Monthly Archives: Novembro 2013

O passado condena

É um velho adágio, principalmente quando nos valemos de ataques pessoais para desqualificar a opinião de alguém: “Teu passado te condena”. Nada é mais verdadeiro. Mas se engana quem pensa que são as grandes decisões erradas ou as grandes cretinices as que mastigam uma alma. Claro que maltratam, e a dor é aguda, porém breve. Pior ainda são as pequenas coisas que, num momento de distração, de ócio, voltam para torturar a alma. E são pecadilhos, mas pecadilhos mortais. Afinal, uma cápsula de cianureto não mata pelas suas dimensões, mas pelo que contém.

Fui uma criança ruim. Fiz e desfiz. Eu era o menino que fazia perguntas inoportunas e criava situações vexatórias, berrava além da conta. Que mentia sem muito remorso, que era cínico, chantagista, chorão. Quando meus pais lembram-se de algum episódio do qual eu também me lembro, não raramente me vem uma vergonha paralisadora.

Uma vez, na casa de um amigo de escola, a mãe desse amigo me chamou a atenção pelo fato de eu estar comendo de boca aberta. Lembro com precisão da minha reação: um suspiro de descontentamento. O mesmo tipo que hoje me causa ódio, um suspiro de fastio de criança mimada. Mas a memória é cruel. O meu suspiro mal-educado eternizou aquele momento para minha tortura futura: o relógio de parede, a toalha com estampa de morangos, os pratos de cerâmica branca. Lembro-me do fato, e a vergonha me tolhe o fôlego. Se estou na rua, tenho de encostar-me em alguma parede ou poste. Afinal, qual é a nossa vontade de quando uma criança faz esse tipo de birra conosco? É de partir-lhe a cara.

Uns 20 anos depois do fato, estava no mercado do bairro, na banca de frutas. Ergo a vista e quem vejo? A mãe do meu coleguinha. Estava mais velha, mas era ela. E vinha na minha direção. Senti meu coração disparar, a garganta trancar. E nada mais. Acordei na enfermaria do supermercado com um monte de gente ao meu redor. No meio daqueles rostos, procurei justamente aquele que não queria ver, o da mãe do coleguinha. Por sorte, a pobre mulher não me reconheceu e não quis saber porque um fulano barbudo caiu no meio do supermercado.

Coisas de 30 anos têm o poder de enrubescer e acabar com o meu dia. Porque meus pais ficaram com uma imagem cândida, mas eu me lembro do que aconteceu, do que fiz, com uma crueldade ímpar. Pode ser que a memória tenha pintado o fato com cores mais tétricas, mas sei que não foi exatamente como eles se lembram.

Creio que more aí o receio que tenho de crianças. Não consigo vê-las com a candura que as pessoas lhes atribuem, como anjinhos, criaturas puras. Vejo-as como anões sarcásticos, de riso sardônico e sem noção de limites; caráter que vão esconder, mas que vai acompanhá-las na vida adulta.

Depois do desbunde da infância, parece que tomei algum tipo de semancol, mas a dose foi exagerada. De criança chata, passei àquele tipo de adolescência de sentar em cantos e ficar horas parado. Alguém da família chegou a cogitar que eu estaria doente. Talvez. Doente de arrependimento, mesmo sem sabê-lo. O passado é um juiz inflexível e sisudo.

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Aeroporto

Andei de avião poucas vezes na vida, um, porque não viajo muito e, dois, os lugares aos quais vou costumam ser mais perto. Mas é inegável a rodoviarização dos aeroportos. O problema não é o aeroporto cheio de gente. Isso é até desejável, é sinal de que o dinheiro está circulando, gente que há 20 anos lotava Tietê, Barra Funda, Jabaquara e o finado terminal Bresser hoje pode dispor da comodidade e da rapidez dos aviões.

O problema da superlotação dos aeroportos é similar àquele causado pela LDB de 1971, que pôs todo mundo na escola sem a devida expansão da rede. Falta infraestrutura. Fora a questão técnica, veio com os novos alados a falta de educação. Chiliques dignos de feira livre, crianças correndo por toda parte e seus pais omissos, filas, livrarias recheadas de livros ruins.

A rodoviária ficou suave de suportar. Algo quase romântico: viagens lentas e revistas de palavras cruzadas, o jornal do dia. Os ônibus são mais pontuais, e as conexões, menos demoradas. Mas, pelo andar da carruagem — ou pelo voo do turbo-hélice — os ônibus estão condenados como os trens de passageiros. A ferrovia ficou relegada ao transporte de carga, e as estradas ficarão como reino absoluto dos automóveis particulares e pequenos trajetos de ônibus suburbanos. Os trajetos médios serão dos aviões; os aeroportos herdarão das rodoviárias a sujeira, o caos, os banheiros imundos. Claro que haverá banheiros limpos. A R$ 2.

Nem sempre o progresso vem para bem.

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Desancada

Como não reconhecer o poder corretivo de uma desancada na nossa vida? O pai, um tio, um parente, um vizinho, que, na hora certa, soube dizer aquilo que você não queria ouvir, mas precisava ouvir; aquele conselho justo, mas com o poder de água fervente sobre o lombo. E é justamente aquela marca que faz você não cair na besteira de repetir o ato que motivou a desancada.

No meu caso, eu mantinha um blogue — um dos vários; há anos eles vêm se sucedendo e, pelo menos para mim, mostram uma evolução positiva da minha escrita e das minhas convicções. Eu mantinha o bendito blogue e sofria de uma paixonite mais catarrenta que doente de pneumonia à beira da morte. Inspirado pela minha coita, escrevi um texto horroroso. Como se não bastassem as palavras fora do tempo — males de quem tem pouca intimidade com a escrita e quer impressionar —, um melaço insuportável caía das palavras. Postei o texto e ele ficou ali umas seis horas talvez.

Foi o desafeto de um amigo que, para atacá-lo, veio fuçar no meu blogue. E achou o alvo perfeito, aquele texto enviesado e porco. Óbvio que o comentário foi um argumentum ad hominem — o cara me chamou de bicha com todas as letras e espezinhou o conteúdo do texto e qualquer sentimento que pudesse emanar dali. Se ele tivesse me batido, talvez tivesse doído menos. O comentário ali, na minha caixa de e-mail, me paralisou. Mas tinha alguma justiça nele. E a justiça está longe de ser um travesseiro de plumas.

Retirei o comentário do ar. E depois de alguns minutos, tirei também a postagem, que foi para o limbo. Vitória do desafeto, mas vitória minha também. Aprendi que se devem evitar pessoalidades na internet — embora não houvesse nomes citados no texto — e que toda crítica, por mais destrutiva que seja, deve ser levada em conta.

Desse episódio da fubecada on-line, posso dizer que deixei de ser um adolescente naquele dia. O tal desafeto, que acabou sendo benfeitor sem sabê-lo, morreu faz um tempo, soube pela internet. Não tive chance de agradecer-lhe.

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O sistema

Era quase um grito de ordem, nos anos 60, ser contra o “sistema”. O sistema capitalista, claro, que na visão de partidos de esquerda era responsável pela miséria, pela segregação, pelo neocolonialismo, blá, blá, blá e um monte de blá.

E o sistema tinha uma cabeça: os Estados Unidos. O cerne, o centro. E seus lacaios da Europa Ocidental. A Europa Oriental vivia no paraíso com cheiro de enxofre, guiado pela União Soviética.

Hoje o sistema é algo muito mais reles, mas continua sendo danoso. O sistema é aquela entidade que “cai” quando é a sua vez no caixa eletrônico. Ou quando você finalmente será atendido para fazer o licenciamento do carro. “Desculpa, senhor, o sistema caiu.”

Não é uma simples queda. É uma avalanche. Uma queda de sistema pode ter consequências comezinhas, como, por exemplo, impedir que você passe o cartão de débito na compra mensal para a casa, e você acaba empatando a fila do caixa do supermercado por meia hora, sentindo um misto de raiva, vergonha e vontade de ir ao banheiro. Ou pode falhar em alguma base de mísseis russa e disparar alguma ogiva, do meio da Sibéria Oriental. Afinal, se nossos sistemas são ruins, que pensar daqueles herdados do comunismo?

A informática, mãe dos sistemas, é a grande heroína do final do século XX e começo deste nosso século sujinho. Não sei se há, mas deveria haver uma personificação da informática, assim como havia as personificações de Roma, da Concórdia, da Felicidade, da Alegria, nas moedas romanas. A Informática deveria ser uma senhora translúcida, com cabos por veias e tendões, circuitos impressos a fazer a vez do cérebro. Nas mãos, uma cornucópia com saídas USB. Mouses no lugar dos pés. No ventre transparente, seu filho dileto, o sistema, que não passa de um grumo de teclas fora do lugar, informe. Para arrematar, a Informática fica apoiada sobre uma grande tina cheia de merda. Com os dois pés.

O sistema é o burocrata eletrônico, sem alma. Considerando, claro, que os burocratas de carne e osso tenham alma, o que é uma incógnita.

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Aquele folgado

Alguém entra na sua casa sem avisar. Come a sua comida, bebe a sua cerveja, bate no seu cachorro, vê seus filmes, leva livros emprestados e não os devolve. Mata as samambaias, passa a mão na bunda da sua mulher, caga no canto do quarto e se limpa com as cortinas. Usa a merda para sujar as paredes — diz que é arte —, quebra vidros. Ao ir embora, dá um tapa na sua cara e uns conselhos sobre moral, higiene pessoal, estética, economia doméstica e da importância de dividir as coisas. Leva o seu carro. Essa pessoa existe. Chama-se Estado.

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Mártires do pau oco

Neste feriado da República, José Dirceu e José Genoino, envolvidos na bolorenta Ação Penal 470, que ficou conhecida popularmente como o Escândalo do Mensalão, finalmente foram detidos e vão passar uns dias na cadeia.

Não sei se há motivos para júbilo, pois acho que vão ficar pouco tempo na cadeia. E porque foram presos fazendo a ritualística dos mártires, com o punho erguido, o famoso símbolo de resistência socialista.

Há gente que realmente acredita na inocência deles. Ou, pelo menos, é paga para isso. Essa crença lhes dá forças para manter o topete alto, de terem a cara de pau de dizer que o “direito de ampla defesa deles não foi respeitado”, sendo que temos um julgamento que se arrastou por oito anos e um período inexplicável de tempo entre a proclamação da sentença e a prisão efetiva desses condenados.

Um deles — não me lembro, mas também pouco importa — disse que o julgamento foi político e se declarou preso político. Se foi um julgamento político, estamos falando de guerra entre facções do PT. Dos 11 ministros, apenas dois não foram indicados pelos governos petistas: Celso de Mello e Marco Aurélio. Logo, esse tipo de afirmação não se sustenta.

Obviamente que esse assunto traz aquela polarização sebenta que tomou conta dos debates políticos no Brasil que, para os observadores hipermétropes, dividem-se em “tucanos” e “petralhas”. PSDB e PT são basicamente a mesma coisa. O peessedebista é um petista que terminou a faculdade, toma banho, usa desodorante e tem opiniões aparentemente menos radicais, mas, em essência, pensa na mesma voltagem.

Apesar de o PSDB nos ter legado o traste da reeleição, ele não tem um projeto de permanência no poder a longo prazo — pelo menos até agora. O PT, herdeiro direto daqueles que lutaram contra a “ditadura” — para implantar algo ainda pior que o regime dos milicos —, tem um ideário de partido único: buscam a perpetuidade no poder e abominam a oposição. Fingem que jogam o jogo, mas a vontade real é chutar o tabuleiro e pisotear as peças.

Por isso não sei o que representa a prisão dos dois mensaleiros. Acho que só servirá para inflar ainda mais a mística de mártir que acompanha o PT. Mesmo sendo um mártir que mais brande o chicote do que apanha.

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Curto-circuito

Não sou desse tipo de gente que faz escândalo por qualquer coisa, que berra em porta de pronto-socorro, em fila de banco, em portão de escola em dia de vestibular. Às vezes as pessoas berram por motivos justos: um filho moribundo, taxas indevidas cobradas pelas instituições bancárias — que merecem um Oscar no quesito —, os cinco minutos que jogaram um ano de estudos na privada.

Quando calha de ser minha vez de sofrer alguma frustração, alguma paulada do destino, longe de berrar, a voz se me paralisa na garganta. Sinto uma apatia de ficar horas sentado sem emitir palavra. A sensação dessa apatia é como um cansaço imenso. Não uma simples fadiga, mas um cansaço de doença, que suga todas as forças, um cansaço daqueles resfriados que nos deixam acamados.

Não tenho o furor que toma a maioria das pessoas; sou possuído pela boçalidade infinita, uma frustração silenciosa, uma raiva ainda informe, que vira raiva efetiva nas horas seguintes. Durante esse período, sou incapaz de responder a estímulos simples ou a perguntas triviais do tipo “Açúcar ou adoçante no café?”; “Quer ficar aqui ou ir pra casa?”; “Débito ou crédito?”.

Há algumas vantagens nesse meu modus operandi. Às vezes acontece de a notícia que causou o mal-estar simplesmente ser desmentida. Sinto um alívio estranho, como se soubesse que a má notícia até aquele instante vigente fosse um mal-entendido ou uma escandalosa mentira. O aperto no coração se vai e a vida retoma o rumo.

Não sei o que pode ser pior, se esse curto-circuito que desliga a percepção ou o curto-circuito que põe fogo no prédio.

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