Diálogo forçado

Não gosto de jogar conversa fora. Nunca serei aquele velho inconveniente da fila do banco ou aquela senhora gorda que se senta ao seu lado no ônibus e reclama do calor. Há quem goste do contato, do “calor humano”. Mas calor humano é algo que aponta diretamente para axilas suadas. Ambos fedem.

Esses diálogos de esquina pouco acrescentam à vida da gente. Tempo, política, crime. Com poucas variações. Há uma predileção mórbida pelas desgraças, o que explica o magote de gente que se junta em atropelamentos ou acidentes.

Não tenho paciência e tenho pavor quando um desses mendigos de atenção se dirige a mim. Minha vontade é pedir para a pessoa ficar quieta, mas as normas da boa educação mo impedem. Tento a evasão, respostas lacônicas e, no máximo, trissilábicas. Se o interlocutor tiver algum pudor, para de insistir. Mas essa casta constitui uma minoria; grande parte é adepta mesmo do monólogo com estranhos. Extorque opiniões; geralmente quer concordância. Procuro concordar, independentemente do absurdo proferido ou da obviedade relinchante. “O prefeito é um ladrão”, “A prefeitura não faz nada”, “O atendimento desse banco é péssimo”, “Esses ônibus nunca passam no horário”, “Gosto/não gosto do Lula”, “O salário não dá mais pra nada”. Desabafos.

“Ahã”, “É”, “Verdade”.

Há interlocutores mais agressivos, que não se conformam com respostas simples. Insistem com um olhar de fogo inquisitorial. Creem-se portadores da Providência Divina, são torquermadas do cotidiano.

Quando se vão — ou eu dou um jeito de esquivar-me —, é um alívio, mas a imagem do chato me persegue dias. Fico lembrando o diálogo sem nexo. Sem saber, parasita meu pensamento durante dias e, às vezes, fica aparecendo de quando em quando. Lembro-me de um caso, de uns cinco ou seis anos atrás. Um homem subiu no ônibus na rua Augusta e ficou de pé perto de mim. Ficou soltando frases aleatórias para sua plateia, o ônibus cheio. “Esse país é um absurdo”, “Um absurdo”. Eu estava sentado e de cabeça baixa. Tratei de simular um cochilo.

Mais alguns minutos de monólogo e ninguém dava atenção ao molesto passageiro. Ele tocou o meu ombro: “Você poderia abrir a janela… está calor”. Abri e, imediatamente, fui capturado pelo chato. Caí na armadilha. “Esse governo… uma vergonha!”. E me manteve refém com uma história confusa envolvendo Guarulhos, um remédio, sua bronca a Lula. Mostrou uma receita amarrotada — pensei que fosse pedir dinheiro, receitas sujas quase sempre implicam em contribuição para comprar remédio; o que facilitaria: dinheiro dado, silêncio comprado; mas não. Falou por uns 20 minutos, enquanto o ônibus tentava subir a Augusta congestionada. Por sorte, eu desceria na Paulista.

No final da palestra, uma advertência: “Não vote nesse safado do Lula; é um cretino”. A única frase mais ou menos válida daquela confusão de palavras.

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