda toques polifônicos nem internet nos aparelhos. Aliás, a internet é outra coisa que ainda rastejava.

Os anos 2000 foram a banalização do celular. Companhias privadas, barateamento das ligações e aparelhos mais em conta. Chips. Tudo o que é barato torna-se banal. Hoje, há gente que não vai ao banheiro sem o telefone. As pessoas passam na rua berrando ao telefone ou passam receita de feijão no ônibus cheio. Ordens inúteis, conversa melada de namorados. Não se pode estar “incomunicável” por cinco minutos.

Resisti muito ao celular. Pouco antes da minha queda, era um dos poucos na faculdade que não tinha um aparelho. Por contraste, era uma liberdade. O celular interrompia conversas, atrapalhava aulas; no meu bolso não havia celular algum para me atrapalhar a vida.

Depois de algum tempo, acabei comprando um aparelho. E tive outros. Hoje, tenho um desses smartphones, que me serve mais para ver e-mail do que para falar. Mas ainda conservo alguns hábitos salutares: se estou em aula ou palestra, desligo-o ou deixo-o no vibracall; não atendo o telefone no meio da rua ou em lugares nos quais o ruído me impeça de ouvir. Evito conversas longas. Um oi, um tchau, uma informação estritamente necessária. Não me conformo em ver as pessoas tratando o recurso como se fosse uma conversa cara a cara, uma conversa desnecessária, que poderia ser em qualquer outro lugar e horário e não no meio da rua, na hora do almoço.

A tecnologia idiotiza as pessoas. Quase sinto falta das fichas telefônicas.

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